Crise em Cuba se agrava com ofensiva de Trump e falta de básicos
A crise interna em Cuba se aprofunda no início de 2026 e muda a rotina de milhões de pessoas na ilha. Medidas econômicas adotadas pelo governo de Donald Trump encarecem o transporte público, pressionam a já frágil oferta de energia e agravam a escassez de itens básicos, de papel higiênico a remédios essenciais.
Rotina revirada entre malas, filas e apagões
Na zona de embarque de um aeroporto brasileiro, um comerciante cubano divide a bagagem em duas partes. Em uma mala pequena, roupas para poucos dias. Na outra, ocupa cada centímetro com desodorantes, sabonetes, pastas de dente, analgésicos e antibióticos. O destino é Havana, onde ainda vive a família.
Ele viaja ao menos uma vez por ano. Em menos de 12 meses desde a última visita, percebe mudanças nítidas. “Desta vez a situação está pior em tudo. Meus pais me ligam dizendo que o remédio para pressão desapareceu das farmácias”, relata. O comerciante, que mantém um pequeno estabelecimento de produtos caribenhos em São Paulo, pede para não ter o nome revelado. “Eu mando todo mês um pacote com sabonete, xampu e creme dental. Antes era extra, agora é necessidade básica”, diz.
A percepção individual encontra eco na paisagem das cidades cubanas. As filas nos pontos de ônibus aumentam, as esperas ficam mais longas e o custo de cada deslocamento pesa no bolso. A partir de janeiro de 2026, tarifas de transporte público sobem em várias províncias, em alguns casos em mais de 30%, segundo relatos de moradores e associações independentes de transporte. O principal motivo é a crise energética, agravada por novas sanções e restrições comerciais anunciadas por Trump contra Havana.
Com menos combustível importado e dificuldade para manter a geração de eletricidade, o governo cubano revê horários de circulação, reduz frota e prioriza linhas consideradas estratégicas. Linhas periféricas operam com intervalos maiores, de até 40 minutos, contra 15 minutos em 2024, de acordo com relatos colhidos pela reportagem. “Se eu perco um ônibus, posso chegar uma hora atrasado no trabalho. E ainda pago mais caro”, conta por telefone uma professora de 42 anos, moradora de Santiago de Cuba.
Ofensiva de Washington atinge o cotidiano dos cubanos
A nova rodada de medidas adotadas pelo governo Trump marca uma escalada da pressão histórica dos Estados Unidos sobre a ilha. O pacote, anunciado em etapas ao longo do fim de 2025, inclui restrições adicionais a transações financeiras, punições a empresas que negociam combustíveis com Cuba e barreiras a bancos que operam com instituições cubanas. Na prática, o país tem mais dificuldade para pagar importações de petróleo, medicamentos e insumos básicos.
Especialistas ouvidos por organizações regionais estimam que o custo adicional das novas restrições some centenas de milhões de dólares por ano, em um país cujo PIB gira em torno de US$ 100 bilhões. Em 2025, Cuba já registrava queda nas importações e apagões frequentes em grandes cidades. Em 2026, a combinação de menos combustível, redes elétricas antigas e economia estagnada aprofunda o quadro de racionamento.
O efeito chega rápido às prateleiras. Produtos de higiene simples, como papel higiênico, absorventes, sabonetes e escovas de dente, desaparecem por semanas. Medicamentos para doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, passam a ser comprados em pequenas quantidades, quando existem. “Minha irmã precisa dividir comprimidos para durar o mês”, conta o comerciante que vive no Brasil. “Eu nunca imaginei que ia viajar com uma mala cheia de pasta de dente.”
A ofensiva de Washington reabre feridas históricas na relação entre os dois países. Desde o embargo formalizado nos anos 1960, Cuba enfrenta ciclos de escassez e isolamento, parcialmente aliviados em momentos de aproximação, como durante o governo Barack Obama. A partir de 2017, com Trump, o movimento se inverte. Em 2026, a nova rodada de medidas consolida o retorno a uma política de confronto, com impacto direto sobre o cotidiano dos cubanos.
Na diáspora, a crise também se torna tema diário. Em cidades brasileiras com comunidades cubanas ativas, como São Paulo, Rio e Porto Alegre, estabelecimentos comerciais adaptam o cardápio às remessas possíveis. Alguns donos relatam aumento de até 40% na quantidade de encomendas de produtos de higiene e medicamentos enviados para a ilha nos últimos seis meses. “Antes eu vendia café, charuto, rum. Agora, metade das conversas é sobre remessas familiares”, afirma o comerciante entrevistado.
Pressão social e incerteza sobre o futuro
O agravamento da crise interna aumenta a pressão sobre o governo cubano. A população enfrenta um triplo aperto: salários que perdem poder de compra, transporte mais caro e acesso instável a bens básicos. Em Havana, moradores relatam gasto adicional de até 20% da renda mensal apenas para se deslocar ao trabalho e buscar alimentos em mercados distantes.
Economistas ouvidos por centros de pesquisa regionais alertam que a combinação de sanções externas e entraves internos dificulta qualquer recuperação rápida. Sem acesso amplo a crédito internacional e com baixa produtividade em setores estratégicos, Cuba depende de aliados dispostos a enfrentar as medidas de Washington. A capacidade de resposta do governo, porém, é limitada por contas públicas pressionadas e por uma população mais conectada, que acompanha o cenário regional por celulares e redes sociais.
Na frente internacional, a escalada de Trump volta a dividir governos latino-americanos. Países críticos ao embargo defendem em fóruns multilaterais a suspensão das sanções e pedem um canal de diálogo direto. Outros evitam confronto com Washington e restringem-se a manifestos diplomáticos. Organizações de solidariedade à ilha, ativas no Brasil desde os anos 1980, reorganizam campanhas para enviar doações específicas de remédios e itens de higiene, agora vistos como prioridade absoluta.
O comerciante que cruza a ponte aérea Brasil-Cuba a cada ano resume a sensação de incerteza. “Eu não sei como vai estar na próxima vez que eu for”, diz. “Cada viagem parece um mergulho em um país mais apertado, mais cansado.” Na bagagem, além de desodorantes e comprimidos cuidadosamente contados, segue uma pergunta que também ecoa entre diplomatas, analistas e familiares espalhados pelo mundo: até quando Cuba consegue resistir a mais uma rodada de pressão sem mudar de rota?
