Da Guatemala à Venezuela: como a Doutrina Monroe renasce sob Trump
O golpe apoiado pelos EUA que derruba Jacobo Árbenz na Guatemala, em 1954, volta ao centro do debate em 2026. Pesquisadores veem no episódio o laboratório das intervenções de Washington sob Donald Trump na Venezuela, na Groenlândia e no Irã, agora justificadas por uma versão atualizada da velha Doutrina Monroe.
Um golpe a bananas e petróleo
Sete décadas separam a deposição de Árbenz, em 27 de junho de 1954, e a captura de Nicolás Maduro por forças americanas, transmitida ao vivo em 2025. O intervalo parece longo, mas, para historiadores e analistas de segurança, a lógica de poder quase não muda: interesses econômicos, narrativa anticomunista reciclada e um discurso de defesa da região que mascara intervenções calculadas.
Na Guatemala dos anos 1950, a faísca é a reforma agrária. Árbenz propõe desapropriar terras não cultivadas de grandes fazendas e redistribuir parte delas a camponeses, com compensação financeira. A United Fruit Company, gigante americana da banana, enxerga uma ameaça direta ao seu império fundiário na América Central e aciona sua influência em Washington. “A companhia era tão poderosa na Guatemala e nos países vizinhos que recebeu o apelido de ‘polvo'”, lembra a pesquisadora Grace Livingstone, da Universidade de Cambridge.
Documentos e depoimentos mostram que a empresa pressiona o governo Dwight D. Eisenhower usando o medo da União Soviética como atalho político em plena Guerra Fria, iniciada em 1947. Árbenz é pintado como simpatizante comunista, ainda que se declare disposto a pagar, segundo historiadores, cerca do dobro do valor declarado pela própria United Fruit em suas terras para fins fiscais. Em 1950, o presidente guatemalteco promete transformar uma sociedade “feudal” em uma economia capitalista moderna. Em 1954, vê aviões e bombardeiros americanos cercarem seu país.
O roteiro lembra, em traços largos, a escalada sobre a Venezuela. Em nome da segurança energética e para evitar que a China se aproxime de reservas estratégicas, Trump declara o petróleo venezuelano questão vital para os EUA. A Doutrina Donroe, apelido irônico cunhado por analistas para a releitura trumpista da Doutrina Monroe, surge para justificar a captura de Maduro e bombardeios em Caracas. “Antes da captura de Maduro, ele anunciou o corolário de Trump”, resume o jornalista Jon Lee Anderson, da revista The New Yorker, ao descrever o discurso que reabilita velhas justificativas para intervenção no hemisfério.
Táticas antigas, alvos novos
As operações na Guatemala, na década de 1950, exibem um manual que especialistas reconhecem nas ações recentes dos EUA. A CIA distribui folhetos no interior do país, monta a rádio clandestina La Voz de la Liberación e transmite, em espanhol, notícias exageradas sobre uma invasão iminente. Bombardeios pontuais, sons de explosões reproduzidos no rádio e rumores de deserções em massa visam quebrar a moral do Exército guatemalteco.
Nas semanas finais do governo Árbenz, dois submarinos americanos seguem rumo ao sul, bombardeiros são deslocados para a Nicarágua e navios guatemaltecos sofrem interceptações. Sem resistência interna significativa, a pressão externa se impõe. Generais concluem que não podem deter a ofensiva e obrigam o presidente a renunciar. Dias depois, no aeroporto, o novo regime expõe Árbenz a uma revista humilhante, em público, antes de forçá-lo ao exílio.
No século 21, o cenário visual não difere tanto. Na Venezuela, o mundo acompanha o vídeo do bombardeio de instalações militares em Caracas seguido da imagem de Maduro algemado, cercado de soldados americanos. “Isso faz parte do padrão”, observa Anderson. A política se constrói tanto no campo militar quanto nas telas: quem domina a narrativa, domina a percepção de força.
A Doutrina Monroe, formulada em 1823 por James Monroe para afastar potências europeias do hemisfério ocidental, ganha um corolário intervencionista em 1904, com Theodore Roosevelt. Na versão de Trump, essa matriz ganha roupa nova. “O objetivo da nova Estratégia de Segurança Nacional é proteger o comércio, o território e os recursos que são fundamentais para a nossa segurança”, declara o presidente em 2025, ao apresentar o documento. A ênfase recai sobre “dominância americana” e uso máximo de pressão ideológica, psicológica e militar.
