Corinthians barra empréstimo de Alisson após veto financeiro
O Corinthians desiste, na noite desta terça-feira (28), da contratação por empréstimo do volante Alisson, do São Paulo. A negociação trava após veto do presidente Osmar Stábile, pressionado pelo departamento financeiro e por alertas sobre o histórico físico e psicológico do jogador.
Choque entre futebol e finanças expõe limites do clube
O recuo interrompe um acordo considerado praticamente fechado entre os rivais paulistas. Executivos de futebol dos dois lados, Marcelo Paz, pelo São Paulo, e Rui Costa, pelo Corinthians, costuram nos últimos dias os termos do empréstimo. O volante já treina em separado no CT da Barra Funda e ouve da comissão técnica tricolor que está fora dos planos.
Pelo desenho inicial, o Corinthians paga R$ 1 milhão à vista e parcela mais R$ 500 mil no segundo semestre de 2026. O contrato ainda prevê bônus de 250 mil euros, cerca de R$ 1,5 milhão na cotação atual, caso Alisson alcance ao menos 25 partidas na temporada. Em um cenário otimista, com gatilhos acionados e eventual compra ao fim do vínculo, a operação pode superar R$ 20 milhões.
Quando o pacote financeiro chega à mesa de Osmar Stábile, o negócio deixa de ser apenas uma oportunidade esportiva e passa a ser tratado como risco. A equipe responsável pela reestruturação das contas do clube informa que o Corinthians não dispõe hoje de R$ 1 milhão em fluxo de caixa para honrar o pagamento imediato. Internamente, a avaliação é dura: seguir com a transferência seria “temerário” diante da fragilidade do caixa.
Além da matemática, o presidente também escuta ponderações técnicas e médicas. Pessoas próximas apontam dúvidas sobre a capacidade de Alisson de manter sequência de jogos em alto nível, citando histórico de problemas físicos e até psicológicos. O pacote de risco, somado ao custo, pesa mais do que o potencial ganho esportivo neste momento.
São Paulo vê alívio frustrado, Corinthians mantém carência
No Morumbis, o empréstimo representa alívio duplo. Alisson não entra nos planos da comissão técnica e já recebe sinal verde para buscar um novo clube. O técnico Hernán Crespo chega a dizer ao jogador que ele está “fora dos planos” e tem carta branca para fechar com o Corinthians. O acordo também retira da folha salarial um contrato considerado pesado, já que o rival da zona leste se compromete a arcar integralmente com os vencimentos do volante.
Os valores discutidos são celebrados nos corredores tricolores. A possibilidade de chegar a mais de R$ 20 milhões, caso todos os bônus sejam alcançados e a opção de compra seja exercida no fim do ano, é vista como rara para um atleta que não tem espaço no elenco. O cancelamento, porém, congela esse cenário e mantém o impasse sobre o futuro do jogador, que segue treinando separado à espera de definição.
No Parque São Jorge, a decisão expõe de forma clara o primeiro atrito da temporada entre o departamento de futebol e a área financeira. A comissão vê em Alisson uma peça imediata para recompor o meio-campo, setor considerado carente desde o início da janela. O recuo imposto pela presidência aumenta a pressão por alternativas de menor custo e põe em xeque a capacidade do clube de competir por nomes mais disputados no mercado.
A postura de Stábile sinaliza uma mudança de eixo nas decisões. Em vez de priorizar apenas a necessidade esportiva, o clube passa a colocar o fluxo de caixa no centro das conversas sobre reforços. O episódio reforça a leitura de que a temporada será marcada por freios orçamentários, mesmo diante da cobrança da torcida por resultados rápidos.
Negociação pode reabrir, mas expõe novo padrão de risco
A possibilidade de reabrir a negociação não está descartada. Integrantes da cúpula corintiana admitem, em conversas reservadas, que o caso pode voltar à pauta se o São Paulo flexibilizar as condições de pagamento. Redução da entrada à vista, remodelagem dos bônus e prazo maior para quitação são alternativas citadas nos bastidores.
Dirigentes dos dois clubes voltam a discutir o caso nesta quarta-feira (29). Do lado tricolor, a reunião também trata do destino imediato de Alisson: manter o volante afastado, em treinamento separado, ou reintegrá-lo ao elenco enquanto não surge nova proposta. Cada cenário traz um custo político e financeiro, em meio à necessidade de enxugar despesas e evitar desgaste com o grupo de jogadores.
No Corinthians, o episódio funciona como teste para a política de contratações sob a gestão de reestruturação financeira. A ordem é submeter cada operação a avaliação rigorosa de risco esportivo e impacto no fluxo de caixa, antes de qualquer anúncio. O veto a Alisson se torna um caso emblemático: a primeira vez na temporada em que a calculadora fala mais alto do que o desejo do vestiário.
A torcida, que espera reforços para encorpar o meio-campo, observa um clube que pisa no freio justamente no início do ano. A direção sustenta que a cautela agora pode evitar cortes mais drásticos adiante, em caso de nova crise de receitas. O desfecho da novela Alisson indica o tom dos próximos meses: contratações menores, operações mais amarradas e pouco espaço para apostas caras em jogadores cercados de incerteza.
