Cleitinho se junta a Nikolas em marcha a Brasília contra decisões do STF
O senador Cleitinho (Republicanos-MG) decide se juntar, a partir de 20 de janeiro de 2026, à caminhada liderada por Nikolas Ferreira (PL-MG) rumo a Brasília. A marcha protesta contra decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e o tratamento dado aos réus dos atos de 8 de janeiro.
Marcha ganha peso político e mira STF
A adesão de um senador em mandato nacionaliza de vez a caminhada que parte do interior de Minas Gerais em direção à capital federal. O grupo pretende chegar a Brasília no fim de janeiro, em um percurso de vários dias de estrada, com paradas planejadas em cidades mineiras e no interior de Goiás até o Distrito Federal.
Cleitinho anuncia a participação em vídeo e em post no Instagram, em que escreve: “Acorda Brasil! Estou indo fortalecer a caminhada de Nikolas Ferreira, a favor de justiça e liberdade, e deixando um recado aos políticos de esquerda”. O tom reforça o caráter de enfrentamento ao STF e ao governo federal, em meio à escalada de tensões em torno das decisões ligadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
O senador afirma que enxerga um “cenário de falta de justiça” no país e concentra as críticas no ministro Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos sobre ataques à democracia. Ele compara penas aplicadas a condenados pelos atos de 8 de janeiro com punições em outros casos criminais, e aponta o que considera desproporção. “O Brasil está perdendo a mão na hora de punir”, diz em uma das gravações.
No centro do discurso está também a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), alvo de ações por tentativa de golpe de Estado. Cleitinho cita ainda o assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol), em 2018, para sustentar a tese de tratamentos distintos por parte do sistema de Justiça, embora não apresente dados concretos sobre esses contrastes.
A caminhada nasce de uma “carta ao povo do Brasil” divulgada por Nikolas nas redes sociais, em que o deputado afirma que o ato não é motivado por “vaidade” nem por “espetáculo”. Ele fala em “perseguição sistemática a opositores” e menciona a situação de aliados investigados ou condenados, além de pedir apoio popular à derrubada do veto presidencial ao trecho que estabelecia critérios de dosimetria das penas aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro.
Disputa de narrativa sobre justiça, liberdade e redes sociais
O trajeto entre Minas e Brasília se transforma em vitrine política para a direita bolsonarista em 2026, a menos de dois anos das próximas eleições municipais. Nikolas, um dos deputados mais votados do país em 2022, volta a apostar na combinação de presença física nas ruas e forte exposição digital. Cada parada da marcha vira conteúdo em tempo real para milhões de seguidores, em plataformas como Instagram e TikTok.
A oposição de esquerda reage e acusa o grupo de encenar um “reality show” político para ampliar engajamento. Cleitinho devolve na mesma moeda. Em vídeo, chama críticos de “um bando de hipócritas” e desafia adversários a mostrarem a carteira de trabalho. “Vocês usam esses conteúdos para poder ganhar engajamento às custas da direita. Vamos fazer um desafio: mostra a sua carteira de trabalho, vamos ver quem trabalha pelo Brasil”, dispara.
O embate ocorre enquanto o STF consolida penas que chegam a mais de 15 anos de prisão para alguns réus dos atos de 8 de janeiro, e o Congresso discute a derrubada de vetos presidenciais na área penal. A defesa da chamada dosimetria das penas, termo jurídico para o cálculo da punição, entra na pauta do grupo como bandeira central. Os organizadores afirmam que querem “regras mais claras e proporcionais” para os condenados.
A marcha atrai outros nomes da direita. Participam os deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO) e André Fernandes (PL-CE), além do vereador de Belo Horizonte Pablo Almeida (PL). O senador Magno Malta (PL) acompanha o grupo em cadeira de rodas, após cirurgia recente, e usa a própria condição física como símbolo de resistência. Ao longo do percurso, parlamentares de diferentes estados se juntam por trechos, em uma espécie de revezamento político até a chegada à Esplanada.
O movimento se declara pacífico e ancorado em direitos constitucionais como liberdade de manifestação e de circulação. “Trata-se apenas do exercício legítimo do direito de ir e vir e do direito de manifestação, garantidos pela Constituição”, afirma Nikolas. A preocupação das autoridades, porém, recai sobre a possibilidade de aglomerações em Brasília reacenderem o clima de confronto visto em 2023, quando sedes dos Três Poderes foram depredadas.
Pressão sobre STF, cálculo eleitoral e próximos passos
A caminhada cria um novo foco de pressão sobre o STF e o governo federal. Ao vincular a marcha à prisão de Bolsonaro e ao destino dos réus de 8 de janeiro, os organizadores tentam converter um debate jurídico em disputa política direta. A estratégia busca falar ao eleitorado que se sente injustiçado após a derrota de 2022 e vê na Corte um ator central do embate com a direita.
A iniciativa também funciona como termômetro eleitoral em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, com mais de 16 milhões de votantes. Nikolas e Cleitinho testam força de mobilização nas estradas e nas redes, de olho na renovação de mandatos e em eventuais voos mais altos em 2026 e 2028. A narrativa de “perseguição” e “defesa da liberdade” tenta unificar diferentes segmentos da base bolsonarista, do eleitor evangélico ao empresário de médio porte.
Para o governo federal, a marcha representa um risco político e de imagem, caso eventuais confrontos ou bloqueios de vias ganhem repercussão. Para o STF, o desafio é manter o curso dos processos sem dar sinais de recuo diante da pressão de rua, ao mesmo tempo em que busca preservar a legitimidade perante a opinião pública. Governadores e secretarias de segurança ao longo do trajeto acompanham o movimento, atentos a bloqueios e a possíveis violações de decisões judiciais.
A chegada a Brasília, prevista para o fim de janeiro, deve concentrar a maior parte das atenções. Aliados organizam recepção na Esplanada dos Ministérios, com discursos programados em frente ao Congresso e à Praça dos Três Poderes. A expectativa do grupo é levar milhares de pessoas, embora não haja estimativa oficial de público nem confirmação de ato em local fechado.
O desfecho da caminhada tende a influenciar o clima político nas primeiras votações do ano legislativo, em especial na análise de vetos e projetos ligados à segurança pública e ao sistema de Justiça. Se a mobilização ganhar corpo nas ruas e nas redes, fortalece o discurso de confronto com o STF e pressiona o Congresso a reagir. Se perder fôlego ao longo do caminho, reforça dúvidas sobre a capacidade da direita bolsonarista de sustentar grandes atos de rua após os eventos de 8 de janeiro. O percurso até Brasília, mais do que físico, expõe a distância que ainda existe entre o discurso de rua e as decisões de toga.
