Cometa interestelar 3I/ATLAS intriga cientistas com brilho tardio e gelo antigo
O cometa interestelar 3I/ATLAS, detectado em 1º de julho de 2025 no Chile, surpreende astrônomos ao explodir em brilho meses após passar pelo Sol. A erupção libera grandes quantidades de gelo profundo e moléculas orgânicas, incluindo metanol, cianeto e metano, e revela uma composição dominada por dióxido de carbono, nunca vista em outro cometa.
Visitante interestelar muda de brilho e revela interior escondido
O 3I/ATLAS é o terceiro objeto interestelar já identificado no Sistema Solar e se move a 221 mil quilômetros por hora, rápido demais para ficar preso à gravidade do Sol. A trajetória hiperbólica indica que o cometa vem de outro sistema planetário, onde se forma há mais de sete bilhões de anos, antes mesmo do nascimento do Sistema Solar há 4,6 bilhões de anos.
As primeiras imagens surgem com o telescópio Atlas, instalado em Río Hurtado, no Chile, próximo à constelação de Sagitário, região central da Via Láctea. Em seguida, o Telescópio Espacial James Webb entra em cena e detalha a composição química do visitante. As observações se concentram entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, quando o cometa cruza o interior do Sistema Solar, a cerca de 670 milhões de quilômetros do Sol, dentro da órbita de Júpiter.
Os dados chamam a atenção por um comportamento incomum. Dois meses depois de passar pelo ponto mais próximo do Sol, o cometa dispara em brilho em vez de perder atividade. A cabeleira, nuvem de gás e poeira que envolve o núcleo gelado, se torna mais densa e compacta, sinal de que algo novo começa a escapar do interior.
Carey Lisse, líder do estudo e pesquisador do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, descreve o fenômeno como uma espécie de erupção cósmica. “O cometa 3I/ATLAS entra em erupção no espaço em dezembro de 2025, após sua passagem próxima pelo Sol, o que causa um aumento significativo em seu brilho. Até mesmo o gelo de água está sublimando rapidamente em gás no espaço interplanetário”, afirma.
Segundo Lisse, os cometas costumam ter cerca de um terço de sua massa composta por gelo de água, misturado com outros gelos e poeira. No caso do 3I/ATLAS, o aquecimento solar demora a atravessar as camadas externas e só atinge os reservatórios mais profundos semanas depois do periélio, o ponto de maior aproximação do Sol. Quando isso acontece, o núcleo começa a liberar uma nova leva de material rico em carbono, preso por bilhões de anos nas entranhas do cometa.
Moléculas orgânicas, gelo antigo e pistas sobre a origem da vida
As medições do James Webb mostram que a coma do 3I/ATLAS é dominada por dióxido de carbono, uma concentração inédita em cometas. Gases como água, CO₂ e monóxido de carbono escapam em grandes quantidades, acompanhados por moléculas orgânicas como metanol, cianeto e metano. Na Terra, substâncias desse tipo são a base dos processos biológicos, embora também surjam em reações puramente químicas, sem participação de organismos vivos.
Para a astrobiologia, esse tipo de detecção tem impacto direto. Cometas são considerados possíveis mensageiros de blocos químicos que, em algum momento remoto, podem ter ajudado a “temperar” superfícies planetárias com compostos orgânicos. Ver um cometa interestelar tão rico em carbono sugere que esse mecanismo não é exclusivo do Sistema Solar e pode se repetir em outras regiões da galáxia.
A Rede Internacional de Alerta de Asteroides (IAWN) aponta, com base em simulações, que o 3I/ATLAS se forma em outro sistema planetário e é ejetado para o espaço interestelar. O objeto vaga sozinho por milhões de anos, talvez bilhões, até cruzar o caminho do Sol. A idade estimada, superior a sete bilhões de anos, faz do cometa um dos corpos mais antigos já observados e um arquivo vivo de uma época anterior à formação da Terra.
Essa antiguidade extrema tem consequências para o estudo da formação de planetas. Os primeiros sistemas estelares da Via Láctea podem ter produzido cometas com assinaturas químicas muito diferentes das que se veem aqui. A predominância de dióxido de carbono na coma do 3I/ATLAS sugere uma história térmica e química particular, possivelmente ligada à distância em que o cometa se forma de sua estrela original e ao tipo de disco de gás que o cerca em sua juventude.
O brilho tardio também obriga astrônomos a revisar modelos de atividade cometária. Até agora, a maioria dos estudos se concentra nas explosões de gás próximas ao periélio. O comportamento do 3I/ATLAS indica que o pico de sublimação pode vir bem depois, à medida que o calor se espalha lentamente pelo interior congelado.
Novos modelos, futuras missões e uma pergunta em aberto
O desempenho do 3I/ATLAS já influencia o planejamento de futuras campanhas de observação. Cometas interestelares passam rápido e não voltam, o que pressiona equipes a montar estratégias de resposta em questão de meses. A experiência com este objeto reforça a necessidade de telescópios em diferentes comprimentos de onda, do infravermelho ao óptico, para captar tanto o brilho inicial quanto erupções tardias.
Missões espaciais dedicadas a interceptar visitantes interestelares ganham prioridade em agências espaciais e grupos acadêmicos. A possibilidade de analisar, de perto, gelo mais antigo que o próprio Sistema Solar interessa não só a astrônomos, mas também a químicos, geólogos planetários e pesquisadores da origem da vida. Cada nova detecção de moléculas orgânicas em corpos distantes alimenta hipóteses sobre a disseminação desses ingredientes pela galáxia.
O 3I/ATLAS também pressiona a tecnologia de alerta precoce. Detectado a 670 milhões de quilômetros do Sol, com acompanhamento contínuo a partir de dezembro de 2025, o cometa mostra como redes de telescópios terrestres e espaciais podem trabalhar em conjunto. A combinação de Atlas, Gemini, James Webb e centros de análise como a IAWN antecipa o padrão de cooperação que tende a se tornar rotina nas próximas décadas.
Mesmo com a bateria atual de dados, uma questão permanece em aberto: até que ponto esse cometa é uma exceção ou um retrato fiel de cometas formados fora do Sistema Solar? A resposta depende do próximo visitante interestelar que cruzar o nosso caminho e de quão rápido estaremos prontos para observá-lo desde o primeiro brilho até a última erupção de seu gelo ancestral.
