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Conflito no Líbano deixa 394 mortos em uma semana após ataques israelenses

O conflito entre Israel e Hezbollah deixa 394 mortos no Líbano em sete dias até 8 de março de 2026, segundo o governo libanês. Entre as vítimas, 83 são crianças, enquanto ataques se espalham do sul do país a Beirute e ampliam o risco de descontrole regional.

Escalada após ataque ao Irã atinge civis e amplia fronteiras do conflito

Os números são apresentados pelo ministro da Saúde do Líbano, Rakan Naseredin, em meio a um cenário de destruição em cidades do sul e na capital Beirute. Hospitais lidam com uma sucessão de feridos e corpos, enquanto milhares deixam suas casas às pressas, carregando o que conseguem em carros, caminhonetes e até a pé.

A nova onda de violência começa após o ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que muda o patamar da crise no Oriente Médio. Com o bombardeio ao território iraniano, o exército israelense amplia a ofensiva contra o Hezbollah, direcionando ataques ao sul do Líbano, à região metropolitana de Beirute e a instalações de armazenamento de petróleo em Teerã, capital iraniana.

Bombardeios e drones atingem áreas consideradas estratégicas, mas também bairros residenciais densamente povoados. Em poucos dias, ruas antes movimentadas se transformam em corredores de escombros, com janelas estilhaçadas, fachadas destruídas e redes de energia interrompidas. A contagem oficial de mortos, 394 pessoas em uma semana, tende a subir à medida que equipes de resgate alcançam prédios desabados e zonas até agora inacessíveis.

O sul do Líbano volta a ser o principal campo de batalha entre Israel e Hezbollah, reeditando um confronto que marca a história recente do país desde a guerra de 2006. Desta vez, porém, a escalada envolve diretamente o Irã e arrasta outros atores regionais, o que aumenta o temor de uma guerra mais ampla e prolongada. Autoridades libanesas descrevem um cenário de “pressão máxima” sobre comunidades que já enfrentam crise econômica e colapso institucional há anos.

Em Beirute, o impacto é duplo. A capital sofre ataques diretos e precisa lidar com a chegada de deslocados internos vindos do sul. Escolas, centros comunitários e até estacionamentos se transformam em abrigos improvisados. Agências humanitárias estimam centenas de milhares de pessoas fora de casa, embora os números exatos ainda sejam incertos em meio ao caos.

Tensão diplomática com Chipre e pressão internacional sobre o Líbano

O conflito ultrapassa as fronteiras libanesas e gera episódios diplomáticos delicados. O ministro das Relações Exteriores do Líbano, Youssef Rajji, condena um ataque de drone que atinge uma área britânica na costa sul de Chipre, aparentemente lançado a partir do território libanês. O episódio envolve uma base de apoio às operações ocidentais na região e eleva a desconfiança sobre o papel de grupos armados no país.

Rajji, conhecido opositor do Hezbollah, tenta marcar distância entre o Estado libanês e milícias que atuam à margem das instituições formais. “Eu pedi aos nossos amigos cipriotas que não confundam o Estado libanês com aqueles que agem fora de sua autoridade e estrutura legal”, afirma o ministro, em referência à decisão recente do governo que ordena às agências de segurança que reprimam grupos não estatais responsáveis por ataques.

A mensagem busca conter o desgaste internacional e proteger o frágil espaço diplomático ainda disponível ao Líbano. O país enfrenta pressão de aliados ocidentais, receosos de que o território libanês sirva de plataforma para ataques contra bases estrangeiras e rotas estratégicas do Mediterrâneo oriental. Ao mesmo tempo, a liderança política local precisa lidar com a influência militar e política do Hezbollah, que se apresenta como resistência armada contra Israel.

Em meio a esse jogo de forças, o presidente francês Emmanuel Macron prepara uma visita a Chipre na segunda-feira, 9 de março. A viagem, anunciada antes da escalada mais recente, ganha novo peso com o ataque de drone e o aumento das mortes no Líbano. A França tenta assumir o papel de mediadora, apoiando resoluções da ONU e pressionando por um cessar-fogo que reduza a tensão na fronteira sul libanesa.

Diplomatas em Beirute e em capitais europeias descrevem o esforço francês como o único movimento articulado de alta visibilidade para tentar conter a escalada no curto prazo. Macron aposta no histórico de influência de Paris no Líbano, legado do período do mandato francês e reforçado após a explosão no porto de Beirute em 2020, quando o presidente visita a cidade e promete apoio à reconstrução.

Crise humanitária se aprofunda e risco regional cresce

Os ataques dos últimos sete dias não se traduzem apenas em números de mortos. A infraestrutura civil libanesa, já fragilizada por anos de crise econômica, sofre novos golpes. Estações elétricas, estradas e depósitos de combustível são danificados, o que compromete o abastecimento de energia e a distribuição de mantimentos em várias regiões. Filas por pão, remédios e combustível voltam a se alongar em bairros de Beirute e de cidades do sul.

Centenas de milhares de libaneses vivem agora como deslocados internos, divididos entre a expectativa de um cessar-fogo e o medo de que a guerra se estenda por meses. Famílias se separam na pressa da fuga. Escolas interrompem as aulas. Pequenos comércios fecham as portas sem prazo para reabrir. A economia, que já encolhe há mais de cinco anos, enfrenta novo baque com a paralisação de atividades produtivas e o aumento da incerteza.

No plano militar, analistas veem risco de que a escalada no Líbano altere o equilíbrio de forças em todo o Oriente Médio. O envolvimento direto do Irã, ainda que por meio de aliados e instalações atingidas, e a participação dos Estados Unidos no ataque inicial ao território iraniano criam uma teia de interesses cruzados. Cada novo bombardeio aumenta o custo político de uma retirada rápida e torna mais difícil a construção de um acordo que satisfaça todas as partes.

O Hezbollah tenta demonstrar capacidade de resposta contra Israel, ao mesmo tempo em que enfrenta pressão interna de setores libaneses que temem uma guerra devastadora. Israel, por sua vez, sustenta que a ofensiva é necessária para conter ameaças na fronteira norte e impedir que o grupo libanês amplie sua capacidade de lançamento de foguetes e drones. Entre essas estratégias opostas, civis libaneses pagam o preço imediato da destruição.

Macron chega a Chipre com a intenção declarada de construir uma ponte de diálogo que envolva Líbano, Israel e Irã, ainda que por intermediários. A tarefa parece distante de uma solução rápida, mas ganha urgência diária, à medida que novas mortes são registradas. O futuro do conflito no Líbano dependerá da habilidade das potências regionais e globais em conter seus próprios aliados armados. Sem um freio externo claro, a guerra corre o risco de deixar de ser apenas um capítulo da crise no Oriente Médio e se tornar seu novo centro.

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