Corinthians disputa título inédito no 1º Mundial feminino de clubes da FIFA
O Corinthians estreia em 28 de janeiro, em Londres, no primeiro Mundial de Clubes Feminino organizado pela FIFA. As Brabas buscam um título inédito e a maior premiação da história recente do futebol feminino do clube.
Corinthians chega fortalecido ao torneio histórico
O Mundial de Clubes Feminino da FIFA reúne, pela primeira vez, campeãs continentais em um formato enxuto, com apenas quatro jogos decisivos em Londres. Corinthians, Gotham FC, Arsenal e ASFAR disputam entre 28 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026 um troféu inédito e US$ 3,9 milhões em premiação total, o equivalente a quase R$ 21 milhões.
O time brasileiro estreia às 12h30, horário de Londres, 9h30 em Brasília, no estádio do Brentford, contra o Gotham FC, campeão norte-americano. Mais tarde, às 18h (15h no Brasil), Arsenal e ASFAR definem o outro finalista, também em Brentford. Os vencedores voltam a campo no domingo, 1º de fevereiro, no Emirates Stadium, às 18h, para a final. A disputa do terceiro lugar acontece no mesmo dia, às 14h45.
O Corinthians desembarca na Inglaterra como uma das equipes mais vitoriosas da temporada. Sob o comando de Lucas Piccinato, o time conquista o Brasileirão pela sétima vez e levanta a Libertadores Feminina pela sexta, após vencer o Deportivo Cali nos pênaltis. Também é vice da Supercopa e do Paulista, resultados que consolidam a temporada mais consistente entre as participantes do Mundial.
A base corinthiana também ganha peso na seleção brasileira. Nos últimos amistosos contra Noruega e Portugal, o técnico Arthur Elias, ex-Comandante das Brabas, convoca cinco jogadoras do clube: Lelê, Mariza, Thais Ferreira, Duda Sampaio e Gabi Zanotti. Aos 38 anos, Zanotti vive mais uma grande fase, com 18 gols na temporada. Ao lado dela, a jovem Jhonson, de 20 anos, renovada até 2028, soma 14 gols no ano e simboliza a transição geracional do elenco.
Em entrevista ao site da FIFA, a goleira Nicole, heroína ao defender um pênalti na semifinal da Libertadores contra a Ferroviária, resume o espírito corinthiano para o Mundial. “Isso vai ficar conosco para o resto da vida. Espero que possamos trazer o troféu para casa e escrever nossos nomes na história do Corinthians”, afirma.
A delegação chega a Londres em 20 de janeiro e treina desde então no estádio do Barnet FC, clube da quarta divisão inglesa. No último domingo, o trabalho se concentra em organização defensiva e bolas paradas, um dos pontos fortes do time em mata-mata.
Rivais fortes, prêmios altos e vitrine global
O Mundial começa bem antes de Londres. Em outubro do ano passado, o Wuhan Jiangda, da China, vence o Auckland City FC, da Nova Zelândia, por 1 a 0, em duelo entre campeãs da Ásia e da Oceania. Em dezembro, porém, as chinesas caem para o ASFAR, por 2 a 1, em jogo que garante às marroquinas a vaga no quadrangular final na Inglaterra.
O ASFAR, sigla para Associação Esportiva das Forças Armadas Reais, chega como azarão, mas com currículo respeitável. O time conquista pela 12ª vez o Campeonato Marroquino, de forma invicta na temporada 24-25, e levanta a Champions League feminina da África pela segunda vez ao vencer o ASEC Mimosas, da Costa do Marfim, por 2 a 1. “Nós vamos dar de tudo para entregar uma performance forte contra o Arsenal. Nós estamos levando isso muito a sério e vamos buscar fazer história”, diz a capitã Najat Babri, de 37 anos, à FIFA.
O Gotham FC representa a liga mais rica do mundo na modalidade. O clube garante vaga no Mundial ao conquistar a Champions Cup da Concacaf e fecha 2025 com o título da National Women’s Soccer League, a principal liga dos Estados Unidos, pela segunda vez em três anos. Na final, vitória por 1 a 0 sobre o Washington Spirit, com gol de Rose Lavelle em jogada iniciada pela brasileira Bruninha.
A defensora paranaense chega ao Gotham em 2022, após se destacar no Santos, e se firma como presença constante nas convocações da seleção brasileira. Em dezembro, entra no segundo tempo da goleada por 5 a 0 sobre Portugal, em amistoso. Quem também reencontra o Corinthians em Londres é Gabi Portilho, atacante transferida para o Gotham em dezembro de 2024. Pelas Brabas, ela disputa 96 jogos entre 2020 e 2024, marca 22 gols e participa de campanhas de títulos nacionais e continentais. Ela ainda atua em quase todas as partidas da seleção nas Olimpíadas de Paris, com um gol e uma assistência na semifinal contra a Espanha.
