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Chuvas históricas em MG deixam 40 mortos e cidades em colapso

Chuvas históricas entre segunda (23) e terça-feira (24) deixam ao menos 40 mortos, 27 desaparecidos e mais de 3 mil desalojados em Juiz de Fora e Ubá, em Minas Gerais. Deslizamentos, enchentes e rios transbordados transformam bairros inteiros em áreas de risco permanente.

Cidades em calamidade e cenário de destruição

O volume de chuva registrado em menos de 48 horas rompe rotinas, destrói casas e arrasta memórias. As duas cidades decretam estado de calamidade pública para tentar responder a um desastre que autoridades locais descrevem como sem precedentes. Em Juiz de Fora, fevereiro já é o mais chuvoso da série histórica. Em Ubá, o vice-prefeito fala em “cenário de guerra” diante de ruas tomadas pela lama, carros empilhados e pontes comprometidas.

Imagens aéreas produzidas por drones revelam o contraste brutal do antes e depois. Encostas antes cobertas por casas e vegetação aparecem rasgadas por grandes cicatrizes de terra. Telhados somem, paredes cedem, muros desabam. Em vários pontos, apenas o contorno das fundações indica que ali existiam moradias. Escombros se espalham por vales inteiros, misturados a móveis, postes e árvores arrancadas.

Somente em Juiz de Fora, são 34 mortos, 25 desaparecidos e mais de 3 mil pessoas que deixam suas casas às pressas, muitas apenas com a roupa que vestem. Em Ubá, seis mortes se confirmam até agora, enquanto equipes de resgate ainda percorrem áreas isoladas. A Polícia Civil informa que 38 corpos passam por necropsia, 27 deles já identificados, em procedimentos que se estendem madrugada adentro para dar resposta às famílias.

Resgates dramáticos e infraestrutura em colapso

A água invade não só casas, mas também equipamentos públicos essenciais. Em Ubá, o Departamento de Assistência Social João de Freitas, que abriga 16 idosos, fica totalmente inundado. Vídeos mostram idosos flutuando sobre colchões improvisados, em salas onde o nível da água chega ao peito dos socorristas. Eles são retirados um a um em barcos e botes emprestados por moradores. “Nunca vimos nada assim aqui, a água subiu de repente”, relata um voluntário que participa do resgate.

No centro da cidade, a força da correnteza arromba as portas de uma funerária. Urnas vazias boiam pelas ruas, empurradas pela enxurrada, numa cena que sintetiza o tamanho da tragédia. Em bairros de Juiz de Fora, a lama cobre o que restou das casas. Geladeiras, camas e carros se amontoam contra muros, postes e árvores. Muitos moradores retornam apenas para reconhecer o terreno onde viviam.

Equipes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil trabalham em ritmo contínuo desde a noite de segunda-feira. Drones fazem varreduras em áreas de encosta para mapear novos riscos e localizar caminhos seguros de acesso. Barcos percorrem ruas transformadas em canais, retirando famílias presas em lajes e no segundo andar de casas parcialmente alagadas. Escavadeiras tentam desobstruir vias e pontes que desabam durante o temporal, enquanto militares ouvem relatos de desaparecidos e definem prioridades de busca.

A Defesa Civil confirma que alertas são emitidos antes das chuvas mais intensas, mas reconhece que a combinação de solo saturado e volume extremo de água supera a capacidade de resposta. O governador Romeu Zema afirma que o estado enfrenta “algo nunca visto” na região e anuncia reforço em equipes e equipamentos. Técnicos explicam que, com o solo encharcado, mesmo chuvas menos intensas agora têm potencial de causar novos deslizamentos e inundações.

Impacto humano, resposta do poder público e risco contínuo

O balanço oficial indica 40 mortos, 27 desaparecidos e mais de 3,5 mil pessoas entre desabrigados e desalojados nas duas cidades. São famílias que deixam casas destruídas, empregos interrompidos e bairros inteiros que se tornam inabitáveis em poucas horas. Redes de parentes e amigos se mobilizam para doações de água, roupas e alimentos, enquanto escolas e ginásios se convertem em abrigos provisórios.

A Polícia Civil monta força-tarefa para identificação das vítimas. Em Juiz de Fora, 21 corpos já são reconhecidos e liberados para sepultamento. Em Ubá, seis corpos passam por necropsia e também são identificados. As redes sociais se enchem de fotos, homenagens e pedidos de informação sobre desaparecidos. Nomes, idades e histórias circulam em grupos de mensagens, aproximando a dimensão estatística da tragédia da dor concreta de cada família.

O governo de Minas anuncia a antecipação de R$ 8 milhões para Ubá e R$ 38 milhões para Juiz de Fora, destinados a obras emergenciais, reconstrução de infraestrutura básica e assistência direta às famílias atingidas. O estado decreta luto oficial de três dias. As prefeituras correm para mapear as áreas mais afetadas e definir prioridades de intervenção, em meio à pressão de moradores que querem voltar para casa e de especialistas que alertam para o risco de novos desastres.

A Defesa Civil e o Instituto Nacional de Meteorologia mantêm alerta de “grande perigo” para a região. Técnicos explicam que o solo segue saturado e qualquer nova chuva, mesmo moderada, pode provocar deslizamentos adicionais. Sirenes de encostas voltam a ser testadas, rotas de fuga são reforçadas e agentes vão de casa em casa orientando moradores sobre a necessidade de deixar áreas instáveis. A disputa cotidiana é entre o medo de perder o pouco que restou e o risco real de permanecer.

Reconstrução lenta, debate climático e futuro incerto

Os próximos dias se concentram em três frentes: busca por desaparecidos, atendimento às famílias desabrigadas e estabilização de encostas e margens de rios. Técnicos de defesa civil, geólogos e engenheiros cruzam dados de chuva, histórico de deslizamentos e imagens de drones para definir quais áreas podem ser reocupadas e quais terão remoção definitiva de moradores. A decisão impacta, em especial, famílias de baixa renda, que se concentram em encostas íngremes e faixas de inundação.

Especialistas em clima e urbanismo voltam a chamar atenção para o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos. Bairros construídos ao longo de rios canalizados e morros ocupados sem infraestrutura de drenagem aparecem agora como pontos de maior vulnerabilidade. A tragédia reacende a discussão sobre prevenção, planos diretores e obras de contenção que deixam de sair do papel.

A repercussão nacional pressiona o poder público a ir além das respostas emergenciais. A liberação de verbas e o decreto de calamidade aceleram processos burocráticos, mas não garantem, por si só, reconstrução mais segura. A convivência com chuvas cada vez mais intensas, admitida por autoridades e técnicos, exige um novo padrão de planejamento urbano, fiscalização de áreas de risco e políticas habitacionais que impeçam o retorno de famílias a locais sabidamente vulneráveis.

Quando as águas baixarem e os holofotes se deslocarem para outro canto do mapa, moradores de Juiz de Fora e Ubá ainda terão escombros para remover, lares para reconstruir e lutos para elaborar. A dimensão da resposta que o estado e o país conseguirão oferecer a essas cidades dirá se a tragédia de fevereiro de 2026 será tratada apenas como mais um episódio extremo, ou como o ponto de virada para uma política consistente de prevenção em áreas sujeitas às chuvas que se tornam cada vez mais violentas.

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