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Economia

Crise do Ueno Bank deixa quase 3 milhões sem acesso ao dinheiro e ameaça governo do Paraguai

Banco digital sofreu intervenção após problemas financeiros, provocou a saída do presidente do Banco Central e colocou Santiago Peña sob pressão por impeachment.

Crise do Ueno Bank deixa quase 3 milhões sem acesso ao dinheiro e ameaça governo do Paraguai

A crise do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, deixou aproximadamente 3 milhões de clientes sem acesso imediato ao dinheiro e provocou uma turbulência política no país. A instituição sofreu intervenção do Banco Central paraguaio na terça-feira (3), após a identificação de problemas financeiros graves, e passou a ser investigada por suspeitas de operações irregulares. O caso também provocou a renúncia do presidente da autoridade monetária, Carlos Carvallo, e ampliou a pressão sobre o governo de Santiago Peña.

A instituição, que cresceu rapidamente nos últimos anos, administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos relacionados à Previdência Social. Com a suspensão das operações, trabalhadores, aposentados e empresas ficaram impossibilitados de movimentar valores mantidos no banco. A situação provocou filas nas agências, manifestações populares e preocupação com a recuperação dos depósitos.

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O escândalo ganhou dimensão política devido às antigas relações empresariais de Santiago Peña com o grupo controlador do Ueno Bank. O presidente anunciou a intenção de renunciar na quinta-feira (5), mas a saída ainda depende de procedimentos institucionais. Nesta sexta-feira (6), o Senado paraguaio deve dar continuidade ao julgamento político, enquanto Peña busca mais tempo para apresentar sua defesa.

Crise bancária pode levar ao impeachment de Santiago Peña no Paraguai; entenda o caso

O que aconteceu com o Ueno Bank?

O Banco Central do Paraguai decidiu, em 2 de novembro, iniciar um procedimento de resolução do Ueno Bank. A medida foi anunciada oficialmente no dia seguinte, depois que uma análise das demonstrações financeiras revelou que a instituição não possuía capital suficiente para cumprir as exigências legais.

Segundo o órgão regulador, o índice de solvência do banco caiu para menos de 50% do mínimo obrigatório. O indicador mede a capacidade de uma instituição financeira de absorver prejuízos e manter suas operações.

No caso do Ueno, o índice chegou a aproximadamente 5,56%, enquanto o mínimo exigido pela regulamentação paraguaia é de 12%.

Diante da deterioração financeira, o Banco Central determinou o início do procedimento de resolução, que permite às autoridades assumir o controle das operações e organizar o tratamento dos ativos e das obrigações da instituição.

Na prática, os serviços bancários foram interrompidos, impedindo clientes de realizar saques, transferências e outras movimentações financeiras.

Empréstimos suspeitos e operações financeiras estão sob investigação

As investigações apontam possíveis irregularidades na concessão de empréstimos a empresas relacionadas ao Grupo Vázquez, principal controlador do Ueno Bank.

Segundo documentos examinados pela imprensa paraguaia, a instituição teria realizado operações de crédito que ultrapassaram limites regulatórios para empresas vinculadas aos próprios acionistas.

Entre setembro de 2025 e maio de 2026, aproximadamente US$ 146 milhões teriam sido movimentados em empréstimos a três empresas relacionadas ao grupo controlador.

As autoridades também investigam uma operação envolvendo a transferência de uma carteira de créditos inadimplentes avaliada em US$ 74,4 milhões.

Conforme informações divulgadas sobre a fiscalização, a negociação teria sido apresentada como uma venda à vista, mas os recursos utilizados pela empresa compradora teriam origem em empréstimos concedidos pelo próprio Ueno Bank a companhias intermediárias.

A suspeita é de que o mecanismo tenha sido utilizado para contornar restrições regulatórias e apresentar uma situação financeira diferente da realidade.

As operações estão sob investigação e a responsabilidade criminal dos envolvidos ainda depende das conclusões das autoridades e de decisões judiciais.

Quase 3 milhões de clientes ficaram sem acesso ao dinheiro

O impacto da intervenção foi imediato porque o Ueno Bank havia conquistado uma parcela expressiva do mercado financeiro paraguaio.

A instituição informava possuir aproximadamente 2,9 milhões de clientes, número equivalente a uma parte significativa da população do país.

Com o bloqueio das operações, consumidores ficaram temporariamente impedidos de movimentar seus depósitos, utilizar cartões e acessar serviços financeiros digitais.

O problema atingiu trabalhadores que recebem salários pela instituição, aposentados, pequenos comerciantes e empresas que dependiam do banco para realizar pagamentos.

Em Assunção, capital do Paraguai, correntistas procuraram agências em busca de informações sobre a recuperação das economias.

A crise também provocou preocupação em Ciudad del Este, cidade localizada na fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná. Comerciantes passaram a temer dificuldades nas vendas e no pagamento de fornecedores devido à interrupção dos serviços bancários.

Apesar da gravidade do episódio, o Banco Central paraguaio sustenta que os problemas estão concentrados no Ueno Bank e não representam, por si só, uma crise generalizada de todo o sistema financeiro nacional.

Banco administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos

Outro ponto sensível envolve o dinheiro de instituições públicas depositado no Ueno Bank.

Segundo informações divulgadas durante a crise, aproximadamente US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em recursos de órgãos estatais e entidades públicas estavam sob administração da instituição financeira.

