Ciencia e Tecnologia

Cinesesc é eleito melhor sala de cinema de São Paulo em 2026

O Cinesesc, na rua Augusta, é eleito a melhor sala de cinema de São Paulo em 2026 pelo júri do Guia da Folha. O anúncio, feito em 12 de março, reconhece uma combinação rara de curadoria exigente, formação de público e preços acessíveis.

Cinema de rua que forma público desde a infância

O prêmio consolida um movimento que se desenha há pelo menos 15 anos dentro do cinemão da rua Augusta. Todo domingo, o Cineclubinho ocupa a sala com um filme dedicado às crianças e aos adolescentes, sempre às 11h, com ingressos a R$ 10. A rotina transforma a ideia de “cinema” para quem ainda está dando os primeiros passos na plateia.

Em vez do passeio de shopping, com salas padronizadas e consumo acelerado, o Cinesesc oferece uma experiência que mistura brincadeira, mediação cultural e conversa. “Se você observar, a criança vincula cinema a shopping e pipoca. O Cineclubinho oferece uma experiência diferente, com intervenção, com espaço de brincar, com ingressos a preços especiais, por R$ 10, sempre pensando na importância da formação da plateia”, afirma Simone Yunes, gerente do Cinesesc.

A proposta ganha concretude em detalhes. No início de março, o Cineclubinho exibe em primeira mão a animação franco-belga “A Pequena Amélie”, indicada ao Oscar de melhor animação. A sessão, voltada ao público infantil, vem acompanhada do lançamento do livro “A Rotina de Tina”, de Karina Almeida, com contação de histórias de Cris Gouveia no hall de entrada. A manhã de domingo deixa de ser só uma ida ao cinema e vira porta de entrada para literatura, escuta atenta e troca entre famílias.

O cuidado se estende para além da tela. No mesmo hall, a exposição “Cinema em Papel” destaca o lado artesanal da sétima arte, com recortes, colagens e ilustrações que homenageiam títulos como “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, e “Jules e Jim – Uma Mulher para Dois” (1962), de François Truffaut. O visitante cruza por essas imagens antes de entrar na sala, num lembrete de que cada filme carrega camadas de trabalho manual, memória e afeto.

Curadoria diversa, cinema independente e preço popular

O reconhecimento do Guia da Folha não se ancora apenas no trabalho com as crianças. O Cinesesc, mantido pelo Sesc São Paulo, equilibra formação de público e uma programação que satisfaz o cinéfilo mais exigente. O endereço, no número 2.075 da rua Augusta, em Cerqueira César, projeta retrospectivas de diretores cultuados, mostras temáticas e festivais que apresentam cinematografias pouco vistas no circuito comercial.

A sala de 280 lugares mantém padrão técnico alto, com projeção digital de última geração e som calibrado para sessões de festival ou estreias discretas. A pipoca, vendida no bar, custa R$ 2, valor quase simbólico num mercado em que o combo de refrigerante e balde pode passar de R$ 40. O ingresso de sessões regulares fica na faixa de R$ 20 a R$ 30, com meia-entrada garantida por lei e descontos usuais para credenciais do Sesc.

O cinema amplia o espaço para o chamado cinema independente, que luta por telas na cidade. Em 2026, a sala exibe o quinteto de filmes que disputa o Oscar de filme internacional: “O Agente Secreto” (Brasil), “Foi Apenas um Acidente” (França), “Sirât” (Espanha), “Valor Sentimental” (Noruega) e “A Voz de Hind Rajab” (Tunísia). A programação permite que um público mais amplo veja, em uma mesma semana, produções que costumam estrear de forma tímida ou restrita.

A rotina inclui ainda a 14ª Mostra Tiradentes SP, que desembarca no Cinesesc com uma seleção de títulos exibidos no festival mineiro. A parceria reforça o papel da sala como ponte entre o cinema brasileiro de invenção e o público paulistano. O reconhecimento do júri do Guia da Folha vem também desse esforço em manter janelas para filmes que investigam novas linguagens, orçamentos menores e temas distantes do circuito de superproduções.

O selo de melhor sala de cinema em 2026 dialoga com um cenário em que o público de cinema de rua sofre. A queda de espectadores em 2025 atinge tanto redes comerciais quanto espaços dedicados à curadoria autoral, pressionados por plataformas de streaming e hábitos domésticos de consumo audiovisual. Ao valorizar uma sala que insiste em combinar conforto, preço baixo e risco artístico, o prêmio emite um recado para o mercado.

Referência cultural e efeito em cadeia na cidade

O impacto do reconhecimento ultrapassa as paredes do prédio na Augusta. O Cinesesc passa a ocupar um lugar ainda mais central na cartografia cultural da cidade, ao lado de espaços como a Cinemateca Brasileira, o Cine Marquise e o Cine Belas Artes, também lembrados em outras categorias do Guia da Folha. O prêmio de melhor cineclube ou sala especial, dividido entre a Cinemateca e o próprio Cinesesc, reforça o elo entre preservação da memória e experimentação.

A consagração deve atrair novas parcerias para mostras, pré-estreias e debates, além de potencializar o interesse de distribuidoras em manter filmes em cartaz por mais tempo. Produtores independentes ganham uma vitrine mais segura para suas estreias. Famílias que ainda associam cinema apenas a shoppings encontram um endereço de rua, com árvores na calçada e cafés no entorno, onde podem experimentar outro tipo de relação com a tela grande.

Esse modelo também pressiona outras salas, públicas e privadas, a repensar estratégias. A combinação de preços acessíveis, programação contínua para crianças e adultos, exposições no saguão e atenção à experiência completa do espectador não depende de superinvestimentos. Depende de decisão editorial e de disposição para tratar o cinema como bem cultural, não só como produto.

Nos próximos meses, a expectativa é que o Cinesesc amplie projetos voltados à formação de plateia, com mais sessões comentadas, atividades educativas e parcerias com escolas da região central. A agenda de 2026 inclui novas retrospectivas de diretores, maratonas temáticas e a continuidade de mostras já tradicionais, como a própria Tiradentes SP.

A eleição de melhor sala de cinema de São Paulo, em um ano em que o público ainda testa o retorno às salas após a pandemia e a consolidação do streaming, funciona como termômetro. Se a experiência do Cinesesc se mantiver e inspirar outros endereços, a cidade tende a ganhar um circuito mais diverso, crítico e acolhedor. Resta saber quantos cinemas, fora da bolha da Augusta, estarão dispostos a seguir esse roteiro.

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