Ultimas

Cunhado de Vorcaro era único cotista de fundos que compraram fatia de resort da família Toffoli

Cunhado de Vorcaro está por trás de fundo que comprou participação da família Toffoli em resort

O pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro Daniel Vorcaro, controla sozinho os fundos que compram, entre 2021 e 2025, uma fatia do resort Tayayá, no interior do Paraná, então ligada à família do ministro do STF Dias Toffoli. Documentos enviados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à Junta Comercial do Paraná mostram que veículos geridos pela Reag Investimentos aportam R$ 20 milhões no empreendimento, em meio a investigações sobre operações financeiras suspeitas que chegam ao Supremo.

Rede de fundos leva dinheiro de Zettel ao Tayayá

O caminho até o resort começa em um fundo de investimento chamado Leal. Papéis obtidos pela reportagem mostram que, entre 2021 e 2025, Zettel é o único cotista desse veículo. O Leal, administrado pela Reag, por sua vez detém sozinho as cotas do fundo Arleen, também da casa. É o Arleen que aparece, nos registros oficiais, como sócio de empresas que controlam o Tayayá.

Em setembro de 2021, o fundo Arleen entra no capital de um trio de companhias ligadas aos irmãos e a um primo de Toffoli, responsáveis pelo resort às margens da represa de Chavantes, no Norte Pioneiro paranaense. De acordo com os documentos, é nesse período que Zettel injeta R$ 20 milhões nos fundos. A cifra segue a trilha interna da estrutura financeira e chega ao Tayayá, fazendo do pastor um parceiro indireto da família do ministro no negócio.

As empresas que recebem o dinheiro são a Tayayá Administração e Participações e a DGEP Empreendimentos, donas do resort e controladas pelo primo do ministro, o empresário Mario Umberto Degani. As duas têm como sócia a Maridt S.A., dirigida por José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, irmãos do ministro. Juntas, elas sustentam a operação do complexo turístico, que se torna vitrine de um capital agora acompanhado por investigadores da Polícia Federal.

Além de injetar R$ 20 milhões, o Arleen passa a figurar como sócio formal das empresas. Registros da Junta Comercial do Paraná indicam que o fundo compra metade da participação da Maridt na Tayayá e na DGEP, uma fatia avaliada em R$ 6,6 milhões à época. A família Toffoli e o fundo convivem na sociedade até 2025, quando as cotas migram para um novo dono.

Entre fevereiro e julho de 2025, os irmãos e o primo de Toffoli, ao lado do fundo, se retiram das duas empresas. As participações são vendidas ao advogado Paulo Humberto Barbosa, que passa a ser o único sócio do empreendimento. Barbosa tem histórico de atuação para a JBS em causas tributárias em Goiás e é sócio de uma empresa com o genro de José Batista Júnior, irmão de Joesley e Wesley Batista, além de um executivo da Friboi.

Investigações, conflitos e dúvidas sobre transparência

O negócio ganha outra dimensão porque se cruza com inquéritos já em curso no Supremo. Toffoli é relator do caso Master no STF, que apura suspeitas envolvendo o Banco Master e a própria Reag Investimentos, gestora dos fundos Leal e Arleen. O ministro assume o caso após acolher pedido da defesa de Daniel Vorcaro, controlador do banco, para levar a investigação à Corte. Zettel é preso, e solto no mesmo dia, na segunda fase da Operação Compliance Zero, que mira o grupo financeiro.

O resort entra no radar em um momento de pressão crescente sobre a Reag, rebatizada de CBSF. Em 2025, o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da instituição, um dia depois de uma operação da Polícia Federal atingir executivos ligados à gestora. Outra frente, a Operação Carbono Oculto, apura o uso de fundos administrados pela casa para lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Dois meses após a deflagração dessa investigação, em novembro de 2025, uma assembleia decide encerrar o fundo Arleen.

Relatórios de auditoria enviados à CVM mostram que empresas contratadas para revisar as contas do Arleen se recusam a opinar sobre a veracidade das demonstrações financeiras. Faltam documentos básicos para avaliar o valor dos ativos, entre eles a participação no Tayayá. Em um dos pareceres, os auditores registram preocupação explícita com os efeitos da Operação Carbono Oculto e eventuais ligações com o fundo.

