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Cursos de Medicina em São José e Taubaté vão mal em exame federal

Os cursos de Medicina de São José dos Campos e Taubaté recebem avaliação ruim no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), divulgado nesta segunda-feira (19). O resultado acende um alerta sobre a qualidade da formação dos futuros médicos no Vale do Paraíba e coloca as instituições sob risco de sanções regulatórias.

Avaliação nacional expõe fragilidades locais

O Enamed é aplicado em todo o país e serve como termômetro da formação médica. A prova mede conhecimentos teóricos e práticos ao fim do curso e orienta a atuação dos órgãos de regulação. A divulgação deste ano expõe um desempenho abaixo do esperado em São José e Taubaté, cidades que concentram centenas de estudantes e atendem uma região com mais de 2 milhões de habitantes.

O Ministério da Educação estabelece faixas de desempenho que vão de resultados satisfatórios a níveis considerados preocupantes. Os cursos das duas cidades caem na faixa de desempenho ruim, o que indica formação insuficiente em pontos centrais da prática médica, como diagnóstico, conduta clínica e tomada de decisão em situações de urgência. Técnicos ouvidos pela reportagem explicam que essa classificação funciona como um sinal amarelo para gestores públicos e para a própria comunidade acadêmica.

“Quando um curso fica nas faixas inferiores do Enamed, a mensagem é clara: a formação oferecida não atende o padrão mínimo esperado para o país”, afirma um professor de Medicina de uma universidade pública paulista, que acompanha o exame desde as primeiras edições. “Isso não significa que todos os egressos sejam maus profissionais, mas aponta falhas estruturais que precisam ser enfrentadas com urgência.”

Risco de punições e impacto direto na sala de aula

A avaliação ruim abre caminho para punições que vão de advertências formais a restrições no funcionamento dos cursos. Na prática, o Ministério da Educação pode impor planos de melhoria com prazos definidos, limitar a abertura de novas vagas e, em casos extremos, suspender processos seletivos. A partir da divulgação deste 19 de janeiro de 2026, as instituições entram em uma espécie de período de prova, sob monitoramento mais intenso.

Esse movimento tende a repercutir na rotina de alunos e professores. Coordenações podem ser trocadas, currículos revistos e cargas horárias redistribuídas ao longo de 2026 e 2027. “O recado é: ou o curso melhora, ou não terá condições de continuar crescendo”, resume um gestor de ensino superior ouvido sob reserva. Ele relata que, em avaliações anteriores, instituições com desempenho semelhante tiveram de investir mais em laboratórios, contratar docentes com dedicação integral e reforçar a supervisão de estágios.

Para os estudantes que já estão matriculados, o resultado provoca apreensão. A reputação do curso pesa na hora de disputar residência médica e vagas em hospitais de referência, mesmo quando o diploma é reconhecido nacionalmente. A percepção de queda de qualidade pode afastar novos candidatos já no próximo vestibular, afetando a procura e, em última instância, o financiamento dos próprios cursos.

Confiança pública e pressão por mudanças

A formação médica não afeta apenas a vida acadêmica. A população de São José, Taubaté e região depende em grande parte de hospitais universitários, ambulatórios-escola e convênios com o SUS, onde estudantes e residentes atendem diariamente. Uma avaliação negativa levanta dúvidas sobre a preparação desses profissionais para lidar com casos complexos e situações de emergência, especialmente em áreas como clínica médica, pediatria e medicina da família.

Especialistas em políticas públicas de saúde veem o resultado como oportunidade e alerta ao mesmo tempo. “O Enamed não é um ranking de faculdades, é um espelho do sistema de formação”, avalia um pesquisador de educação médica da região Sudeste. “Quando duas cidades importantes como São José e Taubaté aparecem mal, a discussão deixa de ser local e passa a ser nacional. Falamos de médicos que poderão atuar em qualquer estado, no SUS e na rede privada.”

Na prática, a avaliação ruim tende a pressionar gestores municipais, estaduais e federais a reavaliar convênios, revisar metas de qualidade e discutir novos modelos de financiamento. Investimentos em infraestrutura, bibliotecas digitais, simulação realística e supervisão de internato costumam aparecer como exigências nos relatórios de melhoria. Sem esses ajustes, o risco é de que novas turmas repitam o desempenho abaixo da média nos próximos ciclos do Enamed, previstos para os próximos anos.

Fiscalização ampliada e debate sobre o futuro da formação

A repercussão do resultado deste 19 de janeiro vai além do Vale do Paraíba. A tendência, segundo técnicos do setor, é que a Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior intensifique a fiscalização em outros cursos de Medicina do estado de São Paulo e de diferentes regiões do país. A estratégia busca evitar que problemas estruturais se espalhem, sobretudo em um cenário de forte expansão de vagas médicas na última década.

Nos próximos meses, as faculdades de São José e Taubaté devem apresentar diagnósticos internos e planos de ação com metas objetivas, prazos e indicadores de acompanhamento. A expectativa é que mudanças curriculares, novas contratações e reestruturação de estágios comecem a aparecer ainda em 2026, com resultados mais visíveis a partir de 2027. O desafio é conciliar a pressão por respostas rápidas com a necessidade de reformas profundas, que exigem tempo, planejamento e recursos.

O episódio reacende um debate antigo sobre o papel do Estado na regulação da educação médica e sobre o ritmo de abertura de novos cursos no país. Em um momento em que a sociedade cobra mais médicos e melhor atendimento, a pergunta que fica é se o sistema conseguirá equilibrar expansão e qualidade sem deixar que avaliações ruins virem rotina no mapa da saúde brasileira.

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