Crise energética opõe Ucrânia a Hungria e Eslováquia após ataque
A Ucrânia entra em choque diplomático aberto com Hungria e Eslováquia após a interrupção do petróleo russo em 27 de janeiro de 2026. Os dois países ameaçam cortar a eletricidade de emergência que hoje ajuda Kiev a enfrentar apagões em pleno inverno.
Tensão cresce em plena onda de frio na Europa Central
O impasse começa com um ataque de drone a equipamentos de um oleoduto russo no oeste da Ucrânia, há menos de um mês do quarto aniversário da invasão em larga escala pela Rússia. Desde 27 de janeiro, o fluxo de petróleo do gigante energético russo para Hungria e Eslováquia está paralisado, atingindo diretamente dois dos países europeus que ainda dependem fortemente da infraestrutura da era soviética.
O oleoduto afetado integra o sistema Druzhba, construído na União Soviética e ainda hoje crucial para Budapeste e Bratislava. Os dois governos acusam Kiev de ser responsável pela interrupção prolongada do transporte de petróleo. A Ucrânia sustenta que a culpa é da própria Rússia, que teria atingido o oleoduto com drones em seu território, e afirma trabalhar em reparos de emergência.
O desgaste extrapola o campo técnico da energia e abre uma fissura política delicada dentro da União Europeia e da Otan. Hungria e Eslováquia fazem parte dos dois blocos, mas seus governos, liderados por Viktor Orbán e Robert Fico, se afastam do consenso majoritário pró-Ucrânia e cultivam laços estreitos com Moscou. A disputa atual expõe esse afastamento em um momento em que a segurança energética volta ao centro do tabuleiro europeu.
A escalada vem em meio a uma nova onda de frio na região, com temperaturas abaixo de zero e redes elétricas sob pressão. Ucrânia e Moldova já enfrentam apagões frequentes após a intensificação, desde outubro passado, dos ataques russos contra usinas, subestações e linhas de transmissão. Cada drone que atinge essa infraestrutura aumenta a dependência de Kiev da eletricidade de emergência comprada de vizinhos europeus.
Ultimatos, acusações de chantagem e risco de apagões
A ameaça pública de cortar a eletricidade torna a crise mais aguda. No sábado, o premiê eslovaco Robert Fico avisa que dará apenas dois dias para uma solução. “Se o fornecimento de petróleo para a Eslováquia não for retomado na segunda-feira (23), pedirei à SEPS, a sociedade anônima estatal, que interrompa o fornecimento emergencial de eletricidade para a Ucrânia”, escreve em uma postagem no X.
Dias antes, o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán emite recado semelhante, sinalizando que o fornecimento emergencial de energia pode ser usado como instrumento de pressão. Na prática, é um ultimato: ou o trânsito de petróleo russo volta a passar pelo território ucraniano, ou Kiev arrisca ficar sem parte do socorro elétrico que chega pelas interligações com Hungria e Eslováquia.
O governo ucraniano reage com dureza. “A Ucrânia rejeita e condena os ultimatos e a chantagem dos governos da Hungria e da República Eslovaca em relação ao fornecimento de energia entre nossos países”, diz o Ministério das Relações Exteriores em comunicado. “Ultimatos devem ser enviados ao Kremlin, e certamente não a Kiev.” Em outra nota, Kiev classifica as ameaças de corte como “provocativas, irresponsáveis e ameaçam a segurança energética de toda a região”.
Os números mostram o tamanho do risco. Hungria e Eslováquia respondem juntas por cerca de metade das exportações europeias de eletricidade de emergência para a Ucrânia. Essa energia é essencial para estabilizar a rede, religar hospitais, manter sistemas de aquecimento e reduzir a duração de apagões que, em algumas cidades, já chegam a várias horas por dia. Um corte súbito forçaria operadores ucranianos a recorrer a racionamentos mais duros e a priorizar áreas estratégicas.
O impacto não se limita às fronteiras da Ucrânia. A interrupção do fluxo de petróleo russo via Druzhba pressiona refinarias na Hungria e na Eslováquia, obrigadas a buscar alternativas mais caras ou logisticamente complexas. Os dois países são os únicos da União Europeia que ainda recebem volumes significativos de petróleo russo por oleoduto, o que torna qualquer bloqueio uma ameaça imediata à estabilidade de preços de combustíveis locais e, em cascata, à inflação e ao custo de vida.
Ao mesmo tempo, a disputa ressuscita antigas preocupações europeias com o uso da energia como arma geopolítica. Ao longo de quatro anos de guerra, a Ucrânia permite que parte da energia russa ainda chegue à Europa por seu território, mesmo após fortes cortes de volume decididos em Bruxelas. Agora, quando o sistema elétrico ucraniano está mais fragilizado, dois aliados formais da Otan ameaçam apertar ainda mais o cerco.
Rotas alternativas e a batalha pela segurança energética
Para tentar desarmar a crise, Kiev oferece caminhos alternativos. Em carta enviada à missão ucraniana na União Europeia, vista pela agência Reuters, o governo propõe desviar o fluxo de petróleo por outras rotas internas e marítimas enquanto o oleoduto danificado passa por reparos. Uma das opções é usar o sistema nacional de transporte de petróleo. Outra é recorrer ao oleoduto Odesa-Brody, que liga o principal porto ucraniano no Mar Negro ao território da UE, combinando o uso de navios-tanque com dutos já existentes.
As alternativas exigem tempo, investimento e coordenação regulatória, mas sinalizam que a Ucrânia tenta não ser vista como obstáculo absoluto ao abastecimento de Hungria e Eslováquia. Ao mesmo tempo, Kiev busca preservar sua margem de manobra em uma guerra na qual cada ativo energético, seja um oleoduto ou uma linha de transmissão, vira alvo prioritário. Desde outubro, ataques russos derrubam, em ondas, a capacidade de geração e transmissão do país, deixando milhões sem luz ou aquecimento durante noites sucessivas.
Na frente política, a disputa testa a coesão interna da União Europeia. Bruxelas tenta, há dois anos, reduzir a dependência do bloco dos combustíveis fósseis russos. A maioria dos países acelera a diversificação, assinando contratos de gás liquefeito, ampliando renováveis e reorganizando rotas de importação. Hungria e Eslováquia, mais expostas ao Druzhba, argumentam que precisam de uma transição mais lenta e, agora, usam a urgência do abastecimento como argumento contra a linha dura com Moscou.
O confronto também repercute na Otan. Uma escalada verbal entre governos aliados em plena guerra às portas do bloco complica negociações militares e políticas em curso, inclusive sobre ajudas futuras à defesa aérea ucraniana. A imagem de dois membros ameaçando cortar eletricidade de um país sob ataque russo alimenta questionamentos internos sobre prioridades estratégicas e solidariedade entre parceiros.
Os próximos dias se tornam decisivos. Se até segunda-feira, 23 de fevereiro, o petróleo não voltar a correr para Bratislava, Fico promete fechar as turbinas que hoje enviam parte da eletricidade de emergência a Kiev. Orbán pode seguir o mesmo caminho. Uma decisão coordenada aprofundaria o isolamento energético da Ucrânia em pleno inverno e colocaria ainda mais pressão sobre outros vizinhos europeus.
À medida que os ataques russos se intensificam e as reservas de paciência política na Europa se esgotam, a crise atual funciona como teste para a estratégia de segurança energética do continente. A pergunta que permanece é se a União Europeia conseguirá manter o apoio à Ucrânia sem desorganizar o abastecimento interno e sem abrir novos flancos de instabilidade entre seus próprios membros.
