CPMI do INSS ouve empresária ligada a recursos ilícitos da Conafer
A CPMI do INSS ouve nesta segunda-feira (23/2), em Brasília, a empresária Ingrid Pikinskeni Morais Santos. Ela é apontada como destinatária de recursos considerados ilícitos, supostamente ligados a um esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS.
Convocação após recuo de banqueiro
A oitiva de Ingrid entra na agenda do colegiado após a desistência do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, de prestar depoimento na mesma data. Vorcaro se ampara em decisão do Supremo Tribunal Federal, que tornou facultativo o comparecimento de investigados à CPMI, e comunica à comissão que não falará neste momento.
O movimento força a cúpula da CPMI a reorganizar o cronograma e buscar outros nomes ligados ao esquema. Ingrid surge como peça-chave porque aparece em requerimentos de parlamentares como destinatária final de recursos que teriam origem na Conafer, a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil. A entidade é alvo de investigações por descontos irregulares em aposentadorias e pensões de segurados do INSS desde 2019.
As suspeitas se concentram em um fluxo de dinheiro que, segundo apurações citadas na comissão, sai da Conafer, passa por empresas de Cícero Marcelino de Souza Santos e chega a contas ligadas à empresária. Para os autores do pedido de convocação, a falta de contratos claros e justificativas legítimas para esses repasses indica tentativa de ocultar o destino real dos valores.
Esquema bilionário de descontos indevidos
A CPMI nasce a partir de uma operação conjunta da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, deflagrada em abril do ano passado. Os investigadores identificam um esquema de descontos ilegais feitos direto na folha de pagamento de aposentados e pensionistas, muitas vezes sem autorização dos titulares ou com base em autorizações genéricas e pouco transparentes. O foco recai sobre entidades que se apresentam como associações, sindicatos ou confederações representativas de categorias.
Os números impressionam o Congresso. Entre 2019 e 2024, as entidades envolvidas teriam arrecadado cerca de R$ 6,3 bilhões de forma irregular. O valor, distribuído em milhões de pequenos descontos mensais, corrói a renda de quem depende do benefício para sobreviver. A investigação aponta que parte desses recursos circula por empresas privadas, contratos de serviços mal explicados e estruturas usadas para mascarar o caminho do dinheiro.
Cícero Marcelino, apontado como intermediário em parte dessas transações, depõe à CPMI em outubro do ano passado. Ele admite que suas empresas mantêm alto volume de operações com a Conafer, mas diz que não consegue detalhar cada transação porque documentos e equipamentos foram apreendidos pela Polícia Federal. A explicação aumenta a pressão sobre outros nomes do circuito financeiro, entre eles Ingrid e o próprio Vorcaro.
Parlamentares afirmam, em conversas reservadas, que buscam entender se a cadeia de repasses chega ao sistema bancário em condições que indiquem lavagem de dinheiro ou blindagem patrimonial. A presença do dono do Banco Master na lista de convidados reforça essa linha de investigação. Mesmo sem falar à CPMI, ele continua sob o radar do Congresso e de órgãos de controle.
Impacto para aposentados e para a fiscalização
O caso mobiliza o Senado e a Câmara porque atinge diretamente a confiança no INSS e na folha de pagamento de benefícios. Cada desconto não autorizado significa menos dinheiro para remédios, alimentação e contas básicas de aposentados e pensionistas, muitas vezes em cidades pequenas, longe de agências e de atendimento jurídico. A cifra de R$ 6,3 bilhões, acumulada ao longo de cinco anos, ajuda a dimensionar o tamanho do prejuízo social.
Integrantes da CPMI defendem mudanças nas regras de autorização de descontos em folha e maior controle de convênios firmados pelo INSS com entidades privadas. A suspeita é de que brechas normativas e falhas de fiscalização permitam a proliferação de associações que vivem da cobrança automática, com pouca transparência sobre os serviços prestados. A resposta institucional, afirmam parlamentares, precisa combinar revisão de contratos, endurecimento de normas e responsabilização civil e criminal dos envolvidos.
O caso Conafer se torna um símbolo desse debate. A entidade se apresenta como representante de agricultores familiares, um segmento historicamente vulnerável, e passa a ser investigada por operar descontos em massa sobre benefícios previdenciários. A CPMI tenta mostrar que o Congresso reage, mas enfrenta o desafio de explicar, de forma simples, um esquema financeiro complexo, espalhado por diferentes estados, empresas e contas bancárias.
Próximos passos no Congresso e no STF
Enquanto Ingrid presta esclarecimentos à CPMI do INSS, o nome de Daniel Vorcaro migra para outra arena do Senado. A Comissão de Assuntos Econômicos, presidida por Renan Calheiros (MDB-AL), prevê ouvir o banqueiro já na terça-feira (24). A oitiva ocorre em outro formato, sem o clima de CPI, mas com atenção renovada para o papel do sistema financeiro na circulação dos recursos sob suspeita.
No Supremo, decisões recentes definem o ritmo das investigações parlamentares. O ministro André Mendonça torna facultativa a presença de investigados na CPMI, abrindo espaço para recuos como o de Vorcaro. Em paralelo, a Corte arquiva questionamentos ligados ao caso Master por “perda de objeto”, o que reconfigura parte do embate jurídico em torno do banqueiro. A cada movimento no STF, a CPMI recalibra a estratégia, buscando avançar sobre elos que ainda aceitam falar.
O depoimento de Ingrid indica uma fase em que a comissão mira a chamada ponta do dinheiro, os destinatários finais de recursos desviados de benefícios sociais. Se confirmadas as suspeitas, a CPMI deve propor mudanças legais para travar novos esquemas e sugerir o indiciamento de envolvidos. Se as explicações forem consideradas convincentes, o foco tende a se deslocar para outras frentes da investigação.
Entre aposentados, sindicatos e entidades do terceiro setor, a expectativa é por uma resposta clara: o sistema de benefícios do INSS está protegido contra novos desvios ou segue vulnerável a operações silenciosas de bilhões de reais? A sessão desta segunda-feira ajuda a desenhar essa resposta, mas deixa evidente que a disputa por versões ainda está longe do fim.