O Leal, que tem Zettel como único cotista e controla o Arleen, segue o mesmo padrão. Auditorias independentes apontam a impossibilidade de estimar o valor justo dos investimentos por falta de papéis, inclusive no que diz respeito ao próprio resort. A ausência de transparência acende o alerta para operações que, no papel, movimentam milhões com pouca visibilidade pública.

Documentos da CVM revelam ainda que o Leal é cotista exclusivo de outros dois fundos que aportam em empresas ligadas a Vorcaro. Um deles investe em uma companhia de tecnologia em Belo Horizonte que já tem Zettel como administrador e termina vendida ao banqueiro. Outro direciona recursos a um conglomerado de turismo associado ao grupo Master. Os fluxos reforçam a proximidade financeira entre o pastor e o banqueiro, ainda que a defesa dele tente afastar qualquer vínculo com a gestão dos fundos.

Procurados, o ministro Dias Toffoli, seus irmãos José Carlos e José Eugênio, a administração do Tayayá e a Reag não se manifestam. O ministro não tem participação direta no capital do resort, mas frequenta o local. Ao Estadão, Zettel confirma que é cotista do fundo e afirma ter deixado o investimento em 2022, embora a liquidação se dê apenas em 2025. “Não tenho mais vínculo com o fundo desde 2022”, diz o pastor. Ele foi preso e liberado no mesmo dia por decisão de Toffoli.

A defesa de Daniel Vorcaro alega desconhecer os negócios dos fundos. Em nota, afirma que o banqueiro não tem “qualquer conhecimento a respeito dos negócios dos referidos fundos” e que nunca foi cotista nem “participou de sua gestão”. Segundo os advogados, Vorcaro “não tem nem nunca teve informação ou participação em negócios relacionados ao resort ou quaisquer outros investimentos realizados por esses veículos”. Empresas ligadas a ele, sustenta a defesa, são apenas clientes do Master que recebem investimentos de sua holding, “sem qualquer vínculo com as operações mencionadas dos fundos”.

Repercussão política e próximos capítulos

A revelação de que os fundos usados para comprar a participação da família Toffoli no Tayayá têm um único cotista, ligado ao principal investigado do caso Master, adiciona pressão política sobre o Supremo. A conexão entre o cunhado de Vorcaro e um negócio familiar do relator do inquérito alimenta críticas de conflito de interesse e deve intensificar cobranças por transparência e afastamento de processos sensíveis.

No plano prático, a trama financeira em torno do Tayayá expõe falhas de supervisão sobre fundos de investimento que concentram recursos em um único investidor e transitam por ativos pouco escrutinados. A Polícia Federal mira não só a compra e venda de participações societárias, mas também a hipótese de lavagem de dinheiro e de uso de veículos financeiros para mascarar a origem de valores. A credibilidade do mercado de capitais e de órgãos de controle entra em jogo.

O negócio do resort, hoje nas mãos do advogado Paulo Humberto Barbosa, ilustra como ativos reais, como hotéis e empreendimentos turísticos, se tornam peça de um xadrez maior que envolve bancos médios, gestoras de recursos e figuras centrais da política. O desfecho do caso Master e das operações Compliance Zero e Carbono Oculto tende a definir o grau de exposição de magistrados, banqueiros e gestores que transitam por esse ambiente.

No Supremo, caberá a Toffoli conduzir os próximos passos de investigações que agora tocam suas relações familiares e sociais. A Procuradoria-Geral da República pode pedir novas diligências, que incluam a análise detalhada das operações dos fundos Leal e Arleen, bem como da venda das participações a Barbosa em 2025. O arco de questões abertas vai da regularidade das transações ao eventual dever de impedimento do ministro em casos que tangenciam seus círculos mais próximos.

Enquanto a PF aprofunda quebras de sigilo e rastreia cada etapa dos aportes de R$ 20 milhões ao Tayayá, o episódio reforça uma pergunta incômoda para o sistema político e financeiro: quem, de fato, controla o dinheiro que circula nas franjas do poder?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *