Ciencia e Tecnologia

Cometa interestelar 3I/ATLAS revela moléculas orgânicas no espaço

Um cometa que vem de fora do Sistema Solar revela moléculas orgânicas e um brilho explosivo após passar pelo Sol. A descoberta, detectada em dezembro de 2025 e divulgada nesta quinta-feira (5), intriga astrônomos e reacende debates sobre a origem da matéria orgânica no universo.

Visitante interestelar carrega química antiga

O protagonista desse novo capítulo da astronomia é o cometa 3I/ATLAS, terceiro objeto interestelar já observado por humanos. Ele cruza o Sistema Solar em trajetória de fuga, a cerca de 670 milhões de quilômetros do Sol, dentro da órbita de Júpiter, próximo à constelação de Sagitário. Não orbita nossa estrela. Passa, deixa rastros de gás e poeira e segue em frente, puxado por nenhuma gravidade em definitivo.

Pesquisadores do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, em Maryland, e da Rede Internacional de Alerta de Asteroides (IAWN) lideram a campanha de observação. Eles usam uma combinação de telescópios em terra, como o Atlas, instalado em Río Hurtado, no Chile, e instrumentos espaciais de ponta, em especial o Telescópio Espacial James Webb (JWST). Em dezembro de 2025, a equipe registra sinais claros de moléculas orgânicas na coma do cometa, a nuvem de gás e poeira que envolve seu núcleo gelado.

Essas moléculas não significam vida, mas são matéria-prima para ela. Na Terra, compostos orgânicos semelhantes formam a base de processos biológicos, embora também possam surgir por vias puramente químicas, sem qualquer organismo envolvido. Encontrá-los em um corpo que se formou em outro sistema planetário amplia a evidência de que os blocos fundamentais da vida são comuns no cosmos, e não uma peculiaridade da vizinhança terrestre.

O 3I/ATLAS parece carregar uma assinatura química rara. Observações anteriores feitas com o James Webb já haviam mostrado uma coma dominada por dióxido de carbono (CO₂), algo inédito em cometas conhecidos. Os novos dados sugerem ainda a presença de material rico em carbono que ficou aprisionado durante bilhões de anos no interior gelado do núcleo e agora começa a emergir.

Brilho explosivo revela interior do cometa

O comportamento recente do 3I/ATLAS reforça a sensação de que se trata de um visitante extremo. Em torno de dois meses depois de atingir o ponto mais próximo do Sol, o cometa entra em uma espécie de erupção silenciosa no espaço. Seu brilho aumenta de forma drástica, visível mesmo em registros de longa distância.

“O cometa 3I/ATLAS entrou em erupção no espaço em dezembro de 2025, após sua passagem próxima pelo Sol, o que causou um aumento significativo em seu brilho. Até mesmo o gelo de água estava sublimando rapidamente em gás no espaço interplanetário”, afirma Carey Lisse, líder do estudo e pesquisador do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, em Laurel, Maryland.

A explicação passa pela física do calor em um corpo gelado e poroso. Os cometas são compostos por cerca de um terço de gelo de água, misturado a grãos de poeira e outros gelos, como dióxido de carbono e monóxido de carbono. Quando se aproximam do Sol, recebem uma dose intensa de energia, mas o aquecimento não é instantâneo. O calor leva tempo para atravessar as camadas externas. Profundidades que estavam protegidas por eras passam, de repente, a ficar ativas.

No caso do 3I/ATLAS, esse atraso se torna a chave. O pico de sublimação — quando o gelo passa diretamente do estado sólido para o gasoso — ocorre bem depois da máxima aproximação do cometa ao Sol. O resultado é uma liberação tardia e violenta de água, dióxido de carbono e monóxido de carbono, que arrasta junto partículas de poeira e orgânicos presos no interior. É esse jato de material que faz o brilho disparar.

Para os astrônomos, o fenômeno funciona como uma tomografia natural do cometa. A erupção revela camadas internas que jamais seriam observadas de outra forma. Ao medir quais moléculas emergem, em que quantidade e em que momento, os pesquisadores constroem um retrato indireto da estrutura interna do núcleo e de sua história térmica. Cada pico de brilho, em diferentes datas, equivale a uma nova fatia exposta.

Os dados indicam que o 3I/ATLAS viaja pelo espaço a cerca de 221 mil quilômetros por hora, o equivalente a 61 quilômetros por segundo. A velocidade é alta demais para que o Sol consiga capturá-lo em uma órbita fechada. Sua trajetória hiperbólica confirma que ele vem de outro sistema estelar e não volta mais.

Cometa mais velho que o Sistema Solar

Modelos computacionais desenvolvidos pela equipe sugerem que o 3I/ATLAS pode ter mais de 7 bilhões de anos, acima da idade estimada do Sistema Solar, de 4,6 bilhões de anos. Se a conta estiver correta, o cometa nasce em um ambiente cósmico anterior à formação do Sol. Ele se forma em outro sistema planetário, é ejetado por interações gravitacionais e vaga pelo espaço interestelar por milhões, talvez bilhões de anos, até cruzar nosso caminho.

A Rede Internacional de Alerta de Asteroides acompanha sua trajetória e avalia riscos, mas a preocupação, neste caso, é mínima. O cometa passa longe da Terra e não representa ameaça de impacto. O interesse é científico. Ao contrário de rochas muito processadas, como planetas e luas, cometas preservam em seu interior uma espécie de amostra congelada da infância dos sistemas planetários.

Ao confirmar a presença de moléculas orgânicas em um objeto interestelar, o estudo reforça uma hipótese antiga na astrobiologia: a de que cometas e asteroides podem ter ajudado a semear mundos jovens com moléculas complexas. O cenário em que chuvas de corpos gelados entregam material orgânico a planetas recém-formados ganha novo fôlego. Não prova que a vida surja dessa forma, mas amplia o repertório de ambientes onde a química necessária pode florescer.

Os resultados também alimentam debates sobre a diversidade de sistemas planetários na Via Láctea. Se um cometa com essa composição se forma em outro astro, sistemas distantes podem abrigar reservas de gelo e carbono semelhantes às que existiram na Terra primitiva. Nesse caso, os processos que levaram à vida aqui podem não ser tão excepcionais quanto se imaginava.

Novas missões e uma rede de alerta mais ambiciosa

A descoberta chega em um momento em que agências espaciais discutem missões dedicadas a objetos interestelares. Sondas capazes de interceptar cometas como o 3I/ATLAS, coletar amostras e analisá-las in loco deixam de ser ficção. Os dados atuais, obtidos a distância, funcionam como um roteiro preliminar para essas futuras viagens.

Para a IAWN, o episódio reforça outro ponto: monitorar visitantes de fora do Sistema Solar não é só questão de defesa planetária. É também uma oportunidade científica rara, que pode não se repetir por décadas. Quanto mais cedo esses corpos forem detectados, maior a chance de montar campanhas coordenadas, com telescópios em solo e no espaço, cobrindo todas as fases da passagem.

A comunidade científica reage com entusiasmo, mas também com cautela. Confirmar a natureza exata das moléculas orgânicas exigirá análises mais detalhadas e novas rodadas de observação. Telescópios como o James Webb e futuros observatórios de grande porte devem acompanhar o 3I/ATLAS até o limite de sua visibilidade.

Quando o cometa desaparecer de vista, a história que ele deixa para trás continua em modelos de computador, artigos e propostas de missão. A pergunta que ecoa é simples e profunda: quantos outros viajantes antigos, carregando química capaz de dar origem à vida, cruzam silenciosamente a escuridão entre as estrelas?

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