Crise no STF: caso Master amplia racha e desconfiança entre ministros
Ministros do Supremo travam, até 19 de fevereiro de 2026, uma disputa surda em torno do inquérito das fake news e do caso Master, que envolve Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Vazamentos de reuniões reservadas, suspeitas sobre contratos privados e o uso de investigações para fins pessoais alimentam um clima de desconfiança sem precedentes na mais alta corte do país.
O banco no centro da crise
No epicentro da tensão está o Banco Master, instituição ligada a fraudes atribuídas ao empresário Daniel Vorcaro. O caso, que começa como investigação financeira, se transforma em teste de sobrevivência política para ministros do Supremo. A suspeita de que o inquérito das fake news, aberto em 2019 para apurar ataques à Corte e à democracia, passou a servir também como escudo pessoal empurra a crise para dentro dos gabinetes.
Alexandre de Moraes, relator do inquérito, é alvo de irritação aberta entre colegas. O estopim é o uso das apurações para atingir auditores fiscais da Receita Federal que rastrearam bens e contratos de sua família. Entre esses contratos está um acordo de R$ 129 milhões firmado pela esposa do ministro com o Banco Master, operação que, segundo relatos internos, teria impulsionado de forma exponencial seu patrimônio, hoje estimado em quase R$ 80 milhões. A reação de parte do Supremo não se dá apenas pelo valor, mas pelo entendimento de que um inquérito destinado a proteger as instituições acabou sendo acionado em causa própria.
Nos corredores, ministros relatam em privado o medo de que relatórios fiscais, extratos bancários e mensagens apreendidas sejam organizados em dossiês cruzados, aptos a acuar qualquer voz dissonante. A percepção é de que, num tribunal que decide sozinho sobre temas eleitorais, criminais e econômicos bilionários, o poder de investigar se confunde perigosamente com o poder de intimidar. “Não se pode governar o plenário com medo”, resume um integrante da cúpula do Judiciário, em conversa reservada.
A crise se aprofunda quando o caso Master atinge Dias Toffoli, ex-presidente do STF e personagem central na teia de interesses do banco. Vorcaro, que controla a instituição, vira alvo de inquéritos por supostas fraudes, e a presença de Toffoli no centro desse tabuleiro passa a ser vista como risco coletivo. A ligação entre os destinos de Toffoli e Moraes, hoje descrita por colegas como “indissociável”, reforça a leitura de que a sobrevivência de um depende da blindagem do outro.
Vazamentos, sigilo interno e desgaste público
O racha no Supremo deixa marcas visíveis quando diálogos de uma reunião fechada, convocada para discutir a saída de Toffoli do inquérito sobre o Master, chegam à imprensa em detalhes. Entre ministros, não há dúvida sobre a origem do vazamento. A avaliação é que partiu do próprio Toffoli a exposição dos bastidores que selaram seu afastamento da investigação envolvendo as fraudes do banco. O episódio é tratado como quebra de um pacto não escrito de confidencialidade interna e acentua o sentimento de que conversas em off correm o risco de virar munição política.
Em público, prevalece o tom institucional. Em notas, o tribunal reafirma o compromisso com a legalidade, a independência e o combate à desinformação. Nos bastidores, o discurso é outro. Ministros admitem que o uso expansivo do inquérito das fake news, que já alcança empresários, políticos, influenciadores e até servidores de carreira, como os auditores da Receita, cria um campo cinzento entre proteção institucional e autoproteção. A linha, hoje, parece mais tênue do que nunca.
O caso também reabre um debate antigo sobre o poder concentrado nas mãos de relatores e presidentes da Corte. Desde 2019, o inquérito das fake news acumula ramificações, decisões monocráticas e medidas sigilosas, o que dificulta o controle externo e interno sobre sua condução. Associações de classe e juristas questionam, em off, o que chamam de “inquérito de gaveta”, acionado conforme a conveniência política do momento. A cada nova ordem de quebra de sigilo ou busca e apreensão vinculada ao procedimento, o desconforto cresce.
A repercussão pública não é menos corrosiva. Nas redes sociais e nas ruas, o STF aparece ora como guardião firme da democracia, ora como ator político que escolhe alvos e protege aliados. O caso Master, com cifras milionárias e contratos pessoais no centro do tabuleiro, alimenta a percepção de que interesses privados entram pela porta principal de um tribunal que deveria ser impermeável a esse tipo de influência.
O que pode mudar para o Supremo e para a política
As consequências práticas da crise vão além do constrangimento interno. Cada suspeita de uso político de inquéritos fragiliza decisões futuras sobre temas sensíveis, como novas operações policiais, ações penais contra autoridades e julgamentos eleitorais. Políticos investigados já começam a usar, em suas defesas, o argumento de “parcialidade” ou de “uso seletivo” do inquérito das fake news e de procedimentos sigilosos, estratégia que pode encontrar eco em instâncias inferiores.
A própria Receita Federal, atingida por ordens judiciais que miram auditores ligados a apurações envolvendo autoridades, discute internamente protocolos para blindar investigações fiscais de interferências externas. Servidores relatam temor de retaliação pessoal ao cruzar dados que atinjam figuras do alto escalão dos Três Poderes. Se essa cautela se consolida, o resultado é uma queda na efetividade da fiscalização sobre grandes fortunas, contratos públicos e operações financeiras complexas.
No campo político, partidos de oposição e de centro observam o impasse como oportunidade e risco. De um lado, a crise alimenta discursos em defesa de limites mais claros ao poder do STF, com propostas de emenda constitucional que restringem decisões monocráticas, estabelecem mandatos para ministros ou criam instâncias de revisão. De outro, a instabilidade afasta parlamentares que dependem do tribunal para arbitrar disputas eleitorais e julgar ações de interesse direto de suas legendas.
Especialistas em direito público alertam que o desgaste prolongado da Corte pode abrir espaço para avanços autoritários. “Quando o Supremo perde legitimidade, o sistema todo fica vulnerável”, afirma um professor de processo constitucional ouvido pela reportagem. A lembrança de 2019 e 2020, anos marcados por ataques coordenados à instituição e ameaças de ruptura, ainda pesa na memória dos ministros.
Pressão por transparência e dúvidas sem resposta
A sequência de episódios ligada ao Banco Master empurra o STF para uma encruzilhada. A cobrança por transparência sobre contratos privados, critérios de sigilo, uso do inquérito das fake news e troca de informações entre gabinetes tende a se intensificar nos próximos meses. Organizações da sociedade civil falam em criar observatórios permanentes da atuação da Corte, com foco em rastrear decisões que envolvem interesses econômicos relevantes e autoridades com foro privilegiado.
Nos bastidores, ministros discutem saídas para reduzir danos. Entre as possibilidades estão a redistribuição de trechos do inquérito das fake news, maior colegialidade em decisões sigilosas e a fixação de parâmetros claros para investigações que alcancem colegas de Corte. Nenhuma dessas medidas, porém, resolve a pergunta que permanece no ar em Brasília: até que ponto a mais alta instância do Judiciário consegue apurar suspeitas que a envolvem diretamente sem perder a confiança de quem a observa de fora?
