Cientistas acham célula visual híbrida inédita em peixes do mar Vermelho
Cientistas da Finlândia e da Austrália descrevem, em fevereiro de 2026, um novo tipo de célula visual em peixes do mar Vermelho. O achado derruba a fronteira clássica entre bastonetes e cones na visão dos vertebrados.
Uma retina que não cabe nos livros
Por mais de 100 anos, livros de biologia repetem a mesma fórmula: bastonetes servem para enxergar no escuro, cones permitem ver cores em ambientes iluminados. A nova pesquisa, publicada em 11 de fevereiro na revista Science Advances, mostra que a natureza ignora essa divisão rígida pelo menos em parte da fauna marinha.
Ao examinar a retina de larvas de peixes capturados entre 20 e 200 metros de profundidade no mar Vermelho, pesquisadores da Universidade de Helsinque, na Finlândia, e da Universidade de Queensland, na Austrália, encontram um terceiro tipo de fotorreceptor. A célula tem corpo alongado, típico dos bastonetes, mas opera com a engrenagem molecular dos cones, responsáveis pela visão de cores.
A principal autora do estudo, a bióloga marinha Lily Fogg, resume a surpresa. “Descobrimos que, na fase larval, esses peixes de águas profundas utilizam principalmente um tipo híbrido de fotorreceptor que combina características diferentes”, afirma. “Essas células parecem bastonetes — longas, cilíndricas e otimizadas para captar o máximo possível de partículas de luz, os fótons. Mas elas usam a maquinaria molecular dos cones, ativando genes normalmente encontrados apenas nos cones.”
Os cientistas analisam três espécies pequenas e abundantes: Maurolicus mucronatus, Vinciguerria mabahiss e Benthosema pterotum, cujos adultos medem de 3 a 7 centímetros. Nessas larvas, a retina precisa funcionar em um ambiente crepuscular quase permanente, em que a luz solar chega fraca demais para o padrão dos vertebrados de superfície.
Nos livros, a retina é descrita como um painel com dois conjuntos fixos de fotorreceptores. Bastonetes dominam a visão noturna, enquanto cones respondem por detalhes finos e cores. Fogg lembra que, mesmo em humanos, esses grupos não são estáticos. “Os bastonetes e cones mudam lentamente de posição dentro da retina ao transitar entre condições de pouca e muita luz, e é por isso que nossos olhos levam tempo para se ajustar quando acendemos o interruptor de luz no caminho para o banheiro à noite”, explica.
Impacto na biologia da visão e na vida no oceano
O que surpreende agora é que, nessas larvas, bastonetes e cones deixam de ser categorias estanques. “Nossos resultados desafiam a ideia consolidada de que bastonetes e cones são dois tipos celulares fixos e claramente separados”, diz Fogg. “Em vez disso, mostramos que os fotorreceptores podem combinar características estruturais e moleculares de maneiras inesperadas.” Essa plasticidade aponta para um sistema visual mais flexível e adaptável do que a biologia supunha.
Entre as três espécies analisadas, Maurolicus mucronatus mantém as células híbridas ao longo de toda a vida. Vinciguerria mabahiss e Benthosema pterotum, em contraste, passam para a dicotomia clássica entre bastonetes e cones na fase adulta. A diferença sugere estratégias visuais distintas em momentos críticos do ciclo de vida, como a busca por alimento ou a fuga de predadores.
O biólogo marinho e neurocientista Fabio Cortesi, da Universidade de Queensland, coautor do artigo, vê um padrão mais amplo. “É uma descoberta muito interessante que mostra que a biologia não se encaixa perfeitamente em caixinhas”, afirma. “Não me surpreenderia se descobríssemos que essas células são muito mais comuns em todos os vertebrados, incluindo espécies terrestres.”
Esses peixes habitam profundidades que variam de 200 a 1.000 metros na fase adulta e sobem à superfície à noite para se alimentar em águas ricas em plâncton. A migração diária está entre as maiores do reino animal em termos de número de indivíduos e amplitude vertical. Nesse sobe e desce, a retina precisa lidar com mudanças bruscas de luminosidade em poucas horas.
As três espécies também produzem sua própria luz. Usam pequenos órgãos emissores distribuídos pelo corpo, em especial na região da barriga, para emitir bioluminescência azul-esverdeada. A cor se mistura à fraca iluminação vinda da superfície e cria um tipo de camuflagem luminosa, a contra-iluminação, que dificulta a detecção por predadores abaixo delas.
Cortesi destaca a importância ecológica desses peixes minúsculos. “Peixes pequenos como esses alimentam o oceano aberto. Eles são abundantes e servem de alimento para muitos peixes predadores maiores, incluindo atum e marlim, mamíferos marinhos como golfinhos e baleias, e aves marinhas”, diz. A eficiência visual dessas larvas, ajustada ao limite da escuridão, sustenta uma cadeia alimentar que movimenta bilhões de toneladas de biomassa todos os anos.
O que vem a seguir para ciência, tecnologia e conservação
A descoberta da célula híbrida abre frentes em três direções. Na biologia básica, obriga revisões em manuais que ainda tratam bastonetes e cones como blocos imutáveis. Se vertebrados marinhos exibem esse tipo de flexibilidade celular, é possível que adaptações semelhantes tenham surgido em outros grupos, inclusive em animais terrestres. Novos estudos em peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos devem buscar assinaturas genéticas e anatômicas parecidas.
Na neurobiologia e na genética, o foco se volta para a programação dessas células. Entender como uma estrutura de bastonete adota “software” de cone pode inspirar terapias contra doenças degenerativas da retina e estimular biotecnologias para melhorar a visão em baixa luminosidade. Sistemas de câmeras, sensores para veículos autônomos e dispositivos usados por militares e equipes de resgate podem se beneficiar de princípios derivados dessa mistura de sensibilidade extrema com processamento eficiente de luz fraca.
No campo ambiental, o estudo reforça o valor dos ecossistemas de mar profundo, ainda pouco explorados e cada vez mais pressionados por pesca industrial, mineração submarina e aquecimento global. “O fundo do mar continua sendo uma fronteira para a exploração humana, uma caixa de mistérios com potencial para descobertas significativas”, afirma Cortesi. “Devemos cuidar desse habitat com o máximo de atenção para garantir que as gerações futuras possam continuar a se maravilhar com suas maravilhas.”
O trabalho publicado em fevereiro de 2026 é um recorte em uma região específica, com larvas de apenas três espécies, em uma faixa de 20 a 200 metros no mar Vermelho. A ciência agora tenta responder até onde essa inovação se espalha na árvore da vida dos vertebrados. A resposta pode obrigar não só a reescrever capítulos da biologia, mas também a repensar como a tecnologia humana imita — ou ainda ignora — as soluções da evolução no escuro do oceano.
