CPI do INSS convoca ex-noiva de Vorcaro e ex-diretor do Banco Master
A CPI do INSS aprova, em 12 de março de 2026, a convocação de Mariana Graeff, ex-noiva de Daniel Vorcaro, e de dois ex-integrantes do círculo do Banco Master. Os deputados querem esclarecer o uso de jatinhos e a rede de influência do grupo com autoridades em Brasília e ministros de tribunais superiores.
Rede de poder em torno do Banco Master entra na mira
O movimento da CPI, em Brasília, amplia o foco das investigações sobre fraudes ligadas ao Banco Master e ao INSS. A comissão mira agora pessoas do entorno pessoal e profissional de Vorcaro para entender como o banco se aproximou de políticos e magistrados de cortes superiores.
Além de Mariana, os deputados aprovam a convocação de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e de Luiz Antonio Bull, ex-diretor do Master. Os três são chamados a explicar o possível uso de ativos sob suspeita, como jatinhos em nome de empresas ligadas ao ex-banqueiro, na organização de viagens e eventos que aproximam o grupo de autoridades.
O pedido parte do deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP), que se apoia em conversas extraídas pela Polícia Federal de celulares apreendidos nas fases da investigação. O material, segundo ele, indica que Mariana atua como ponte para encontros privados entre Vorcaro e autoridades em diferentes países.
As mensagens citadas à CPI mostram o ex-banqueiro relatando à ex-noiva reuniões com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Em outro trecho, Vorcaro descreve, com orgulho, ter discursado para ministros do STF e do Superior Tribunal de Justiça em um evento patrocinado por ele em Londres, financiado, segundo os investigadores, com recursos de origem ainda não esclarecida.
Na justificativa encaminhada à CPI, Kataguiri escreve que a oitiva de Mariana é “indispensável” para identificar quem frequenta o ambiente privado de Vorcaro e em que contexto essas interações ocorrem. O deputado afirma que a comissão precisa saber se viagens e encontros são custeados com o mesmo dinheiro sob suspeita em operações financeiras que derrubam o Master.
Fraudes, jatinhos e pressão sobre o entorno
As investigações sobre o Banco Master se aceleram desde novembro de 2025, quando o patrimônio de Vorcaro cresce cerca de R$ 1,2 bilhão em um ano, segundo documentos anexados ao inquérito. No mesmo período, a Polícia Federal deflagra novas fases da Operação Compliance Zero e aponta um esquema que mistura fraudes financeiras, acesso indevido a investigações sigilosas e tentativas de influenciar autoridades.
Em 17 de novembro, Vorcaro é preso pela primeira vez ao tentar embarcar em um jatinho particular rumo a Dubai. No dia seguinte, o Banco Central decreta a liquidação do Master, instituição que chega a movimentar bilhões em operações de crédito e que negocia, em paralelo, uma venda ao Banco de Brasília. O colapso do banco abre um rastro de prejuízos e disputas judiciais entre investidores, clientes e o poder público.
A CPI do INSS nasce desse ambiente e tenta medir o impacto das fraudes sobre aposentadorias e benefícios pagos pelo sistema previdenciário. A convocação de Mariana sinaliza que a comissão não se limita ao fluxo do dinheiro. Os deputados querem mapear a engrenagem de influência que pode ter blindado o grupo enquanto os números do banco ainda cresciam.
Na justificativa, Kataguiri afirma que, na condição de pessoa de “extrema confiança” de Vorcaro, Mariana pode detalhar a rotina do ex-banqueiro em Brasília e a rede de contatos que o Master mantém com políticos, ministros e assessores. A CPI tenta saber se essa rede facilita negócios com o poder público ou cria uma espécie de escudo jurídico para o banco.
Pessoas próximas ao ex-casal relatam que a separação ocorre em novembro, logo após a primeira prisão de Vorcaro. A pressão da repercussão pública e o desgaste emocional pesam sobre a empresária, que se afasta do ex-noivo em meio ao agravamento das investigações e ao desmonte do Master.
O caso ganha ainda uma camada pessoal. No Dia Internacional da Mulher, o designer Tomas Graeff, pai de Mariana, publica um texto nas redes sociais em defesa da filha. “Gostaria de deixar registrado o apoio incondicional à minha querida e amada filha”, escreve. Ele fala em “injustiça, ódio e violência sistêmica” e diz que as lágrimas da filha vão “regar as flores mais bonitas da terra”.
Impacto político e pressão sobre a CPI
A convocação de figuras próximas a Vorcaro expõe a CPI a um campo sensível: o das relações entre suspeitos de fraude e ministros de tribunais superiores. A presença de nomes do STF e do STJ em conversas apreendidas pela Polícia Federal alimenta cobranças por transparência tanto sobre os encontros quanto sobre quem os financia.
Deputados de oposição ao governo federal veem na linha de apuração uma chance de pressionar o Judiciário e testar os limites da atuação de ministros fora dos autos. Aliados, por outro lado, temem que a CPI se transforme em palco de confrontos institucionais e desvie o foco dos prejuízos concretos causados ao sistema previdenciário.
Os depoimentos de Zettel e Bull também podem abrir novos flancos. O cunhado de Vorcaro é apontado em investigações anteriores como operador financeiro do grupo. O ex-diretor do Master conhece de dentro a estratégia do banco nos anos em que o patrimônio do ex-banqueiro se multiplica e os riscos se acumulam longe do olhar de reguladores.
A depender do que vier à tona, a CPI pode sugerir o aprofundamento de inquéritos já em curso, o envio de novas representações ao Ministério Público e recomendações de mudanças regulatórias para o setor financeiro. O uso de jatinhos e outros ativos de luxo, por exemplo, pode levar a uma devassa sobre estruturas societárias usadas para ocultar patrimônio e driblar controles.
Depoimentos definem próximos passos da apuração
Os parlamentares ainda não definem as datas dos depoimentos, mas a expectativa é que as oitivas ocorram nas próximas semanas, em sessões públicas transmitidas pela TV Câmara. O cronograma deve considerar o prazo da CPI, que trabalha com poucos meses para entregar um relatório final capaz de apontar responsabilidades e sugerir mudanças de lei.
Mariana chega à CPI sob dupla pressão. De um lado, é peça central para esclarecer como Vorcaro se aproxima de ministros e autoridades em eventos fechados, no Brasil e no exterior. De outro, tenta separar sua imagem pessoal das acusações que cercam o ex-noivo e o banco em colapso.
Os depoimentos de Zettel e Bull tendem a completar o quadro, oferecendo a visão operacional e financeira do esquema apontado pela Polícia Federal. A soma dos relatos pode revelar se a rede de influência em Brasília é apenas um bastidor da vida social de um banqueiro em ascensão ou se funciona como parte estruturante de um sistema de fraudes.
Ao final, a CPI terá de responder a uma pergunta incômoda: o colapso do Banco Master e o crescimento acelerado do patrimônio de Daniel Vorcaro resultam apenas de falhas de fiscalização, ou revelam um modelo de relação entre poder econômico e poder público que ainda permanece em pé?
