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Comitê do Nobel rejeita tentativa de transferir prêmio da Paz a Trump

O Comitê do Nobel da Paz rejeita, em 18 de janeiro de 2026, a tentativa de vincular o Nobel da Paz concedido à venezuelana María Corina ao ex-presidente dos EUA Donald Trump. Em nota oficial divulgada em Oslo, o colegiado afirma que o prêmio é “indivisível e intransferível” e permanece ligado exclusivamente à laureada.

Nobel reage e tenta encerrar controvérsia

A declaração, publicada na Noruega e distribuída a veículos internacionais, procura encerrar uma disputa que cresce há semanas em debates políticos e nas redes. Ao reafirmar que o Nobel da Paz não pode ser cedido, compartilhado ou reatribuído, o comitê busca proteger a integridade de um prêmio com 125 anos de história e mais de 100 laureados individuais.

Em linguagem incomum para um comunicado da instituição, o texto frisa que “nenhum arranjo privado, acordo político ou manifestação pública” tem poder para alterar a decisão tomada quando o prêmio foi anunciado. “O Nobel da Paz de 2025 permanece, em caráter exclusivo, com María Corina”, registra o documento, ao citar a líder opositora venezuelana, símbolo da resistência ao chavismo e a sucessivas denúncias de violações de direitos humanos no país.

Prêmio é declarado intransferível e com impacto político

O comitê decide se manifestar após a circulação de declarações de aliados de Donald Trump sugerindo que o reconhecimento internacional dado a María Corina poderia ser “redirecionado” ao republicano. Em fóruns conservadores nos Estados Unidos, a tese ganha tração ao longo de dezembro e de janeiro, com a ideia de que Trump teria “méritos maiores” no cenário global. A iniciativa, sem base jurídica ou estatutária, irrita membros da comunidade acadêmica norueguesa e ex-integrantes do próprio comitê.

O regulamento do Nobel é claro desde o início do século 20: o prêmio é concedido a uma pessoa ou instituição específica e não admite transferência posterior, mesmo em caso de morte, prisão ou exílio do laureado. Desde 1901, quando o francês Frédéric Passy recebe o primeiro Nobel da Paz, nenhuma exceção é registrada. “A credibilidade do Nobel depende da estabilidade das decisões. Se um prêmio pode mudar de mãos, perde-se o valor simbólico e moral que o sustenta”, diz, em avaliação enviada à imprensa norueguesa, um pesquisador da Universidade de Oslo que acompanha a história da premiação.

María Corina, Trump e a disputa pelo capital simbólico

María Corina recebe o Nobel da Paz em meio ao agravamento da crise venezuelana, após mais de 10 anos de recessão, hiperinflação anual que supera 1.000% em alguns períodos e sucessivos relatórios da ONU sobre tortura de opositores. O prêmio reconhece sua atuação em defesa de eleições livres e de transição pacífica de poder em Caracas. Para setores da oposição latino-americana, a premiação funciona como escudo político e amplia o custo internacional de novas investidas autoritárias.

No campo trumpista, o Nobel da Paz vira mais um instrumento de disputa simbólica. Aliados do republicano retomam promessas de campanha feitas em 2018 e 2020, quando Trump afirma merecer o prêmio por conversas com a Coreia do Norte e pelo chamado “Acordo de Abraão”, que aproxima Israel de países árabes. A tentativa de colar o nome de Trump ao Nobel concedido à venezuelana surge nesse ambiente, como forma de reforçar a narrativa de que o ex-presidente é alvo de perseguição internacional e de “dois pesos e duas medidas”.

Integridade do Nobel e efeitos diplomáticos

O anúncio do comitê, nesta segunda quinzena de janeiro, tem efeito imediato em duas frentes. Internamente, sinaliza a governos, partidos e grupos de pressão que decisões do Nobel não se submetem a negociações políticas posteriores. Externamente, envia recado a outros organismos de premiação, fundações privadas e universidades que distribuem honrarias de alcance global: a regra é que títulos e prêmios não são moedas de troca.

O comitê lembra, ainda que sem citar nomes, que já enfrentou pressões intensas em casos anteriores, como os de Nelson Mandela, Yasser Arafat, Malala Yousafzai e Liu Xiaobo. Em 2010, o ativista chinês recebe o Nobel da Paz enquanto cumpre pena de 11 anos de prisão, e Pequim tenta esvaziar a cerimônia em Oslo. Mesmo sob ameaças comerciais, o colegiado mantém o prêmio com Liu até sua morte, em 2017. O histórico reforça a mensagem atual: o valor do Nobel não está no metal da medalha de cerca de 175 gramas de ouro, avaliada hoje em algo próximo de US$ 10 mil, mas no compromisso público que ele representa.

O que muda agora e o que ainda está em aberto

A posição oficial reduz o espaço para que governos ou campanhas políticas usem, no futuro, a hipótese de “transferência” de prêmios como argumento de disputa interna. A partir de agora, qualquer tentativa semelhante tende a ser comparada ao episódio envolvendo María Corina e Trump, com custo reputacional imediato. Na prática, isso protege não apenas a oposição venezuelana, mas outros ativistas que dependem de selos internacionais de legitimidade para sobreviver em ambientes hostis.

O comunicado, porém, não encerra o uso político da marca Nobel. A premiação continua a ser citada em discursos eleitorais, na busca de doações e na diplomacia informal entre governos. Em ano de eleições cruciais em diversos países, a controvérsia abre uma questão que o comitê não responde totalmente: até que ponto um prêmio criado em 1895 consegue manter, em 2026, o mesmo peso moral em um ambiente digital saturado por disputas de narrativa?

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