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Corte de verbas faz cientista perder patente de remédio para lesão medular

A cientista responsável pela pesquisa da polilaminina perde, em 20 de fevereiro de 2026, a patente do medicamento experimental após cortes de verbas. O remédio, ainda sem registro, mostra potencial para recuperar lesões medulares graves, mas a falta de financiamento interrompe o projeto.

Corte de recursos trava pesquisa promissora

O fim do financiamento não atinge apenas um laboratório. A decisão encerra, na prática, uma década de trabalho dedicada a um composto que promete devolver movimentos a pacientes com lesão medular severa. A polilaminina, desenvolvida em ambiente acadêmico e ainda sem registro na Anvisa, deixa de ser uma aposta concreta e volta a ocupar o lugar de hipótese científica.

A pesquisadora, que vinha conduzindo estudos com apoio público e privado, depende de editais anuais e parcerias pontuais para pagar equipe, insumos e testes. Nos últimos dois anos, os recursos encolhem em cerca de 40%, segundo relatórios internos do grupo de pesquisa. Em 2025, uma nova rodada de cortes zera a previsão de investimento direto no projeto, inviabiliza etapas obrigatórias para renovação da patente e fecha o ciclo de proteção intelectual.

Da bancada ao limbo jurídico

A patente da polilaminina, registrada há pouco mais de uma década, exigia comprovação de avanço técnico e pagamento regular de taxas para seguir válida. Sem verbas para custear ensaios adicionais, auditorias independentes e o próprio processo burocrático, a pesquisadora deixa expirar o prazo final. O resultado é seco: a exclusividade sobre o uso do composto se perde, e qualquer interessado pode agora tentar explorar a fórmula, no Brasil ou fora dele.

Em testes iniciais, a equipe acompanha pacientes com lesões medulares classificadas como graves, em que a chance de recuperação funcional não passa de 5% com os tratamentos convencionais. Em alguns casos, relatados em relatórios submetidos a congressos internacionais, a polilaminina indica ganho parcial de sensibilidade e movimentos residuais após alguns meses de aplicação. A pesquisadora descreve, em um desses documentos, que “os resultados são preliminares, mas sugerem um potencial terapêutico inédito para esse perfil de lesão”.

Impacto direto em pacientes e na ciência

A perda da patente não significa a proibição do uso futuro do medicamento, mas sinaliza um recuo estratégico. Sem proteção intelectual, o interesse de grandes laboratórios diminui. O custo estimado para levar um fármaco do estágio experimental ao mercado passa facilmente de R$ 500 milhões, considerando ensaios clínicos em larga escala, produção em escala industrial e acompanhamento de longo prazo. Sem perspectiva de retorno exclusivo, investidores tendem a migrar para projetos blindados por patentes robustas e vigentes.

Pacientes com lesões medulares severas sentem o impacto de forma indireta, mas concreta. Tratamentos disponíveis hoje focam reabilitação intensiva, cirurgias complexas e dispositivos de suporte, como exoesqueletos, que podem chegar a R$ 300 mil por unidade. Um medicamento capaz de estimular regeneração ou reconexão de vias nervosas mudaria essa equação. Em vez disso, o cenário que se abre é de espera indefinida: sem patente, sem registro e sem dinheiro, a polilaminina corre o risco de permanecer no território das promessas não cumpridas.

Sintoma de um sistema frágil

A trajetória da polilaminina expõe um padrão conhecido por pesquisadores brasileiros. Projetos que avançam até um certo ponto, acumulam resultados de impacto e, na hora de dar o salto para a aplicação clínica, esbarram em caixas vazias. Nos últimos anos, sucessivos contingenciamentos atingem fundos destinados à ciência e tecnologia. Em alguns programas, o orçamento executado não passa de 60% do valor originalmente previsto, obrigando equipes a reduzir escopo, atrasar experimentos e, como agora, abrir mão de patentes estratégicas.

O caso também reacende o debate sobre a capacidade do país de transformar pesquisa básica em inovação de fato. Sem instrumentos estáveis de financiamento de longo prazo, medicamentos de alto impacto social acabam dependentes de ciclos políticos e vontades episódicas. A perda da patente da polilaminina não atinge apenas a cientista que a desenvolve. Envia um recado claro a jovens pesquisadores que avaliam se vale a pena insistir em projetos de alto risco científico em território nacional.

O que ainda pode acontecer

Mesmo sem patente, o conhecimento acumulado não desaparece. Artigos científicos, relatórios técnicos e protocolos de teste permanecem disponíveis para quem decidir retomar a linha de pesquisa. Universidades estrangeiras, fundos internacionais e farmacêuticas globais podem se interessar por uma molécula já parcialmente estudada e agora livre de amarras de propriedade intelectual. Em um cenário extremo, o Brasil pode assistir à consolidação de um tratamento revolucionário desenvolvido lá fora a partir de um embrião criado aqui, sem reconhecimento proporcional.

No curto prazo, a cientista tenta preservar a equipe mínima e buscar novas fontes de financiamento para manter vivo o projeto em alguma escala, mesmo sem a proteção da patente. O futuro da polilaminina, porém, depende de decisões que extrapolam o laboratório. A continuidade dessa linha de pesquisa se torna um teste para a capacidade do país de evitar que sua produção científica mais promissora termine em gavetas, enquanto pacientes com lesões medulares severas seguem à espera de uma alternativa que, por falta de recursos, ainda não chega ao leito.

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