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Davos 2026 expõe disputa por Groenlândia e racha na ordem global

O Fórum Econômico Mundial reúne nesta semana, em Davos, 65 chefes de Estado, Donald Trump, Volodymyr Zelensky e a elite corporativa global em clima de confronto. A tentativa americana de comprar a Groenlândia, a pressão sobre a Europa e o avanço silencioso da China transformam a estação de esqui suíça em palco de uma disputa aberta por poder, território e tecnologia.

Groenlândia vira símbolo de uma nova corrida por território

A neve é a mesma, mas o mapa político é outro. Nos Alpes suíços, Trump desembarca com cinco ministros, dezenas de assessores e nomes de peso como Jensen Huang, da Nvidia, e Satya Nadella, da Microsoft. Ele chega disposto a repetir, agora frente a frente, a mensagem que lançou por videoconferência no ano passado: fábricas nos Estados Unidos ou tarifas bilionárias sobre quem insistir em produzir fora do país.

O alvo desta vez é mais ambicioso que o aço europeu ou o vinho francês. Trump volta a Davos com a ideia de transformar a Groenlândia em ativo estratégico dos EUA, seja por compra, seja por pressão econômica sobre a Europa. A ilha, com pouco mais de 56 mil habitantes, reservas minerais cobiçadas e posição central no Ártico, aparece nas conversas como peça-chave em futuras rotas marítimas, bases militares e exploração de recursos energéticos.

Autoridades europeias admitem em privado que veem a proposta como afronta direta à soberania da Dinamarca e um teste aos limites da relação com Washington. A estratégia americana provoca desconforto explícito entre diplomatas que circulam pelos corredores de carpete e salas envidraçadas do centro de convenções. O tema atravessa painéis sobre comércio, segurança e clima, mesmo quando não aparece nos títulos oficiais.

Trump sabe que fala para duas plateias. Em Davos, enfrenta executivos perplexos e chefes de governo que tentam salvar algum espaço de negociação. Nos Estados Unidos, mira sua base do movimento Make America Great Again, que despreza o fórum e vê a reunião suíça como encarnação de um globalismo que ameaça empregos e fronteiras. O contraste é nítido: o homem que ataca Davos em comícios escolhe o mesmo Davos para exibir poder e impor condições.

Europa pressionada, China paciente e Carney ocupa o vácuo

O slogan oficial do encontro em 2026 fala em “espírito de diálogo”. Na prática, cresce o clima de ultimato. Segundo organizadores, Davos recebe este ano cerca de 850 presidentes de grandes empresas e dezenas de líderes da área de tecnologia, em busca de clareza mínima sobre tarifas, cadeias de suprimento e regulação de novas ferramentas de inteligência artificial.

Mark Carney, hoje primeiro-ministro do Canadá, vira uma espécie de contrapeso norte-americano nas conversas com europeus. Depois de atravessar um ano de escaladas tarifárias com Washington e redirecionar parte do comércio para outros parceiros, Carney apresenta o Canadá como país que protege acordos multilaterais e aceita regras comuns. Em discursos, ele fala em “nova ordem mundial” construída ao lado da China para defender o comércio aberto e as instituições internacionais.

Do outro lado do tabuleiro, Pequim adota a postura que vem repetindo há mais de uma década no fórum. Ministros das Finanças e do Comércio chegam com números de crescimento, novos projetos industriais e a vitrine de maior exportador de automóveis do planeta. A mensagem é simples: enquanto EUA e Europa se distraem com disputas internas, a China consolida espaço em tecnologia, carros elétricos e infraestrutura, passo a passo.

Os chineses exploram o cansaço de executivos com a volatilidade de Washington. Em sessões sobre baterias, semicondutores e computação quântica, especialistas destacam a distância crescente entre montadoras ocidentais e fabricantes chineses. A lembrança de 2025, quando um chatbot chinês chamado DeepSeek surpreendeu investidores no fim do fórum, ainda ronda os debates sobre regulação de IA neste ano.

Enquanto isso, a Ucrânia tenta preservar algum protagonismo em meio à disputa por ilhas e rotas árticas. Volodymyr Zelensky participa de encontros fechados com líderes do G7 para discutir apoio militar e reconstrução, ao mesmo tempo em que observa Trump flertar com um redesenho geopolítico que rebaixa fóruns tradicionais e relativiza fronteiras. A comparação com Yalta, em 1945, surge em conversas privadas, sempre acompanhada de um alívio: desta vez não há guerra mundial, mas há uma ordem em aberto.

Tarifas, clima e tecnologia em jogo para a próxima década

As apostas em Davos vão muito além da Groenlândia. Tarifas sobre produtos europeus, regras ambientais, subsídios à indústria e limites para a inteligência artificial entram na mesma mesa. Empresários calculam o impacto de possíveis novas barreiras americanas em setores como automóveis, agricultura e tecnologia limpa, que movimentam centenas de bilhões de dólares por ano em comércio transatlântico.

A insistência da Casa Branca em esvaziar a pauta ambiental e de desenvolvimento sustentável do fórum deixa negociadores climáticos em alerta. Delegados relatam pressão para trocar discussões sobre metas de emissões por painéis mais curtos, centrados em segurança energética e oportunidades de investimento no petróleo e no gás. Organizações ambientais temem um atraso de vários anos em acordos sobre transição verde se a agenda de 2026 for dominada por tarifas e disputas territoriais.

Empresas de tecnologia calculam o avanço da China em IA e hardware enquanto acompanham sinais trocados entre Trump e os CEOs que o cercam. Há um temor de que a combinação de protecionismo e corrida armamentista digital produza dois blocos tecnológicos pouco compatíveis entre si, com padrões diferentes de dados, chips e segurança. “Se essa bifurcação se consolida, o custo para quem exporta e inova explode”, resume um executivo europeu que participa do fórum há mais de dez anos.

No campo da segurança, a ideia de uma Groenlândia sob bandeira americana muda o equilíbrio no Ártico e pressiona Rússia, Canadá e países nórdicos. Analistas militares lembram que novas rotas de navegação, abertas pelo derretimento do gelo, encurtam em milhares de quilômetros a distância entre portos europeus e asiáticos. Quem controlar bases e cabos submarinos nessa região ganha vantagem estratégica por décadas.

Fórum vira laboratório de alianças e testes para a ordem mundial

Os próximos dias em Davos funcionam como ensaio de uma ordem global que ainda não se define. Trump mede até onde pode ir em pressões territoriais e tarifárias sem romper de vez com europeus. A China aproveita cada gesto de impaciência americana para se apresentar como alternativa estável. Carney tenta costurar um bloco pró-multilateralismo que inclua União Europeia, Canadá e parte da Ásia.

O futuro imediato passa por conversas discretas em hotéis, recepções privadas e bilaterais fora da agenda oficial. Desses encontros podem sair linhas gerais para negociações sobre comércio, clima, tecnologia e, em menor escala, o próprio destino da Groenlândia. Davos mantém a fama de palco distante das urgências do mundo real, mas, neste janeiro de 2026, decisões tomadas na neve suíça têm potencial de redesenhar fronteiras econômicas e estratégicas até o fim da década. A questão em aberto é se o “espírito de diálogo” resiste à pressão de um mundo que volta a disputar território, influência e dados como se fossem as matérias-primas mais valiosas do século 21.

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