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De óculos escuros em Davos, Macron denuncia “novo imperialismo”

Emmanuel Macron discursa nesta terça-feira, 20, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, usando óculos escuros e atacando o que chama de “novo imperialismo e novo colonialismo”. A escolha visual, motivada por um sangramento benigno no olho direito, vira parte da mensagem política e domina a repercussão nas redes e na imprensa internacional.

Imagem controlada, recado calculado

O presidente francês chega ao palco principal de Davos com óculos de sol de lentes azuis, foge do protocolo visual e concentra os olhares antes mesmo de falar. Enquanto organizadores explicam a presença de mais de 2.500 líderes políticos e empresariais na edição deste ano, é o acessório de Macron que captura a cena e dispara comentários em tempo real.

O Palácio do Eliseu informa ao jornal francês Le Parisien que o presidente sofre um pequeno sangramento em um vaso sanguíneo do olho direito, “totalmente benigno”. A justificativa médica busca conter especulações sobre a saúde do líder, mas também serve de moldura para um discurso em que Macron tenta se posicionar como contraponto às investidas do presidente americano Donald Trump no tabuleiro geopolítico.

Ao insistir que não é hora de “novo imperialismo ou novo colonialismo”, o francês mira diretamente a agenda de Washington, que amplia pressão econômica e militar em regiões estratégicas, da Europa Oriental ao Ártico. O recado ecoa em um momento em que a Groenlândia admite não descartar uma intervenção militar dos Estados Unidos e pede preparação da população, cenário que reaviva memórias de disputas territoriais da Guerra Fria.

Macron tenta transformar o detalhe físico em narrativa de resiliência. Dias antes, em 15 de janeiro, durante visita às Forças Armadas francesas na base aérea estratégica de Istres, ele aparece com o olho direito visivelmente vermelho. Diante da tropa, pede desculpas pela aparência e desarma o constrangimento com humor calculado: “Peço que desculpem a aparência desagradável do meu olho. É apenas algo sem importância. Vejam isso simplesmente como uma referência ao olho do tigre. Para aqueles que conhecem a referência, é um sinal de determinação”.

Estilo, memes e disputa geopolítica

O gesto se repete agora em Davos, mas amplificado pelo palco global. A combinação do olhar oculto e do discurso duro contra o imperialismo desperta comparações imediatas com personagens de cinema. Nas redes sociais, usuários aproximam o francês de Tom Cruise em filmes de ação, transformam o presidente em meme e multiplicam montagens em que ele aparece como protagonista de franquias de espionagem.

Enquanto circulam piadas e hashtags, a mensagem central encontra audiência ampliada. A crítica ao “novo colonialismo” ressoa numa semana em que Donald Trump confirma ter convidado Vladimir Putin para integrar um autodenominado “Conselho de Paz” e insiste em remodelar a arquitetura internacional à margem da ONU, criada em 1945 justamente para evitar guerras entre grandes potências. A sobreposição de instâncias de poder reacende o debate sobre quem dita as regras da ordem global em 2026.

Macron se move nesse cenário para preservar espaço de manobra da Europa continental. Em 2023 e 2024, ele já usa fóruns multilaterais para se apresentar como defensor de uma “autonomia estratégica” europeia, conceito que busca reduzir a dependência do continente em relação a Washington e Moscou. O discurso em Davos segue essa trilha e tenta reafirmar a França como voz relevante num ambiente em que líderes populistas, como Trump, ocupam o centro do palco midiático.

O cálculo político se apoia em uma percepção conhecida em campanhas modernas: símbolos visuais importam tanto quanto as frases. Presidentes e primeiros-ministros sabem que uma imagem de 5 segundos percorre o mundo mais rápido que um parágrafo de análise. Ao aparecer de óculos escuros, o francês corre o risco de ser acusado de vaidade ou teatralidade, mas aceita a aposta para controlar a narrativa sobre sua saúde e, ao mesmo tempo, colar a ideia de firmeza à própria figura.

Impacto imediato e mensagem além das palavras

O efeito é imediato. Ainda durante o discurso em Davos, perfis oficiais e comentaristas políticos replicam imagens do presidente em tempo real. A cada novo compartilhamento, a crítica ao “novo imperialismo” viaja junto com o close dos óculos azuis. Em poucas horas, buscas pelo nome de Macron crescem em plataformas como X e Instagram, misturando análises de política externa, comentários sobre saúde ocular e piadas sobre seu suposto lado “astro de Hollywood”.

Nos bastidores, assessores respiram aliviados com a nota oficial sobre o “pequeno vaso sanguíneo” e a garantia de que o quadro é benigno. A rapidez da explicação reduz o espaço para teorias conspiratórias sobre um problema de visão mais grave, cenário que poderia alimentar dúvidas sobre a capacidade do presidente de conduzir a diplomacia francesa em um ano marcado por tensões militares e econômicas. O controle da informação médica evita ruídos num momento em que qualquer sinal de fraqueza vira munição para adversários internos e externos.

Macron reverte o episódio em argumento político. Ao associar o próprio olho machucado ao “olho do tigre”, invoca a ideia de resistência diante de pressões. Em Davos, a metáfora reforça seu esforço para se apresentar como líder disposto a enfrentar tanto a agressividade russa quanto a imprevisibilidade de Trump, que fala em tarifas de até 200% sobre importações de vinho e champanhe franceses em disputas comerciais recentes.

A reação midiática reforça uma tendência já visível na cena internacional: gestos estéticos ganham peso estratégico. De jaquetas militares em visitas a zonas de conflito a viagens em trens blindados, líderes usam imagens cuidadosamente desenhadas para enviar sinais a aliados, rivais e eleitores. O episódio dos óculos em Davos se insere nessa lógica e mostra que até um problema ocular benigno pode ser convertido em símbolo de determinação diante do “novo imperialismo”.

Próximos movimentos e teste de credibilidade

O desafio de Macron começa depois do aplauso em Davos. A partir deste 20 de janeiro, ele precisa transformar a retórica contra o “novo colonialismo” em iniciativas concretas, seja no âmbito da União Europeia, seja em coordenação com países africanos e asiáticos que cobram respeito a sua soberania em disputas comerciais e militares. Sem resultados visíveis nos próximos meses, o discurso corre o risco de ficar confinado ao arquivo de frases de efeito acompanhadas por uma foto curiosa.

As próximas rodadas de negociações na Europa, discussões sobre intervenção na Groenlândia e as respostas de Washington a críticas como as de Davos vão revelar se a imagem de Macron de óculos escuros representa apenas um capítulo de comunicação política bem-sucedida ou o primeiro ato de uma estratégia de enfrentamento a projetos que ele classifica como “imperiais”. A dúvida que permanece, para aliados e adversários, é se o “olho do tigre” do presidente francês se mantém firme quando as luzes do palco de Davos se apagam e começam as negociações silenciosas que definem, de fato, quem exerce poder no novo tabuleiro global.

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