O Arsenal fecha o elenco de campeãs continentais com o peso de um gigante europeu e o conforto de atuar em casa. Atual campeão da Champions League feminina após bater o Barcelona por 1 a 0, gol da sueca Stina Blackstenius, o clube chega a Londres sem o título nacional inglês. Fica em segundo lugar na Women’s Super League, que vê o Chelsea dominar a competição desde 2019.
O time londrino não tem brasileiras, mas conta com alguns dos nomes mais populares do futebol feminino europeu. Chloe Kelly, ex-Manchester City, é uma das referências ofensivas. Aos 28 anos, ela marca o gol do título da Euro 2022 contra a Alemanha, primeiro grande troféu do futebol inglês desde 1966, e converte o pênalti decisivo do bicampeonato europeu das Lionesses em 2025, contra a Espanha. Beth Mead, no Arsenal desde 2017, é artilheira da Euro 2022 com seis gols e eleita Jogadora do Torneio. Leah Williamson, Michelle Agyemang, Alessia Russo e Lotte Wubben-Moy também levantam a Euro 2025 e reforçam o peso da camisa inglesa.
A presença do Arsenal atrai ainda mais atenção local. Cinco jogadoras do clube são convocadas para o amistoso contra o Brasil em outubro, em Londres, vencido pela seleção brasileira. O confronto recente ajuda a aquecer o interesse do público inglês pela campanha do Corinthians no Mundial.
O aspecto financeiro também muda o patamar da disputa. A FIFA distribui US$ 3,9 milhões entre as seis equipes participantes. As campeãs recebem US$ 2,3 milhões, cerca de R$ 12,7 milhões, enquanto as vice-campeãs ganham US$ 1 milhão, algo em torno de R$ 5,3 milhões. As equipes que alcançam o mata-mata em Londres levam US$ 200 mil cada, pouco mais de R$ 1 milhão, e as que jogam as fases iniciais ficam com US$ 100 mil, aproximadamente R$ 532 mil. Só por chegar à etapa inglesa, o Corinthians já garante ao menos R$ 1 milhão em premiação.
O que o Mundial muda para o Corinthians e para o futebol feminino
O torneio relâmpago em Londres tem impacto que vai além de um troféu inédito. A presença de campeãs da América do Sul, do Norte, da Europa, da África, além de representantes da Ásia e da Oceania nas fases preliminares, coloca o futebol feminino em um patamar de integração semelhante ao já consolidado no masculino. Para o Corinthians, disputar o título mundial em estádios como o Brentford Community Stadium e o Emirates Stadium significa testar seu domínio regional em um palco global.
O desempenho em Londres pode influenciar diretamente o planejamento financeiro e esportivo do clube nos próximos anos. Uma conquista mundial fortalece o poder de barganha em renovações de contrato, atrai novos patrocinadores e amplia a audiência em plataformas digitais e transmissões internacionais. Para as atletas, a vitrine é ainda mais imediata: atuações de destaque contra Arsenal e Gotham, por exemplo, podem abrir portas em ligas de maior orçamento e repercussão.
No cenário global, o Mundial serve como laboratório para a própria FIFA. O formato curto, com semifinais, disputa de terceiro lugar e final concentradas em quatro jogos, permite testar calendário, audiência e retorno comercial sem sobrecarregar as atletas. Se o torneio em Londres confirmar a expectativa de boa resposta do público, a tendência é que a entidade amplie o número de participantes e a frequência da disputa no próximo ciclo.
Para o futebol feminino brasileiro, a campanha das Brabas funciona como termômetro de competitividade internacional. O clube domina o cenário regional, mas ainda mede forças em jogos pontuais com equipes europeias e norte-americanas. Resultado, desempenho coletivo e performance individual de jogadoras como Lelê, Zanotti, Duda Sampaio, Jhonson e das convocadas recentes podem influenciar futuras listas da seleção e consolidar o Brasil como exportador de talentos também na era de maior profissionalização.
Os próximos dias em Londres definem mais do que o primeiro campeão mundial de clubes feminino. O Mundial testa a capacidade da modalidade de sustentar grandes palcos, prêmios milionários e rivalidades internacionais em calendário fixo. Para o Corinthians, a pergunta é direta: o time que domina o continente consegue confirmar sua força quando o jogo vale, literalmente, o mundo.
