Crise no Louvre leva Macron a aceitar renúncia do presidente do museu
O presidente do Museu do Louvre apresenta sua renúncia nesta quinta-feira (26), em Paris, após uma sucessão de crises na instituição. Emmanuel Macron aceita o pedido e abre uma disputa pela liderança do museu mais visitado do mundo.
Museu símbolo da França em meio a turbulências
A saída do dirigente ocorre depois de meses de desgaste acumulado. Um roubo de joias valiosas, vazamentos de água em áreas sensíveis do prédio histórico, greves de funcionários e uma fraude na venda de ingressos expõem fragilidades administrativas em uma das vitrines culturais da França. O Palácio do Louvre, que abriga cerca de 35 mil obras em exibição e recebe, em anos normais, mais de 8 milhões de visitantes, entra em uma fase de transição em um momento de alta visibilidade internacional.
No governo, a avaliação é que a permanência do presidente já se torna insustentável. A renúncia chega ao Palácio do Eliseu no início da manhã e é aceita por Macron sem resistência, segundo interlocutores ouvidos nos bastidores. O presidente francês enxerga na mudança uma chance de retomar o controle político sobre um ícone nacional que acumula incidentes constrangedores desde o fim de 2024. “O Louvre precisa voltar a ser sinônimo de excelência, não de crise”, comenta, em reservado, um assessor ligado à área cultural.
O episódio mais ruidoso envolve o roubo de joias avaliadas em milhões de euros, retiradas de uma exposição temporária sob vigilância considerada insuficiente por especialistas em segurança. As investigações apontam participação interna na quebra do protocolo, o que pressiona ainda mais a gestão. Dias depois, vídeos de água escorrendo por galerias históricas, em pleno inverno parisiense, circulam nas redes sociais e alimentam críticas sobre falta de manutenção em um prédio cuja origem remonta ao século XII.
No início de 2026, o clima interno se deteriora com uma sequência de greves de funcionários. Os sindicatos denunciam excesso de visitantes, falta de pessoal e condições precárias em alguns setores de atendimento. Em determinados dias, parte das salas fecha mais cedo, frustrando turistas que compram ingressos com antecedência de semanas. A situação se agrava quando vem à tona uma fraude na venda de bilhetes, com revenda irregular e superfaturada por intermediários que atuam à margem do sistema oficial.
Confiança em xeque e pressão por mudanças
Os episódios minam a confiança do público e de parceiros privados no museu. Operadores de turismo relatam aumento nas reclamações, sobretudo de estrangeiros que pagam mais de 30 euros por ingresso e enfrentam filas, áreas interditadas e serviços reduzidos. “O Louvre continua lotando, mas a experiência piora visivelmente”, afirma o representante de uma agência que leva grupos de brasileiros a Paris desde antes de 2010. A tensão respinga no governo, que injeta centenas de milhões de euros por ano na rede de museus nacionais e vê crescer o questionamento sobre a eficiência do gasto.
A direção do Louvre tenta reagir com anúncios de investimentos emergenciais na infraestrutura, revisão de contratos de segurança e auditorias internas. As medidas, porém, não bastam para conter a percepção de desorganização. Especialistas em patrimônio apontam risco real para a preservação de obras sensíveis à umidade e a variações bruscas de temperatura. Em um prédio de quase 800 anos, cada infiltração não resolvida pode se transformar em um problema estrutural de longo prazo.
A fraude na bilheteria provoca desgaste adicional. A suspeita é de que parte do esquema funcione há pelo menos dois anos, com desvio sistemático de ingressos e uso de plataformas paralelas para revenda. O caso levanta dúvidas sobre o controle digital do fluxo de visitantes e sobre a transparência das receitas, que ajudam a financiar restaurações, exposições temporárias e salários. “Quando há falhas desse tamanho na porta de entrada, o cidadão se pergunta como está o restante da gestão”, observa um pesquisador de políticas culturais da Universidade de Paris.
A renúncia, nesse contexto, funciona como um gesto político e simbólico. Macron sinaliza que está disposto a trocar o comando para tentar virar a página antes de uma nova temporada de alta turística, que começa em abril e se estende até outubro. A escolha do sucessor ganha peso não apenas cultural, mas também econômico. O Louvre é peça central de uma cadeia que movimenta hotéis, restaurantes, comércio e transporte em toda a região metropolitana de Paris.
Sucessão disputada e desafio de reconstruir a imagem
O governo prepara agora uma seleção acelerada para indicar o novo presidente do museu. O processo costuma levar meses, com consulta a comissões técnicas e crivo político do Eliseu. Desta vez, a pressão por rapidez é evidente. A expectativa é de anúncio de um nome ainda no primeiro semestre de 2026, para que o novo dirigente tenha tempo de conduzir planos de reforma administrativa e estrutural antes do próximo orçamento anual da cultura, previsto para debate no outono europeu.
Entre os desafios imediatos, estão a conclusão das investigações sobre o roubo de joias, a responsabilização pelos vazamentos que ameaçam salas históricas, um acordo duradouro com sindicatos e o fechamento das brechas na venda de ingressos. Organizações de defesa do patrimônio cobram transparência e metas públicas, com prazos e valores definidos para cada intervenção. A discussão respinga em outras instituições culturais francesas, que enfrentam dilemas parecidos de financiamento, conservação e pressão por público em alta escala.
Analistas veem na crise do Louvre um teste para o modelo de gestão de grandes museus na França, que combina forte aporte estatal com exigência de receitas próprias. Uma eventual revisão das regras pode influenciar debates sobre financiamento público da cultura, parcerias com a iniciativa privada e equilíbrio entre turismo de massa e preservação. Se a troca de comando resultar em reformas concretas, o caso servirá de laboratório para o restante do sistema.
Aos visitantes, resta a expectativa de que a turbulência administrativa não se traduza em mais salas fechadas ou riscos ao acervo. A credibilidade do Louvre, construída ao longo de séculos, depende de respostas rápidas e convincente. A renúncia do presidente encerra um ciclo, mas não resolve, por si só, as questões que corroem a confiança no museu. A França terá de mostrar se consegue transformar um dos momentos mais delicados de sua joia cultural em ponto de virada ou se a crise atual será apenas o prelúdio de problemas ainda maiores.
