Cubanos marcham com tochas em Havana contra ameaças dos EUA
Milhares de cubanos marcham com tochas pelas ruas de Havana na noite de 28 de janeiro de 2026, em protesto contra ameaças dos Estados Unidos. A procissão transforma a capital em palco de um ato político de forte carga simbólica, em meio à escalada de tensão ligada à crise na Venezuela.
Tochas, slogans e memória histórica em Havana
A marcha começa no início da noite, quando a luz das tochas passa a disputar espaço com os postes da capital. Jovens, veteranos da Revolução e famílias inteiras avançam em ritmo constante, entoando lemas contra Washington e em defesa da soberania cubana. As imagens lembram, à distância, a tradicional Marcha das Tochas que, há décadas, marca o aniversário de José Martí, herói da independência cubana.
O governo cubano apresenta o ato como resposta direta às “ameaças militares e políticas” vindas de Washington, intensificadas desde o início de janeiro. Autoridades denunciam sinais de endurecimento nas sanções econômicas e mencionam, em particular, declarações públicas de figuras do governo norte-americano sobre possíveis ações mais duras na região, em especial na Venezuela. “Cuba não se dobra diante de ultimatos”, afirma um dirigente do Partido Comunista, em discurso transmitido pela televisão estatal momentos antes da marcha.
Crise na Venezuela amplia tensão e reforça narrativa de resistência
A mobilização ocorre no contexto de pressão crescente dos Estados Unidos sobre o governo venezuelano, aliado estratégico de Havana há mais de 20 anos. A Casa Branca ameaça ampliar sanções e não descarta, em declarações públicas, ações militares indiretas para forçar uma transição em Caracas. Em Havana, a leitura é de que qualquer intervenção na Venezuela afeta diretamente o equilíbrio político e econômico da ilha, que depende, em parte, de acordos de energia e cooperação médica.
A marcha serve como demonstração de força interna em meio à fragilidade econômica. O país encara queda na entrada de divisas, inflação em alta e desabastecimento recorrente. Ao convocar a população às ruas com tochas nas mãos, o governo tenta transformar o desgaste cotidiano em combustível político. “Viemos dizer ao mundo que Cuba não aceita chantagem”, diz uma estudante universitária de 19 anos, que participa pela primeira vez da procissão. Ao lado dela, um ex-funcionário público de 72 anos lembra o embargo imposto pelos EUA em 1962: “São mais de 60 anos de bloqueio. Cada tocha aqui representa esse tempo de resistência.”
Embargo, geopolítica e o cálculo de risco para Havana
O endurecimento da postura norte-americana reacende o temor de que o embargo econômico, já responsável por prejuízos estimados em mais de US$ 150 bilhões ao longo de seis décadas, ganhe novos capítulos. Especialistas em relações internacionais veem na marcha uma mensagem calculada. Ao mesmo tempo em que fala à base interna, o governo busca pressionar aliados e organismos multilaterais a condenar qualquer escalada militar na região. Na prática, a demonstração de unidade nas ruas funciona como argumento visual em foros diplomáticos, da Organização das Nações Unidas à Organização de Estados Americanos.
O protesto fortalece laços com Caracas, que enfrenta sanções mais amplas desde 2017. A presença de bandeiras venezuelanas ao lado das cubanas durante a marcha sublinha a aliança política e simbólica. Analistas em Havana e em capitais latino-americanas avaliam que o gesto contribui para a consolidação de um bloco de resistência às políticas norte-americanas, com impacto direto sobre negociações comerciais, acordos de segurança e alinhamentos em votações internacionais. Ao mesmo tempo, a mobilização ajuda o governo a conter críticas internas e dispersar, ao menos por algumas horas, o descontentamento com filas e salários corroídos pela inflação.
Diplomacia sob pressão e próximos movimentos
Diplomatas em Havana e Washington acompanham os desdobramentos com atenção. A marcha ocorre poucos dias antes de reuniões técnicas programadas para discutir temas sensíveis, como migração, tráfico de drogas e cooperação em saúde. O clima nas ruas adiciona um elemento político a conversas que, em teoria, deveriam ser estritamente técnicas. Interlocutores próximos aos dois governos admitem, em caráter reservado, que a margem de manobra se estreita a cada nova ameaça verbal ou sanção anunciada.
O impacto completo da manifestação ainda depende da reação de Washington e do posicionamento de países da região, em especial México, Brasil e Argentina. Uma condenação pública a eventuais ações unilaterais dos Estados Unidos pode reforçar a leitura, em Havana, de que o ato com tochas surte efeito além das fronteiras da ilha. Sem um gesto de distensão, o risco é que a retórica de confronto se torne rotina e transforme manifestações simbólicas como a desta terça-feira em parte permanente do calendário político cubano. A pergunta, para os próximos meses, é se a luz das tochas abre espaço para diálogo ou apenas ilumina um cenário de tensão prolongada no Caribe.