Parte desse montante estava ligada ao Instituto de Previdência Social do Paraguai, responsável por benefícios previdenciários e serviços de saúde.

O banco também participava do pagamento de benefícios a aproximadamente 32 mil aposentados.

A presença desses recursos ampliou a preocupação com possíveis prejuízos ao setor público e levantou questionamentos sobre os critérios utilizados para escolher a instituição financeira.

Parlamentares da oposição querem esclarecer quem autorizou as aplicações, quais avaliações de risco foram realizadas e se houve favorecimento político na concentração de depósitos públicos no Ueno Bank.

A existência desses depósitos, isoladamente, não comprova irregularidade ou participação criminosa de autoridades.

Qual é a ligação de Santiago Peña com o Ueno Bank?

A crise financeira atingiu diretamente o governo paraguaio porque Santiago Peña manteve relações empresariais anteriores com o grupo ligado ao banco.

O presidente foi acionista da Ueno Holding, empresa relacionada à estrutura societária da instituição, e informou ter vendido sua participação em março de 2025.

A oposição passou a questionar se essas relações influenciaram a atuação do governo e dos órgãos reguladores durante o crescimento acelerado do banco.

Outro personagem importante é Carlos Carvallo, que comandou a instituição financeira que antecedeu o Ueno Bank antes de assumir a presidência do Banco Central do Paraguai, em 2023.

Carvallo apresentou sua renúncia em 3 de novembro, após a intervenção no banco, em meio às críticas sobre possíveis conflitos de interesses na fiscalização da instituição.

A autoridade monetária afirmou que ele não participou das decisões relacionadas ao Ueno Bank.

Peña, por sua vez, negou responsabilidade pelas irregularidades e defendeu a investigação e punição de eventuais envolvidos.

Crise bancária provocou pedido de impeachment

A repercussão do caso ultrapassou o setor financeiro e chegou ao Congresso paraguaio.

Parlamentares da oposição apresentaram uma iniciativa de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, mencionando suspeitas de conflitos de interesses e possíveis falhas na fiscalização do sistema bancário.

As acusações envolvem também a concentração de recursos públicos no Ueno Bank e a atuação de autoridades responsáveis por acompanhar a saúde financeira da instituição.

Na quinta-feira (5), Peña anunciou a intenção de deixar a Presidência em meio à pressão política.

Entretanto, o anúncio não representou a conclusão automática da renúncia. O procedimento depende de decisões institucionais, e o julgamento político continuou em discussão no Congresso.

Nesta sexta-feira (6), Peña solicitou mais 72 horas para preparar sua defesa no Senado.

Enquanto não houver uma decisão definitiva sobre sua saída ou eventual destituição, ele permanece formalmente no exercício da Presidência.

Executivos foram presos e investigação alcança dezenas de pessoas

O caso também provocou uma investigação criminal sobre a administração do Ueno Bank.

O Ministério Público paraguaio apresentou acusações contra 27 pessoas relacionadas à instituição financeira e a empresas vinculadas ao grupo controlador.

Entre as medidas adotadas estão prisões de dirigentes e bloqueios judiciais de bens relacionados aos investigados.

As autoridades procuram esclarecer possíveis crimes financeiros, irregularidades contábeis e responsabilidades na concessão de empréstimos considerados suspeitos.

As investigações também devem avaliar se houve manipulação de informações financeiras e utilização de empresas intermediárias para realizar operações incompatíveis com as normas bancárias.

As acusações e medidas cautelares não equivalem a condenações. Os investigados têm direito à defesa e ao devido processo legal.

Clientes do Ueno Bank vão recuperar o dinheiro?

Uma das principais preocupações é saber quando os correntistas poderão recuperar os valores depositados na instituição.

O Paraguai possui um Fundo de Garantia de Depósitos destinado a proteger clientes de instituições financeiras que enfrentam problemas graves.

A cobertura legal corresponde a até 75 salários mínimos paraguaios por depositante, equivalente a aproximadamente 228,3 milhões de guaranis, ou cerca de US$ 38 mil.

Segundo estimativas divulgadas durante a crise, o mecanismo deverá permitir o ressarcimento integral da maior parte dos correntistas.

Entretanto, a garantia não significa que todos os depósitos serão liberados imediatamente.

As autoridades precisam identificar os valores cobertos, organizar os procedimentos administrativos e estabelecer os mecanismos de pagamento.

Quem possui recursos superiores ao limite garantido poderá depender do resultado do processo de resolução e da disponibilidade de ativos da instituição para recuperar o restante do dinheiro.

O governo também anunciou iniciativas para acelerar os pagamentos e reduzir os impactos econômicos da paralisação do banco.

Próximos passos

O Banco Central do Paraguai deverá continuar o procedimento de resolução do Ueno Bank, com prioridade para a proteção dos depositantes e a preservação da estabilidade financeira.

As autoridades também precisam definir como serão realizados os pagamentos garantidos e qual será o destino dos ativos e das obrigações da instituição.

Paralelamente, o Ministério Público continuará investigando as operações financeiras suspeitas, a atuação dos dirigentes e eventuais responsabilidades de outras pessoas envolvidas.

No campo político, o Senado deverá decidir sobre o pedido de prazo adicional apresentado por Santiago Peña e estabelecer a continuidade do julgamento de impeachment.

O desfecho da crise dependerá tanto da capacidade de recuperar os recursos dos clientes quanto das conclusões das investigações financeiras e das decisões políticas que poderão determinar o futuro do governo paraguaio.