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Crianças de Utah são achadas na Croácia após sequestro pela mãe

Quatro crianças de Utah, nos Estados Unidos, são encontradas em um centro infantil na Croácia, em janeiro de 2026, após serem levadas ilegalmente para a Europa pela mãe, Elleshia Seymour, que defendia crenças apocalípticas extremas. A família viaja ao país europeu e tenta agora, em meio a entraves legais e barreiras de idioma, conseguir o retorno das crianças para casa.

Resgate na Croácia expõe sequestro familiar e crenças apocalípticas

O desaparecimento de Landon, de 11 anos, Levi, 8, Hazel, 7, e Jacob, 3, é registrado em 2 de dezembro de 2025, em West Valley City, região metropolitana de Salt Lake City, em Utah. A mãe, Elleshia Seymour, de 35 anos, não devolve os filhos após uma visita prolongada de Ação de Graças e some com as crianças. Dias depois, câmeras de segurança do Aeroporto Internacional de Salt Lake City mostram o grupo embarcando em um voo só de ida para a Europa.

No meio de janeiro, o alerta finalmente chega. Na sexta-feira anterior ao dia 17, o FBI informa à família que as crianças são localizadas em Dubrovnik, no sul da Croácia, em um centro infantil semelhante a um abrigo estatal. Jill Seymour, tia de três das crianças, embarca às pressas ao lado do ex-marido de Elleshia, Kendall Seymour, pai de Landon, Levi e Hazel, e da noiva dele, Heather. O trio pousa no país no domingo, 17 de janeiro, e segue direto para a instituição.

Jill vê os sobrinhos por apenas duas horas por dia. As visitas são controladas por funcionários que pouco falam inglês. A tia relata choque com o que encontra. “Eu não diria que elas estão bem”, afirma. “É claro que eles estão seguros. Estão se alimentando. Têm onde dormir. Estão juntos, o que é ótimo, estão fora de perigo físico, mas eu não diria que estão bem de forma alguma.”

O caso chama atenção nos Estados Unidos porque Elleshia vinha escalando, há meses, um discurso religioso radical em sua conta no TikTok. Em vídeos com títulos como “Palavra Urgente”, “Preparem-se”, “Zumbis” e “EUA Dizimados”, ela falava em trevas sobre a América, pedia que seguidores estocassem suprimentos e anunciava a destruição iminente de Salt Lake City. Para a polícia de West Jordan, que acompanha o caso desde o desaparecimento, essas mensagens antecipam o que se tornaria um sequestro internacional com motivação paranoica.

Viagem secreta, abrigo precário e o papel das redes sociais

Com o avanço das investigações, a trajetória da mãe e das crianças pela Europa começa a aparecer em pedaços. Segundo Jill, os registros indicam que o grupo deixa Utah em dezembro e voa primeiro para Amsterdã, na Holanda. De lá, segue para a Itália. Depois, o caminho se torna confuso, com deslocamentos por avião, ônibus, balsas e barcos. “Acreditamos que elas voaram para Split, na Croácia, e andaram em muitos barcos, pegando balsas para diferentes ilhas e lugares”, conta a tia. “As crianças nem conseguem contar quantas balsas, ônibus e outros meios de transporte elas usaram.”

No centro da trama aparece o TikTok. Conforme o relato da família, Elleshia conhece, pela rede social, uma mulher que vive na Croácia e compartilha crenças semelhantes sobre um apocalipse global. As duas passam a se comunicar e a mãe decide levar os filhos para morar com essa desconhecida e o filho dela, de 13 anos. O grupo vive junto por quase dois meses. A mulher, dizem os familiares, não sabe que Elleshia não tem a guarda total das crianças.

O adolescente croata é quem muda o rumo da história. Com acesso a um celular, ele digita o nome de Levi no Google e encontra reportagens sobre o desaparecimento dos irmãos em Utah. “Ele foi fundamental para encontrarmos as crianças”, diz Jill. “Foi assim que ele encontrou todas as notícias. Foi lá que ele soube que as crianças tinham sido sequestradas.” O garoto mostra o material para a mãe e para Elleshia. A tensão cresce. A mãe do adolescente arruma as coisas de Elleshia e a leva até uma delegacia local. As duas discutem do lado de fora e acabam presas após a confusão, segundo a família Seymour. O garoto de 13 anos também é encaminhado ao mesmo abrigo infantil em Dubrovnik.

Autoridades croatas não detalham a prisão nem o paradeiro exato de Elleshia. “A Croácia é bastante reservada quando alguém está passando por esse tipo de processo. Eles não divulgam registros de prisão ao público como fazemos nos Estados Unidos”, afirma Jill. “Pelo que ouvimos de moradores locais… ela está em algum tipo de centro de detenção, como uma cela. Ela ainda não está na prisão propriamente dita, até que haja uma audiência no tribunal.”