Na Groenlândia, ilha autônoma sob a coroa dinamarquesa, o alvo são minerais estratégicos e rotas marítimas em degelo acelerado. Trump ameaça, em postagens, anexar o território e punir economicamente qualquer resistência de Copenhague. No Irã, fala em “armada massiva” a caminho do Golfo Pérsico, pronta para agir com “velocidade e violência”. Para o pesquisador Stewart Patrick, da Fundação Carnegie, essa “lógica de esferas” está no centro da visão de mundo trumpista, alimentada por aversão ao multilateralismo e a guerras longas em cenários distantes – desde que o tabuleiro se mantenha sob controle de Washington.
O preço da hegemonia e o risco do efeito rebote
As intervenções carregam custos que muitas vezes escapam ao cálculo imediato. A Guatemala entra, após 1954, em um ciclo de violência que se estende por mais de três décadas. Ditaduras militares, guerra civil, massacres indígenas e, a partir dos anos 1980, o avanço de cartéis de drogas moldam um país em que a promessa de modernização capitalista dá lugar a uma sucessão de crises. A instabilidade alimenta fluxos migratórios em direção ao norte e pressiona, ironicamente, a própria fronteira que os EUA afirmam defender.
Livingstone lembra que os Estados Unidos intervêm mais de 80 vezes na América Latina desde a proclamação da Doutrina Monroe, no século 19. “A Guatemala mostra que os Estados Unidos estavam dispostos a derrubar um governo democraticamente eleito”, afirma. No caso de Árbenz, o pretexto é conter o comunismo e proteger uma gigante de bananas. No de Maduro, o alvo oficial são abusos de um regime autoritário, mas, na prática, o petróleo e o xadrez com a China voltam ao centro da decisão.
Críticos enxergam nessa continuidade um padrão que enfraquece a defesa americana da democracia. Quando um governo eleito pode ser derrubado porque desafia interesses econômicos, a fronteira entre proteção e imposição fica nebulosa. O argumento de que apenas ditadores precisam temer os EUA perde força diante de casos como o da Guatemala, onde a reforma agrária ameaça mais o balanço de uma multinacional que a segurança de Washington.
Na Groenlândia e no Irã, a disputa por recursos – petróleo, gás, minerais raros – se mistura a rivalidades mais amplas com China, Rússia e União Europeia. O resultado são tensões constantes em rotas comerciais estratégicas, incerteza para investidores e pressão sobre aliados europeus, que oscilam entre seguir sanções americanas e preservar acordos próprios. Cada movimento reforça a imagem de uma superpotência disposta a agir sozinha, mesmo ao custo de isolar-se.
Um passado que cobra no futuro
O legado da Guatemala pesa sobre qualquer cálculo da Casa Branca em 2026. O golpe de 1954 atinge o objetivo imediato – deter a reforma agrária e proteger interesses privados – mas abre caminho para décadas de guerra e migração em massa. Do ponto de vista dos EUA, a ameaça de longo prazo à segurança interna acaba maior que a redistribuição de terras que se tentava impedir.
No caso da Venezuela, a pergunta é semelhante. A queda de Maduro pode redesenhar o mapa político sul-americano, mas também pode aprofundar a fragmentação interna, fortalecer grupos armados e ampliar fluxos migratórios pela região. Na Groenlândia, uma ofensiva mais agressiva contra Dinamarca e aliados da Otan tende a corroer a confiança em tratados de defesa mútua. No Irã, qualquer erro de cálculo envolvendo navios, drones ou bases militares pode disparar uma escalada regional envolvendo Israel e monarquias do Golfo.
Trump aposta na força e na visibilidade imediata de suas decisões. Anúncios em redes sociais, imagens de bombardeios e prisões espetaculares compõem uma política que se mede em audiência e impacto simbólico. A história da Guatemala sugere outro relógio: os efeitos de uma intervenção costumam se contar em décadas, não em ciclos de 4 anos.
Entre a promessa de segurança e o risco de instabilidade crônica, a nova encarnação da Doutrina Monroe expõe Washington a um dilema que nem Eisenhower conseguiu resolver. A questão, para os próximos anos, é se os Estados Unidos aprenderão com o próprio passado ou se a América Latina, a Groenlândia e o Oriente Médio voltarão a pagar o preço de uma hegemonia que insiste em se afirmar pela força.
