Curiosity encontra ‘teias de aranha’ em Marte e reforça sinais de água
A Nasa identifica em 25 de fevereiro de 2026 estranhas formações em Marte, apelidadas de “teias de aranha”, e vê nelas pistas de água subterrânea antiga. O robô Curiosity examina de perto as estruturas no Monte Sharp e ajuda a recontar a história do planeta, que já foi úmido antes de virar um deserto gelado.
Rede de cristas no coração do Monte Sharp
As formações aparecem como um emaranhado de linhas claras que cortam o solo marciano ao redor do Monte Sharp, montanha de quase 5 quilômetros de altura no centro da cratera Gale. Vistas do espaço, lembram uma grande teia de aranha. De perto, o Curiosity revela que se tratam de cristas estreitas, com entre 1 e 2 metros de altura, separadas por vales preenchidos por areia fina.
Os geólogos da Nasa chamam esse tipo de estrutura de “boxwork”. Na prática, são paredes rochosas que restam depois que o material ao redor desaparece, levado pelo vento ao longo de milhões de anos. A equipe acredita que, em um passado distante, água subterrânea percorreu grandes fraturas na rocha e depositou minerais nessas fissuras, criando um “cimento” natural mais resistente à erosão.
Quando o clima de Marte se torna mais seco e a atmosfera perde densidade, a areia em movimento passa a corroer o terreno mais frágil. As partes endurecidas pelos minerais resistem. É esse contraste que desenha a rede de cristas que hoje intriga os cientistas. Estruturas parecidas existem na Terra, em cavernas e desertos, mas raramente passam de alguns centímetros. Em Marte, elas chegam a dezenas de metros de extensão e cobrem grandes áreas do entorno do monte.
Até o avanço recente do Curiosity, essas formações eram apenas padrões curiosos em imagens orbitais. Ninguém sabia ao certo se eram elevações, depressões, fraturas abertas ou simples ilusão de luz e sombra. A subida do robô pelos flancos do Monte Sharp, iniciada em 2014, permite agora a primeira inspeção direta desse terreno incomum.
Água escondida e o passado mais úmido de Marte
A presença das “teias de aranha” reforça uma hipótese central da ciência planetária: Marte já teve água líquida em abundância, inclusive abaixo da superfície. Para explicar o boxwork, os pesquisadores defendem um cenário em que lençóis freáticos se infiltram por fraturas profundas, carregando minerais que se acumulam e endurecem as paredes internas dessas rachaduras.
Com o tempo, o sistema de aquíferos se retrai ou seca. A rocha em volta fica exposta ao vento, que age de forma desigual. O resultado é uma espécie de esqueleto mineralizado do antigo sistema de fraturas. Ao mapearem a altitude e a extensão dessas cristas, os cientistas conseguem estimar em que profundidade a água circulava e em que períodos o planeta ainda sustentava condições mais amenas.
O Curiosity encontra também nódulos irregulares incrustados nas rochas, outro sinal típico da passagem de água subterrânea. Essas pequenas saliências se formam quando fluidos ricos em minerais preenchem poros e vazios na rocha e, depois que o entorno se desgasta, permanecem como pequenas protuberâncias. A combinação de nódulos e boxwork indica um ambiente que alterna fases de saturação por água e fases secas, ao longo de milhões de anos.
Conforme o rover sobe o Monte Sharp, os registros geológicos mostram uma transição gradual. As camadas mais baixas preservam evidências de lagos estáveis e rios de longa duração. Nas porções intermediárias, como a região atual das “teias”, predominam sinais de águas subterrâneas e episódios úmidos mais curtos. Em altitudes ainda maiores, as rochas carregam sulfatos, sais que se formam à medida que a água evapora em condições cada vez mais áridas.
Essa sequência vertical funciona como um corte no tempo. Ela permite acompanhar a transformação de Marte, de mundo potencialmente habitável, com lagos e rios, para o deserto frio e rarefeito observado hoje. A análise fina das texturas e dos minerais ajuda a encaixar datas relativas e estimar quando o planeta perde a maior parte de sua atmosfera e de sua água líquida.
Desafios da navegação e o que está em jogo
Chegar até as cristas exigiu uma coreografia delicada da equipe do Laboratório de Propulsão a Jato, na Califórnia. O Curiosity tem o tamanho de um SUV, pesa cerca de 899 quilos e não conta com qualquer condução autônoma avançada. Cada movimento depende de comandos enviados com atraso de vários minutos, por causa da distância média de cerca de 225 milhões de quilômetros entre Marte e a Terra.
Os engenheiros planejam trajetos que aproveitam o topo das cristas como se fossem estradas estreitas. “É quase como uma estrada que podemos percorrer de carro. Mas depois temos que descer para os vales, onde precisamos ficar atentos para que as rodas do Curiosity não derrapem ou tenham dificuldade para virar na areia”, explica Ashley Stroupe, engenheira de sistemas operacionais da Nasa e líder das operações do rover. “Sempre há uma solução. Só precisamos tentar caminhos diferentes.”
Os riscos não são teóricos. Desde o pouso em 2012, o Curiosity acumula desgaste visível nas rodas, com furos e rasgos causados por pedras pontiagudas. Cada trecho em terreno acidentado precisa equilibrar ganho científico e segurança. Ao explorar as “teias de aranha”, a equipe aposta que as informações extraídas compensam o esforço logístico e o desgaste mecânico de um veículo que já ultrapassa 13 anos de operação.
O impacto científico é direto. Entender como a água subterrânea circula em Marte ajuda a responder se o planeta chegou a abrigar vida microscópica. Regiões onde a água se mantém protegida sob a superfície, por milhares ou milhões de anos, oferecem abrigo mais estável contra radiação e variações extremas de temperatura. São também alvos naturais para futuras perfurações em busca de sinais químicos de vida passada.
Há ainda um interesse prático. Se missões tripuladas forem enviadas nas próximas décadas, a presença de antigos reservatórios subterrâneos pode orientar a escolha de locais com maior chance de gelo enterrado. Esses depósitos congelados podem fornecer água para consumo, produção de oxigênio e fabricação de combustível, reduzindo a carga que precisa sair da Terra.
Saída das “teias” e a rota dos próximos anos
O roteiro do Curiosity prevê a saída da região de boxwork em março. O rover segue em direção a uma faixa do Monte Sharp rica em sulfatos, minerais que se formam quando a água evapora e deixa para trás seus sais. A Nasa planeja explorar essa camada por vários quilômetros, em uma espécie de travessia horizontal ao longo da encosta, para detalhar a fase final de secagem do planeta.
Ao comparar os dados coletados nas cristas, nas camadas mais baixas e agora nos depósitos de sulfato, a agência espera montar um quadro mais completo da transição climática marciana. Os resultados devem alimentar modelos que simulam a perda da atmosfera, as mudanças no campo magnético e a fuga de água para o espaço.
O Curiosity não é mais o robô mais novo em Marte. Desde 2021, o rover Perseverance atua em outra cratera, focado em coletar amostras para futura devolução à Terra. Mesmo assim, a subida paciente pelo Monte Sharp mantém o primeiro explorador da cratera Gale no centro da agenda científica. As “teias de aranha” entram agora para a lista de paisagens marcianas que obrigam os pesquisadores a rever detalhes da história do planeta.
Enquanto as rodas ainda giram, cada metro vencido no Monte Sharp amplia o retrato de um mundo em transformação. A pergunta que orienta a missão segue em aberto: em que momento exato Marte deixa de ser um planeta úmido e potencialmente habitável e se torna o deserto frio que conhecemos hoje?
