Dario Durigan vai assumir Fazenda após saída de Haddad para SP
Dario Durigan assume o Ministério da Fazenda na próxima semana, no lugar de Fernando Haddad. A mudança ocorre após a decisão de Haddad de disputar o governo de São Paulo.
Troca em meio a agenda econômica carregada
A nomeação de Durigan chega em um momento em que a economia brasileira encara um calendário sensível. O ministério negocia metas fiscais para 2025, revisa subsídios bilionários e tenta manter a inflação sob controle em um cenário de juros ainda acima de 10% ao ano. A escolha do novo ministro é lida em Brasília como um sinal de continuidade, mas também como teste de confiança para o mercado.
Haddad deixa o cargo após pouco mais de dois anos à frente da Fazenda, período em que o governo persegue a meta de resultado primário zero e tenta reduzir a dívida bruta, hoje na casa de 76% do PIB. Aliados admitem que a decisão de concorrer ao Palácio dos Bandeirantes em 2026 exige dedicação integral já neste ano, com viagens semanais ao estado e construção de alianças com prefeitos e deputados paulistas. O Planalto avalia que manter Haddad na equipe econômica, sob esse ritmo político, criaria ruído e ampliaria a percepção de paralisia nas negociações fiscais.
Perfil de Durigan e recado ao mercado
Durigan chega ao comando da Fazenda com histórico de atuação no setor financeiro e trânsito entre bancos, gestoras e grandes empresas. Integrantes da equipe econômica descrevem o futuro ministro como um quadro técnico, afeito a números e pouco dado a declarações públicas intempestivas. A avaliação interna é que o novo titular pode reforçar o diálogo com investidores sem romper com o desenho das atuais reformas.
Um assessor que acompanha a transição resume a mensagem que o governo tenta transmitir: “A linha é estabilidade. O roteiro fiscal continua, com ajustes pontuais, mas sem guinada brusca”. Na prática, isso significa preservar o arcabouço fiscal aprovado no Congresso, que estabelece bandas para o crescimento das despesas públicas, e manter a meta de déficit zero em 2025, ainda que exista pressão de alas políticas por mais gasto social em ano pré-eleitoral.
Economistas ouvidos reservadamente consideram que os próximos 90 dias serão decisivos para medir o peso político de Durigan na Esplanada. Ele terá de conduzir a regulamentação de mudanças tributárias, discutir cortes e remanejamentos no Orçamento e lidar com revisões de projeções de crescimento, hoje em torno de 2% para este ano. “O país não pode entrar em compasso de espera por causa da eleição em São Paulo”, avalia o economista-chefe de uma grande gestora, que pede para não ser identificado.
Efeitos políticos e economia sob observação
A saída de Haddad abre uma frente nova na disputa pelo governo paulista, tradicional termômetro nacional e caixa eleitoral robusto. Em 2022, o estado concentra quase 22% do eleitorado brasileiro e controla um orçamento anual superior a R$ 320 bilhões. Ao se lançar novamente ao cargo, Haddad tenta reverter a derrota do segundo turno de 2018, quando perdeu a Presidência para Jair Bolsonaro, e consolidar seu nome como liderança de peso do campo progressista em São Paulo.
No Ministério da Fazenda, a mudança exige rápida adaptação. Servidores apontam que, além de atender investidores e governadores, Durigan precisará lidar com pressões de ministérios setoriais em busca de recursos extras para saúde, obras e programas sociais. As decisões sobre reajustes salariais, investimentos em infraestrutura e eventuais renúncias fiscais, que somam hoje mais de R$ 450 bilhões por ano, passam pela mesa do novo ministro. Cada movimento será acompanhado de perto por bolsas, câmbio e agências de classificação de risco.
Representantes do setor produtivo aguardam sinais concretos. Federações industriais cobram previsibilidade tributária para planejar investimentos de longo prazo, enquanto o varejo pressiona por crédito mais barato e prazos maiores para renegociação de dívidas. “O que o empresariado quer é clareza de rota pelos próximos cinco anos”, afirma o dirigente de uma entidade nacional. A forma como Durigan equilibra as contas públicas sem travar a atividade será determinante para a confiança de empresas e famílias.
Próximos passos e dúvidas no horizonte
A posse de Durigan está prevista para a próxima semana, em cerimônia no Ministério da Fazenda, em Brasília. Até lá, equipes técnicas alinham relatórios com números detalhados de arrecadação, despesas obrigatórias e renúncias vigentes, para que o novo ministro assuma com quadro claro dos riscos fiscais. O governo trabalha com um cronograma que inclui, ainda neste semestre, a apresentação de projetos complementares à reforma tributária e uma revisão das metas de arrecadação para 2026.
No campo político, a campanha antecipada em São Paulo tende a colocar a gestão econômica nacional sob holofotes. Adversários de Haddad prometem explorar qualquer tropeço da equipe que ele deixa para trás em Brasília, enquanto aliados tentarão vincular eventuais resultados positivos da economia ao legado do ex-ministro. O desempenho de Durigan, por sua vez, pode redefinir o peso da Fazenda nas disputas internas do governo e influenciar as alianças em torno da sucessão presidencial. A pergunta que permanece é se a transição será suficiente para preservar a confiança no rumo da política econômica em meio a um ano em que a disputa por poder e recursos se acirra em todos os lados.
