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Ciclistas são encontrados vivos após 6 dias perdidos em trilha em SP

Após seis dias desaparecidos na mata em Juquitiba, na Grande São Paulo, os ciclistas Gilberto Alves de Almeida, 62, e Carlos Gomes Pereira, 58, são resgatados com vida nesta terça-feira (20). A dupla se perde durante uma trilha na região da Pedra Lisa e sobrevive apenas com água de rio e palmito até a chegada do helicóptero Águia, do Corpo de Bombeiros.

Da aventura de férias ao alerta em família

Gilberto, morador de Embu das Artes, está de férias quando decide transformar uma quarta-feira comum, 14 de janeiro de 2026, em dia de trilha na Serra do Mar. Ele convida o amigo de mais de 25 anos, Carlos, o Caco, companheiro recente de pedaladas, para percorrer a região da Cachoeira da Saleta, destino conhecido entre ciclistas que frequentam Juquitiba.

Os dois saem cedo, passam na casa da irmã de Gilberto, em Juquitiba, pegam as bicicletas e seguem pela Estrada do Jacuba rumo à trilha Pedra Lisa. Uma câmera de segurança registra o momento em que eles passam, por volta das 11h daquele dia, a última imagem dos amigos antes do sumiço.

No meio da mata, o roteiro planejado desanda. Em vez de chegar à cachoeira, os ciclistas percebem que perderam a referência da trilha. A vegetação fechada, o relevo irregular e a chuva forte que cai sobre a região transformam o passeio em uma corrida silenciosa contra o tempo.

Gilberto consegue gravar um áudio para o irmão. Ele admite que não sabe exatamente onde está e avisa que, com Caco, vai tentar seguir o curso do Rio São Lourencinho, que deságua em Peruíbe, no litoral sul de São Paulo. Por causa da chuva intensa, o irmão só escuta a mensagem no dia seguinte, quinta-feira (15), quase 24 horas depois. A família aciona o Corpo de Bombeiros assim que entende que os dois não conseguem sair da mata sozinhos.

Enquanto parentes se mobilizam do lado de fora, a rotina de Gilberto e Carlos na floresta se reduz ao essencial. Eles bebem água do rio e retiram palmito da mata para sobreviver. A ausência de comida preparada, abrigo adequado e meios de comunicação funciona como lembrete duro dos limites entre lazer e risco nas trilhas da Serra do Mar.

Seis dias de busca em mata fechada

O desaparecimento entra no sexto dia e mobiliza bombeiros, policiais, voluntários e guias da região. Um deles relata ter percorrido cerca de 34 quilômetros ao lado de mateiros experientes e diz torcer para que os amigos sejam encontrados com vida. Pelo caminho, as equipes encontram dois pacotes de bolacha, sinal de que a dupla tenta avançar e racionar o que carrega.

O Corpo de Bombeiros organiza uma operação de grande porte em uma área descrita como de difícil acesso. O mapa usado pelas equipes mostra cada rastro deixado na mata para evitar que o mesmo trecho seja revisitado em dias diferentes. Desde o início das buscas, os militares percorrem 277 quilômetros a pé em trilhas e picadas, enquanto o helicóptero Águia cobre mais de 100 quilômetros em trajetos lineares sobre a floresta.

As imagens de câmeras de segurança, o áudio enviado por Gilberto e o conhecimento de guias locais ajudam a definir o perímetro de busca. As equipes se espalham por diferentes pontos da mata e ajustam rotas diariamente, em uma tentativa de reconstruir o caminho dos ciclistas em meio à vegetação densa.

A cada dia sem notícias, cresce a tensão entre familiares e amigos. “Ele é meu amigão do peito, inclusive tem uma bicicleta minha na casa dele. Essa é nossa válvula de escape, é o que gostamos de fazer”, diz o amigo Odair Fernandes, ao lembrar a rotina de pedaladas com Caco e Gilberto e a viagem que os três já planejavam para depois da trilha em Juquitiba.

Os perfis dos dois ciclistas ajudam a explicar a mobilização. Gilberto, divorciado e pai de três filhos, trabalha como gerente comercial em Sorocaba e há anos incorpora o ciclismo à rotina. Carlos, solteiro, é ajudante de caminhoneiro e também transforma a bicicleta em hobby fixo. A filha de Gilberto, Ana Paula Melo, resume o sentimento da família. Ela conta que o pai faz do esporte um estilo de vida e afirma que as horas de espera se misturam entre preocupação e esperança.

Operação de resgate e lições para quem se aventura em trilhas

O desfecho vem na manhã desta terça-feira (20), quando as equipes retomam as buscas por volta das 7h30 e conseguem localizar os dois ciclistas. Eles aparecem cerca de 12 quilômetros distante do ponto mencionado por Gilberto no áudio enviado ao filho, sinal de que passaram dias caminhando na mata sem conseguir encontrar uma saída segura.

O helicóptero Águia, da Polícia Militar, faz a retirada da dupla em uma operação que depende de precisão e rapidez. Em seguida, Gilberto e Carlos são levados ao Hospital das Clínicas, na capital, para avaliação médica. Eles chegam conscientes, depois de quase uma semana expostos ao frio, à chuva e à falta de alimentação adequada.

O caso reforça a importância de planejamento cuidadoso em atividades ao ar livre, especialmente em áreas de mata fechada e relevo acidentado como a Serra do Mar. Equipamentos de navegação, pontos de contato combinados, reservas de água e comida e conhecimento prévio das rotas podem reduzir o risco de que um passeio se transforme em emergência.

A operação também joga luz sobre a estrutura disponível para resgates na Grande São Paulo. A integração entre Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e voluntários locais mostra capacidade de resposta, mas expõe o custo humano e logístico de buscas prolongadas. Centenas de quilômetros percorridos em terreno hostil, horas de voo e de trabalho em solo, além da angústia das famílias, compõem o saldo invisível do resgate bem-sucedido.

Para quem frequenta trilhas populares como a Pedra Lisa, o episódio deve alimentar uma discussão sobre sinalização, manutenção de rotas e orientação aos visitantes. O poder público e os praticantes de esportes de aventura passam a ser pressionados a discutir responsabilidades, limites e protocolos mínimos de segurança.

Próximos passos e debate sobre segurança em áreas de mata

Depois da alta médica, Gilberto e Carlos ainda terão de lidar com a recuperação física e emocional dos seis dias de incerteza. A família pretende acompanhar de perto esse processo, enquanto aguarda detalhes técnicos do relatório dos bombeiros sobre o trajeto percorrido e as condições em que a dupla é encontrada.

Na região de Juquitiba, a expectativa é que o caso funcione como marco para revisão de práticas. Guias e moradores defendem mais pontos de apoio, informações claras sobre o nível de dificuldade das trilhas e campanhas permanentes para orientar ciclistas e caminhantes. As próximas semanas devem indicar se o resgate de Gilberto e Carlos ficará apenas como história de sobrevivência ou se se transformará em ponto de partida para políticas mais rígidas de segurança em áreas de mata.

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