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CPMI pede apuração sobre esposa de Moraes e Toffoli por suspeita de tráfico de influência

O relator da CPMI dos consignados pede, nesta sexta-feira (27), que o Senado e a Procuradoria-Geral da República investiguem supostos crimes de responsabilidade e tráfico de influência envolvendo a advogada Viviane Barci de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A recomendação inclui apurações sobre o ministro Dias Toffoli e o ministro Alexandre de Moraes, ambos do Supremo Tribunal Federal, a partir de contratos financeiros e mensagens atribuídas aos investigados. O caso nasce das suspeitas de fraudes em empréstimos consignados ligados a aposentadorias e pensões do INSS.

Relatório mira contrato de R$ 129 milhões e mensagens vazadas

O relatório final da comissão, apresentado no Senado após o Supremo derrubar a liminar do ministro André Mendonça que prorrogava os trabalhos, transforma um inquérito sobre fraudes em aposentadorias em crise institucional entre Poderes. O texto pede que o Ministério Público Federal e o Senado aprofundem a investigação sobre o contrato de R$ 129 milhões firmado entre Viviane Barci, esposa de Moraes, e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição apontada pela CPMI como protagonista de irregularidades em consignados.

Segundo o relator, mensagens extraídas de celulares de Vorcaro e documentos do Banco Master sugerem que o acordo empresarial pode ter servido para abrir portas em Brasília. A CPMI, instalada em agosto de 2025 para apurar abusos em empréstimos sobre benefícios do INSS, passa a concentrar parte de seu relatório nas relações do banco com familiares de ministros do Supremo. Em paralelo, recomenda também investigação sobre a conduta de Dias Toffoli em conversas atribuídas a ele com o ex-banqueiro.

O presidente da comissão, senador Carlos Viana, afirma que os fatos levantados justificam a remessa imediata dos dados à PGR e ao Senado. “Ações dos ministros em áreas particulares, na qual há a hipótese de que o ministro tenha feito advocacia administrativa, tenha usado do cargo para ajudar o Banco Master e teria, em tese, recebido pelo escritório da mulher, com um contrato totalmente fora do mercado, isso tem que ser investigado”, diz à CNN. Ele defende que o Senado avalie a abertura de uma comissão específica para examinar eventuais crimes de responsabilidade.

Parte do material que embasa o relatório vazou para a imprensa nas últimas semanas, apesar do sigilo determinado. As mensagens atribuídas a Vorcaro com Toffoli, Moraes e Viviane acirraram o clima no Supremo e alimentaram suspeitas sobre interferência em decisões de interesse do banco. Até agora, o conteúdo não passa por perícia oficial, mas orienta pedidos de diligência e de abertura de inquérito.

Banco Master, fraudes em consignados e impacto sobre aposentados

O Banco Master está no centro da apuração desde que a CPMI identificou um volume expressivo de contratos de crédito firmados com aposentados e pensionistas entre janeiro de 2023 e novembro de 2025. Nesse período, clientes que recebem pelo INSS contrataram R$ 701,2 milhões em operações consignadas na instituição, de acordo com dados levantados pela comissão. O relator classifica o Master como “um dos maiores fraudadores de empréstimo consignado” do país.

As investigações apontam para golpes que envolvem contratação de empréstimos sem autorização, cobrança de tarifas abusivas e renegociações forçadas, sempre com desconto direto no benefício mensal. Em milhares de casos, o aposentado só descobre a dívida quando percebe a redução no contracheque. A CPMI sustenta que possíveis vínculos entre o banco e familiares de ministros do Supremo ampliam a gravidade do caso, porque tocam na confiança do cidadão em quem julga e em quem deveria protegê-lo de abusos financeiros.

O relatório final sugere o indiciamento de mais de 200 pessoas ligadas ao esquema, entre intermediários, executivos de instituições financeiras e operadores de dados. Entre os citados está o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que adiciona mais tensão política ao cenário. O documento afirma que a rede de fraudes se espalha por diferentes regiões do país e aproveita a fragilidade de idosos e pensionistas, público que raramente consegue contestar judicialmente os contratos.

Em entrevista à CNN, Carlos Viana reforça que a atuação da PGR é decisiva para dar consequência penal às descobertas. “O Senado tem que se debruçar numa comissão de investigação, a PGR tem que fazer seu papel de pedir a abertura de inquérito, assim como em relação a Dias Toffoli”, afirma. Ele diz que o Congresso não pode se omitir diante de suspeitas que atingem o topo do Judiciário.

Pressão sobre STF e próximos passos de PGR e Senado

A recomendação da CPMI chega à Procuradoria-Geral da República com potencial para aprofundar o desgaste entre o Congresso e o Supremo. Se a PGR entender que há elementos mínimos, pode pedir ao próprio STF a abertura de inquérito contra os ministros citados, em razão do foro privilegiado. O Senado, por sua vez, tem competência para receber eventuais pedidos de impeachment por crimes de responsabilidade, mas historicamente evita tensionar a relação com a Corte.

Até agora, Viviane Barci informa, por meio de sua assessoria, que não vai comentar o caso. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli não respondem aos pedidos de posicionamento até a publicação desta reportagem. O espaço para manifestação permanece aberto. A defesa dos envolvidos tende a contestar a interpretação dada aos contratos e a apontar uso político da CPMI, cenário que deve alimentar embates públicos nas próximas semanas.

A queda da liminar de André Mendonça, que permitiria a prorrogação da CPMI, faz o relatório sair sob clima de urgência, concentrando pedidos de indiciamento e encaminhamentos em um único pacote. A partir de agora, o ritmo do caso passa a depender da disposição da PGR em abrir inquéritos e do apetite do Senado para avançar sobre a conduta de ministros do Supremo, algo raro na história recente.

A investigação sobre o vínculo entre o Banco Master, o sistema de consignados e familiares de integrantes do STF pode redesenhar a fronteira entre política, finanças e Justiça. Se as suspeitas se confirmarem, o país terá de enfrentar o custo de punir autoridades no topo da hierarquia institucional. Se não se confirmarem, restará explicar por que aposentados e pensionistas continuam à mercê de um sistema de crédito que ainda opera nas sombras.

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