Cuba alerta para colapso de sistema de saúde sob embargo dos EUA
O ministro da Saúde de Cuba, José Ángel Portal Miranda, afirma nesta 22 de fevereiro de 2026 que o sistema de saúde do país está à beira do colapso. Ele atribui a crise ao endurecimento do bloqueio econômico e comercial imposto pelos Estados Unidos, que restringe o fornecimento de petróleo essencial para manter hospitais e serviços básicos em funcionamento.
Combustível escasso, hospitais sob pressão
Nos corredores dos principais hospitais da ilha, a preocupação deixa de ser apenas a falta de remédios. A ameaça agora é não ter energia para ligar equipamentos vitais. Com menos petróleo chegando ao país, geradores funcionam no limite, ambulâncias ficam paradas e cirurgias são remarcadas ou canceladas.
Em entrevista à agência Associated Press, Portal Miranda descreve um cenário em que as sanções energéticas deixam de ser uma disputa entre governos e passam a atingir diretamente a vida de milhões de cubanos. “Não se pode prejudicar a economia de um Estado sem afetar os seus habitantes”, afirma. “Esta situação pode colocar vidas em risco”, completa, ao falar em “segurança humana básica” ameaçada.
Os números que o ministro apresenta dimensionam a crise. Cerca de 5 milhões de cubanos com doenças crônicas, quase metade da população, podem enfrentar falta de medicamentos ou adiamento de tratamentos. Entre eles, 16 mil pacientes oncológicos que dependem de radioterapia e outros 12.400 que necessitam de quimioterapia em ciclos regulares, sob risco de interrupção.
Impacto direto em pacientes e serviços essenciais
O efeito do bloqueio se espalha por quase todas as áreas da rede pública de saúde, que historicamente é apresentada pelo governo cubano como vitrine do modelo socialista. Serviços de cardiologia, ortopedia e oncologia trabalham com estoques de insumos mais apertados e janelas menores de atendimento. Pacientes em estado crítico dependem de equipamentos que não podem falhar em meio a apagões cada vez mais frequentes.
Tratamentos para doenças renais também entram na lista de setores vulneráveis. A diálise, que exige máquinas em funcionamento constante e água tratada, depende de energia estável e de transporte para levar pacientes até as unidades especializadas. Quando falta combustível, micro-ônibus de hospitais deixam de circular, ambulâncias reduzem trajetos e famílias recorrem a alternativas improvisadas.
A escassez de petróleo compromete ainda a coleta de resíduos tóxicos e hospitalares. Sem logística regular, lixo infectante se acumula, ampliando o risco de transmissão de doenças. Em bairros populares, o avanço de dengue e chikungunya pressiona unidades de atenção básica já saturadas. A crise energética, nesse cenário, se soma a um quadro epidemiológico que se torna mais difícil de controlar.
A situação é agravada por apagões recorrentes, que deixam cidades inteiras no escuro por horas. Em hospitais, geradores a diesel garantem o mínimo necessário para manter UTIs, salas de emergência e bancos de sangue operando. Com menos combustível disponível, gestores se veem forçados a escolher quais setores recebem prioridade. A decisão, na prática, define quais tratamentos seguem e quais são suspensos.
Embargo histórico, sanções reforçadas e ajuda insuficiente
O embargo econômico dos Estados Unidos contra Cuba está em vigor há mais de seis décadas, desde o início dos anos 1960. Ao longo desse período, tornou-se o eixo de uma disputa política persistente entre Havana e Washington. O governo cubano responsabiliza o bloqueio pela maior parte de suas dificuldades econômicas; a Casa Branca, por sua vez, apresenta as sanções como instrumento de pressão por mudanças políticas na ilha.
Nos últimos anos, a conjuntura internacional encarece o petróleo e torna mais difícil encontrar fornecedores dispostos a assumir riscos financeiros e diplomáticos. As restrições afetam não apenas a compra direta de combustível, mas também operações de transporte marítimo, seguros e acesso a crédito. Para Cuba, isso significa menos navios chegando aos portos e maior dependência de acordos pontuais com países aliados.
O México aparece entre os parceiros que oferecem algum alívio imediato. O governo mexicano envia dois navios carregados com alimentos, suprimentos médicos e outros recursos básicos para tentar reduzir a pressão sobre o sistema de saúde e a população. Gestos semelhantes partem de outros aliados de Havana, que condenam publicamente o endurecimento das sanções e falam em impactos humanitários graves.
O volume de ajuda, porém, está longe de compensar as restrições impostas ao longo de décadas. A dificuldade de acesso a combustível atinge a espinha dorsal dos serviços públicos. Sem energia estável e transporte minimamente confiável, o modelo de saúde universal, construído ao longo da Revolução Cubana, fica exposto a uma fragilidade que o discurso oficial já não consegue encobrir.
Risco de agravamento e pressão internacional
Se o bloqueio permanecer nos moldes atuais, autoridades e especialistas em saúde pública preveem um agravamento da crise. A cada mês de restrição energética, o país acumula novos atrasos em cirurgias, tratamentos oncológicos e terapias contínuas, como hemodiálise e acompanhamento de doenças cardíacas crônicas. O resultado tende a ser aumento da mortalidade por causas evitáveis e avanço de doenças infecciosas.
O alerta de Portal Miranda ecoa em fóruns internacionais que discutem o impacto humanitário de sanções prolongadas. Organizações multilaterais e governos aliados pressionam, em diferentes graus, por mecanismos de alívio especificamente voltados a medicamentos, insumos hospitalares e combustível para serviços essenciais. A diplomacia americana, por outro lado, mantém a política de pressão sobre Havana, sob o argumento de que mudanças internas não avançam.
Enquanto negociações não se movem, o cotidiano de milhões de cubanos se redefine em filas, remarcações e incertezas. Pacientes crônicos adaptam rotinas a apagões e atrasos; equipes médicas improvisam para manter mínimos protocolos de segurança. O governo cubano tenta exibir resiliência, mas admite que a margem de manobra encolhe a cada semana.
O destino imediato do sistema de saúde da ilha depende, em grande medida, de decisões tomadas fora de suas fronteiras. A pergunta que fica, diante de hospitais à beira do limite e de 5 milhões de pacientes em risco, é por quanto tempo a lógica das sanções resistirá à pressão de uma crise que se torna, cada vez mais, abertamente humanitária.
