Ultimas

Conselho da Paz de Trump nasce sob suspeita por presença de regimes autoritários

Um novo Conselho da Paz, apadrinhado por aliados de Donald Trump e lançado em Davos nesta sexta-feira (23.jan.2026), reúne 26 países com a missão de evitar guerras. Metade do grupo, porém, é formada por governos classificados como autoritários, o que já põe em dúvida a credibilidade da iniciativa. O Brasil foi convidado a integrar o conselho, mas ainda não respondeu.

Grupo nasce em Davos sob desconfiança

O anúncio ocorre durante o Fórum Econômico Mundial, na Suíça, tradicional vitrine de agendas globais. O Conselho da Paz se apresenta como um esforço para prevenir conflitos armados e mediar tensões antes que se transformem em guerra declarada. No papel, a proposta ecoa o desgaste de organismos multilaterais, como ONU e OTAN, criticados por respostas lentas a crises recentes.

A composição do grupo, porém, acende o alerta. Entre os 26 membros, 12 são regimes enquadrados por índices internacionais de democracia como autoritários ou híbridos, com controle rígido sobre imprensa, oposição e Judiciário. A presença desses governos em uma instância que se diz dedicada à paz gera questionamentos imediatos sobre imparcialidade, transparência e uso político de eventuais mediações.

Autoritarismo, missão de paz e convite ao Brasil

O Conselho da Paz nasce com a ambição de atuar como canal rápido de negociação em zonas de tensão, antes que disputas locais escalem para conflitos regionais. Integrantes próximos a Trump vendem a ideia de um fórum mais ágil, menos preso a consensos burocráticos e, em tese, mais disposto a pressionar atores envolvidos em guerras em curso. O discurso enfatiza pragmatismo e resultados mensuráveis em prazos curtos, como cessar-fogos temporários e corredores humanitários.

Nos bastidores de Davos, diplomatas ouvidos sob reserva apontam outro interesse: criar uma alternativa política à diplomacia tradicional, hoje dominada por coalizões ocidentais e pelo sistema da ONU. A participação de 12 regimes autoritários seria, nesse cálculo, uma forma de atrair governos desconfortáveis com sanções ou com o discurso de direitos humanos das potências democráticas. “É um tabuleiro novo, em que quem controla a mesa pode definir o jogo”, resume um embaixador europeu, presente ao fórum.

O convite ao Brasil insere o país nesse xadrez. Potência regional, com economia de cerca de US$ 2 trilhões e assento relevante em fóruns como G20 e BRICS, o Brasil é visto como peça chave para conferir legitimidade à iniciativa. Uma eventual adesão seria lida como sinal de alinhamento a uma agenda paralela às estruturas tradicionais, sobretudo em um momento em que o Itamaraty tenta reposicionar o país como mediador em crises internacionais.

Dilemas de legitimidade e impacto prático

A alta presença de regimes autoritários no Conselho da Paz fragiliza, desde o primeiro dia, o discurso de neutralidade. Governos com histórico de censura, prisões políticas e intervenção militar em países vizinhos tendem a enfrentar resistência quando se apresentam como árbitros de disputas. Organizações de direitos humanos já se preparam para contestar a legitimidade de decisões futuras do conselho, sobretudo em temas que envolvam minorias étnicas, refugiados e perseguição política.

Para especialistas em relações internacionais, o desenho atual abre espaço para conflitos de interesse diretos. Um país acusado de violações graves pode, na prática, influenciar a agenda de casos analisados pelo conselho, atrasar condenações morais ou esvaziar pressão diplomática. Há temor de que o grupo acabe servindo como escudo político para aliados, mais do que como ferramenta de prevenção de guerras. “Um órgão de paz que abriga quase metade de regimes autoritários precisa provar, e rápido, que não será apenas palco de cinismo diplomático”, avalia um professor brasileiro ouvido pela reportagem.

No plano prático, a atuação do conselho pode interferir em negociações sensíveis em curso, sobretudo em regiões como Leste Europeu, Oriente Médio e África. Se conseguir se impor como interlocutor crível, poderá influenciar decisões de cessar-fogo, missões de observação e até reconstruções pós-conflito, com contratos bilionários em infraestrutura e energia. Se fracassar, tende a se somar à lista de fóruns que produzem comunicados solenes, mas pouco efeito concreto em campo de batalha.

O papel do Brasil e o teste dos próximos meses

A decisão brasileira, ainda sem prazo anunciado, será observada de perto em capitais ocidentais e emergentes. Uma eventual adesão pode ser interpretada como aposta em múltiplos tabuleiros, em linha com a tradição de autonomia da política externa. Também pode ser vista como risco de associação a um foro que, na origem, já provoca desconfiança pelo peso de regimes autoritários em sua estrutura.

Se optar por ficar fora, o Brasil mantém coerência com o discurso de defesa de instâncias multilaterais clássicas, mas abre mão de influenciar desde dentro um espaço que pode ganhar relevância em futuras negociações. Se entrar, terá o desafio de explicar à opinião pública como pretende defender transparência, democracia e direitos humanos em um conselho em que 12 dos 26 países não são considerados plenamente democráticos. As próximas rodadas de crises internacionais, inevitáveis em um cenário marcado por disputas territoriais e corrida armamentista, dirão se o Conselho da Paz será um ator real na prevenção de guerras ou apenas mais um palco de disputa de narrativas globais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *