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Colômbia autoriza candidatura de plataforma de IA ao Congresso

A Colômbia autoriza, em 20 de fevereiro de 2026, a candidatura da plataforma comunitária Gaitana, representada por uma inteligência artificial, às eleições legislativas. O projeto, apoiado por mais de 10 mil eleitores, promete levar diretamente ao Congresso demandas de comunidades indígenas historicamente ignoradas.

Uma candidata que não ocupa cadeira, mas fala por muitos

Gaitana nasce como uma experiência política radical num país que ainda tenta fechar as feridas do conflito armado. A plataforma se apresenta como uma inteligência artificial treinada para ouvir comunidades indígenas e traduzir essas prioridades em propostas legislativas, sempre mediadas por um representante humano no plenário. Na prática, quem aparece na urna é o nome desse representante, mas a campanha e o programa são apresentados como fruto de uma “candidatura de IA”.

A justiça eleitoral colombiana analisa o caso durante meses antes de autorizar a inscrição. O registro formal ocorre para as eleições legislativas nacionais de 20 de fevereiro de 2026, com a condição de que o mandato, se conquistado, continue a ser exercido por uma pessoa física, responsável legal e politicamente por cada voto no Congresso. A inovação está no modo como essa pessoa promete decidir: guiada por um sistema de inteligência artificial alimentado por consultas públicas digitais e presenciais.

O criador da plataforma, que atua como rosto e voz do projeto no Parlamento, defende que o modelo corrige uma distorção da política tradicional. “Gaitana não substitui ninguém, apenas organiza o que as pessoas já dizem e transforma em decisões concretas”, afirma em ato de campanha. Ele repete a ideia em entrevistas: a tecnologia seria apenas o instrumento para consolidar a vontade coletiva, sobretudo em territórios onde o Estado chega pouco e tarde.

Inovação tecnológica entra no coração da democracia

A autorização da candidatura marca um ponto de inflexão no debate internacional sobre inteligência artificial e democracia. Até aqui, experiências parecidas surgem em escala municipal, em iniciativas de orçamento participativo e consultas digitais. A Colômbia leva o experimento ao centro do poder legislativo, abrindo espaço para que algoritmos entrem na rotina de comissões, votações e articulações políticas em nível nacional.

O projeto se ancora em duas promessas: ampliar a participação direta de comunidades indígenas e tornar o processo decisório mais transparente. A plataforma afirma que qualquer posição levada ao Congresso passa por um ciclo aberto de coleta de opiniões, com prazos definidos, registro público das contribuições e justificativas claras para a decisão final. A equipe calcula que, com a infraestrutura atual, consegue processar em poucos minutos milhares de respostas, algo impensável em consultas tradicionais em papel.

Pesquisadores de governança digital veem um laboratório político em tempo real. “É um experimento de alto risco e alto impacto”, avalia um especialista ouvido pela reportagem. Para ele, a candidatura de Gaitana consolida um novo modelo de representação, em que dados e algoritmos ocupam o espaço antes restrito a partidos, caciques regionais e líderes intermediários. O movimento dialoga com uma tendência global de plataformas que tentam reduzir a distância entre eleitor e voto parlamentar, inclusive na Europa e em cidades latino-americanas.

O foco nas comunidades indígenas dá ao caso uma dimensão adicional. Povos originários na Colômbia costumam ter participação mínima no Congresso, apesar de representarem parcelas relevantes da população em regiões rurais e amazônicas. A campanha de Gaitana parte desse déficit histórico para defender que a tecnologia pode funcionar como atalho institucional, desde que construída com lideranças locais e em línguas nativas. A meta anunciada é integrar ao menos dezenas de comunidades no primeiro ano de mandato, com ciclos regulares de consulta a cada votação relevante.

Entusiasmo, desconfiança e a disputa por limites

A mesma decisão que entusiasma defensores da inovação acende alertas em juristas, acadêmicos e políticos tradicionais. A crítica central aponta o risco de personalizar em uma inteligência artificial decisões que continuam a ser humanas, tomadas em ambientes marcados por pressão partidária, lobby e negociações de bastidor. “Nenhuma máquina pode assumir responsabilidade penal ou ética por um voto”, resume um constitucionalista colombiano. Ele lembra que o mandato pertence ao indivíduo eleito, não à tecnologia que o assessora.

As dúvidas se desdobram em questões práticas. Quem programa Gaitana? Quem escolhe os dados que alimentam o sistema? Quem audita o código e verifica se a plataforma realmente reflete o que a base social deseja? As organizações envolvidas prometem divulgar metodologias, abrir parte do código e permitir acompanhamento independente, mas especialistas alertam que a opacidade costuma crescer à medida que os modelos ficam mais complexos. O temor é ver surgir um novo tipo de caixa-preta, agora revestida de legitimidade eleitoral.

Setores empresariais de tecnologia acompanham a experiência com interesse direto. A entrada oficial de uma plataforma de IA no jogo eleitoral abre espaço para novos mercados de consultoria política automatizada, análise de opinião em tempo real e ferramentas de apoio legislativo baseadas em dados. Startups da região já anunciam serviços inspirados em Gaitana, de assistentes para redação de projetos de lei a plataformas de monitoramento de redes em comunidades específicas. O risco, apontam críticos, é a captura desse ecossistema por grupos econômicos com mais recursos, ampliando desigualdades políticas.

Entre lideranças indígenas, o debate não é unânime. Parte apoia a iniciativa e vê na IA uma aliada para enfrentar décadas de sub-representação e promessas não cumpridas. Outra parte teme que a tecnologia seja mais um filtro entre a comunidade e o poder, agora comandado por técnicos, programadores e mediadores urbanos. A disputa interna deve se intensificar se a plataforma conquistar uma cadeira e passar a negociar diretamente em temas como demarcação de terras, proteção ambiental e políticas sociais.

O que a experiência colombiana antecipa para outros países

A autorização a Gaitana tende a repercutir além da fronteira colombiana. Parlamentos e tribunais eleitorais de outros países latino-americanos já acompanham a experiência para decidir se abrem ou não espaço semelhante em seus sistemas. O tema se cruza com agendas em andamento sobre direitos digitais, proteção de dados e regulamentação da inteligência artificial, discutidas em fóruns regionais e na ONU.

Os próximos meses indicam se a candidatura de IA se consolida como marco duradouro ou como episódio isolado. Caso Gaitana seja eleita, o Congresso colombiano se torna um campo de teste para verificar se o modelo consegue sobreviver às pressões da política real, com negociações, alianças e crises sucessivas. Mesmo sem vitória, a presença da plataforma na disputa já força partidos tradicionais a responder sobre transparência, participação social e uso de dados em campanha.

Legisladores discutem a necessidade de normas específicas para limitar o papel de inteligências artificiais em campanhas e mandatos. Questões como responsabilidade civil, propaganda segmentada por algoritmos e uso de dados sensíveis entram no radar. Não está claro se a Colômbia adotará uma lei ampla de IA ou optará por ajustes pontuais no código eleitoral e nas regras parlamentares, mas o consenso entre especialistas é que a era das candidaturas tecnopolíticas não recua.

O caso Gaitana deixa uma pergunta em aberto que atravessa governos e fronteiras: até onde os eleitores estão dispostos a delegar suas escolhas políticas a sistemas guiados por dados e algoritmos? A resposta não sai de um software, mas das urnas de 2026 e das disputas que virão depois, quando a democracia tiver de decidir se a inteligência artificial é apenas uma ferramenta ou um novo ator no jogo do poder.

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