DEA trata Delcy Rodríguez como alvo prioritário do tráfico desde 2022
A vice-presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, é tratada como “alvo prioritário” pela DEA desde 2022, segundo documentos obtidos pela Associated Press. A classificação expõe o peso político da dirigente nas investigações americanas sobre tráfico de drogas e lavagem de dinheiro ligados ao regime de Nicolás Maduro, embora ela nunca tenha sido formalmente acusada.
Escalada silenciosa nas investigações americanas
Os registros internos da agência antidrogas dos Estados Unidos mostram que o interesse da DEA por Delcy Rodríguez começa bem antes do rótulo mais duro. Pelo menos desde 2018, ano em que ela assume a vice-presidência, a agência monta um dossiê de inteligência sobre a dirigente, com detalhes de associados, movimentações financeiras e suspeitas que vão do tráfico de drogas ao contrabando de ouro.
Em 2022, esse material resulta na inclusão de Rodríguez na categoria de “alvo prioritário”, faixa reservada a suspeitos considerados de “impacto significativo” em redes de narcotráfico. A decisão permite o uso de mais recursos, cruzamento ampliado de dados e coordenação entre escritórios da DEA em diferentes países. Ainda assim, o rótulo não se traduz, por si só, em um processo criminal.
A classificação contrasta com a forma como a liderança americana a trata em público. Donald Trump, hoje de volta à Casa Branca, cita o nome de Rodríguez com frequência como ponte essencial nas negociações com Caracas após a captura de Nicolás Maduro e sua transferência para os Estados Unidos para responder por acusações de tráfico de drogas. Nesta semana, o presidente volta a elogiá-la. Chama a dirigente de “pessoa formidável” e reforça que ela mantém “contato próximo” com autoridades de Washington, incluindo o secretário de Estado, Marco Rubio.
Os documentos analisados pela AP revelam ao menos dez investigações abertas pela DEA em que o nome de Rodríguez aparece, algumas ainda em andamento. Os casos envolvem escritórios da agência em países como Paraguai e Equador, além de cidades americanas como Phoenix e Nova York. Trata-se de um raio de ação que acompanha as rotas do crime organizado na América Latina e tenta rastrear o papel de altos quadros do chavismo nessas operações.
Tres agentes atuais e aposentados da DEA, ouvidos pela agência de notícias, afirmam que o conjunto de registros indica um “interesse intenso” na vice-presidente durante grande parte do seu mandato. As razões formais para elevá-la à condição de alvo prioritário, porém, não aparecem de forma explícita nos relatórios de inteligência.
Hotel em Margarita, Alex Saab e a zona cinzenta do poder
Um informante confidencial relata à DEA, no início de 2021, que hotéis na ilha de Margarita, um dos destinos turísticos mais conhecidos do Caribe venezuelano, são usados “como fachada para lavar dinheiro”. O nome de Delcy Rodríguez surge associado a esses relatos, que conectam empresários, militares e intermediários a operações de lavagem vinculadas ao tráfico e ao câmbio ilegal de dólares.
No ano passado, a vice-presidente também aparece ligada, nos documentos, a contratos públicos concedidos ao empresário colombiano Alex Saab, um dos aliados mais próximos de Maduro. Saab é preso em 2020 e extraditado para os Estados Unidos sob acusações de lavagem de dinheiro, num caso que expõe os bastidores dos programas de importação de alimentos e combustíveis administrados pelo governo venezuelano.
Mesmo após o perdão concedido a Saab pelo então presidente Joe Biden em 2023, como parte de uma troca de prisioneiros com Caracas, as investigações sobre a teia financeira em torno dos contratos continuam. Rodríguez permanece no radar. A suspeita de investigadores americanos é que ela opera como peça política central em esquemas que garantem recursos ao regime, dentro e fora da Venezuela.
O governo dos Estados Unidos, porém, nunca a acusa publicamente de qualquer crime. A lista de uma dúzia de autoridades venezuelanas denunciadas por tráfico de drogas, na qual figura o próprio Maduro, não inclui a vice-presidente. A ausência formal é vista, entre especialistas, como sinal de que a inteligência ainda não se converte em prova capaz de sustentar um processo.
“Ela estava em ascensão, então não é surpreendente que tenha se tornado um alvo de alta prioridade por causa do cargo”, avalia Kurt Lunkenheimer, ex-procurador federal em Miami que atua em casos ligados à Venezuela. “Mas existe uma diferença entre ser alvo prioritário e haver provas suficientes para sustentar uma acusação”, completa.
Em paralelo, cresce o debate sobre a natureza do regime venezuelano. Para Steve Dudley, codiretor da organização InSight Crime, “o atual governo venezuelano é um regime híbrido criminoso” e “alcançar posições de poder passa, no mínimo, por tolerar ou favorecer atividades ilícitas”. A definição explicita a zona cinzenta em que Delcy Rodríguez se move: integrante da cúpula de um Estado sob sanções pesadas e, ao mesmo tempo, interlocutora valorizada por Washington em momentos-chave.
A própria trajetória recente ajuda a explicar esse lugar ambíguo. Em setembro de 2018, a Casa Branca de Donald Trump inclui Rodríguez em uma lista de sanções financeiras. O texto a descreve como peça-chave na manutenção do controle político de Maduro. Seis anos depois, a mesma liderança republicana recorre a ela para tentar redesenhar a relação com Caracas em meio à crise humanitária e à pressão migratória que afeta toda a região.
Pressão diplomática, incerteza jurídica e próximos passos
O caso de Delcy Rodríguez expõe um dilema central da política externa americana para a Venezuela. De um lado, a DEA e outros órgãos defendem investigações amplas contra figuras associadas ao chavismo, sob o argumento de que redes de narcotráfico, contrabando e corrupção alimentam a crise econômica e política do país. De outro, a Casa Branca precisa de canais confiáveis para negociar eleições, sanções e libertação de presos políticos.
Na prática, o rótulo de “alvo prioritário” funciona como lembrete constante desse risco político. Cada gesto de aproximação com a vice-presidente carrega o custo de ser visto, dentro e fora dos Estados Unidos, como concessão a uma liderança sob suspeita. Cada movimento em direção a uma acusação formal pode fechar portas para qualquer saída negociada, inclusive em temas sensíveis como o fluxo de migrantes venezuelanos para países vizinhos, entre eles o Brasil.
Enquanto isso, as investigações continuam a se desenrolar em múltiplas frentes. Escritórios da DEA na América do Sul seguem trocando informações com promotores e polícias locais sobre movimentações financeiras e contratos públicos com empresas ligadas ao entorno de Maduro. Qualquer avanço relevante, como a cooperação de novos delatores ou o rastreamento de grandes transferências em bancos estrangeiros, pode alterar o cálculo político em Washington.
O desfecho permanece em aberto. A ausência de denúncias formais até agora alimenta especulações sobre o peso real das evidências contra Rodríguez e sobre o grau de disposição da Casa Branca em confrontar, judicialmente, uma das figuras mais influentes do governo venezuelano. A próxima etapa das relações entre Estados Unidos e Venezuela, em um cenário de eleições contestadas e economia em colapso, deve mostrar se o status de “alvo prioritário” é apenas uma pressão de bastidor ou o prenúncio de uma acusação que pode redesenhar o xadrez político na região.