Enquanto a situação jurídica da mãe avança em sigilo, a família tenta entender o impacto psicológico da fuga sobre as crianças. A pequena Hazel, de 7 anos, conta à tia o que Elleshia dizia desde a saída dos Estados Unidos. “A América é um lugar ruim e não estávamos mais seguras, então tínhamos que sair de lá”, relata a menina. Jill decide perguntar no que a sobrinha acredita. “Eu perguntei: ‘Em que você acredita, Hazel?’ e ela respondeu: ‘Acho que isso não é verdade’.” Para a tia, é um alívio. “Elas não acreditaram em nada do que ela estava dizendo. Ela dizia que Utah seria destruída, que toda a América seria destruída e que, basicamente, um apocalipse estava chegando. Mas eles são crianças muito inteligentes e sabiam que isso não era possível.”

Entraves legais, abrigo vulnerável e disputa pela volta aos EUA

O reencontro em Dubrovnik não encerra o drama. A família agora enfrenta um labirinto jurídico entre dois países, com legislações distintas de guarda e de proteção à infância. Os documentos de custódia emitidos por tribunais de Utah, que apontam Kendall como guardião legal de três das quatro crianças, precisam ser traduzidos para o croata e entregues fisicamente às autoridades. O país não usa sistemas eletrônicos para peticionamento judicial, o que atrasa cada etapa.

“Este país funciona de maneira muito diferente dos Estados Unidos em termos de rapidez e forma de entrega de documentos”, diz Jill. “Não existe o sistema de peticionamento eletrônico. Não se trocam documentos por e-mail — entregam-se pessoalmente, impressos e em cópias. Tivemos que traduzir tudo para o croata.” O próximo passo, explica, é receber um documento retificado, assinado por um juiz em Utah, traduzir a decisão e apresentá-la à polícia e ao abrigo. “Assim que o departamento de polícia croata concluir a investigação e confirmar a legitimidade de todos os documentos, o centro de acolhimento infantil ficará com a guarda das crianças e caberá a eles devolvê-la a Kendall.”

Enquanto o processo se arrasta, as crianças permanecem em um ambiente que a família considera inadequado. Jill descreve mofo preto em corredores, crianças pequenas sem supervisão constante e uma rotina frouxa. “Não é um lugar onde você gostaria que seus filhos vivessem, considerando a qualidade dos cuidados, ou melhor, a falta deles”, afirma. “Eles praticamente fazem o que querem, exceto na hora das refeições, quando se reúnem para comer. Fora isso, são deixados praticamente sozinhos, incluindo Jacob, de 3 anos, o que é bastante alarmante.”

A barreira de idioma amplia o sofrimento. Os quatro irmãos falam inglês, enquanto cuidadores e outras crianças se comunicam majoritariamente em croata. “Uma grande preocupação para as crianças é que elas não conseguem se comunicar verbalmente, então as emoções são avassaladoras”, relata a tia. “Elas só são ouvidas quando choram e gritam. Vai ser preciso muito trabalho de reconstrução, muita terapia.”

O caso joga luz sobre um fenômeno que preocupa autoridades em vários países: o sequestro parental com motivação ideológica, catalisado por redes sociais. As mensagens de Elleshia sobre apocalipse, destruição dos Estados Unidos e necessidade de fuga se espalham em uma plataforma de grande alcance e sem filtro prévio. Do outro lado do oceano, uma desconhecida com crenças semelhantes abre a porta de casa para uma mulher que nunca viu. Em poucas semanas, quatro crianças cruzam fronteiras, ilhas e sistemas de proteção social, até serem detidas em um abrigo superlotado no leste europeu.

Pressão internacional, crowdfunding e uma volta ainda incerta

A família tenta transformar a comoção em pressão concreta. Uma campanha no GoFundMe arrecada recursos para bancar passagens de ida e volta à Croácia, hospedagem, alimentação, custos médicos, assessoria jurídica e futura terapia das crianças. O objetivo é manter alguém da família em Dubrovnik todos os dias até que a Justiça autorize o retorno dos irmãos aos Estados Unidos.

Jill descreve uma rotina de visitas diárias de duas horas, sempre com despedidas difíceis. “É uma mistura de sentimentos. É muito difícil para todas as crianças se despedirem todos os dias. Elas entendem que voltaremos no dia seguinte, mas esse período de espera é muito difícil”, diz. “E passar de ver o pai e ter que se despedir todos os dias, para depois não saber o que as próximas 12 a 15 horas reservam.”

As próximas semanas devem ser decisivas. A decisão do juiz em Utah, a análise da polícia croata e a posição do centro infantil vão definir se o grupo volta junto para West Valley City ou permanece por mais tempo sob custódia do Estado croata. O FBI acompanha o caso como sequestro internacional de menores, e a legislação americana prevê punições severas em situações de violação de guarda com travessia de fronteiras.

O desfecho ainda é incerto, mas o caso já provoca debates em tribunais e órgãos de proteção à infância sobre fiscalização de viagens internacionais com menores, cooperação entre países em sequestros parentais e o papel das plataformas digitais na radicalização de pais. Para as quatro crianças de Utah, porém, a questão se resume a algo mais simples: quando vão poder dormir novamente em casa, sem precisar se despedir do pai na porta de um abrigo em um país onde ninguém entende o que elas dizem.

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