Ultimas

Chuvas históricas deixam ao menos 28 mortos na Zona da Mata mineira

Chuvas intensas desde a noite de segunda-feira (23/2) deixam ao menos 28 mortos na Zona da Mata de Minas Gerais e dezenas de desaparecidos. Deslizamentos soterram casas, uma escola municipal e obrigam centenas de moradores a abandonar seus bairros.

Cidade em choque e buscas sob chuva

Juiz de Fora amanhece em luto e em estado de calamidade pública. Em 24 horas, a cidade registra 21 mortes confirmadas e pelo menos 37 desaparecidos, segundo o Corpo de Bombeiros. O volume de chuva em apenas sete horas chega a cerca de 80% da média prevista para todo o mês de fevereiro, sobre encostas já encharcadas.

Escavadeiras, cães farejadores e equipes que chegam de diferentes regiões de Minas se espalham por morros da zona sudeste do município. Ruas estreitas se transformam em corredores de lama. Moradores apontam para onde ficavam casas e pequenos comércios agora cobertos por terra, móveis e pedaços de telhado misturados ao entulho.

A prefeita Margarida Salomão (PT) decreta calamidade pública, reconhecida pelo governo federal ainda na terça-feira (24/2). Ela resume o impacto humano em poucas frases. “Hoje é o dia mais triste dos meus cinco anos e dois meses de governo porque é o dia que temos que registrar, pela primeira vez, perdas de vida decorrentes desses fenômenos climáticos, deslizamentos de encostas”, afirma. “Ontem, infelizmente, foi tanta água que tivemos essa tristeza inqualificável.”

Dados da prefeitura apontam ao menos 20 soterramentos de imóveis, concentrados na região sudeste da cidade. Cerca de 440 pessoas estão desabrigadas e são acolhidas provisoriamente em três escolas municipais. As salas de aula recebem colchões, cobertores, doações de roupas e alimentos enquanto a chuva continua a cair em intervalos irregulares.

Tragédia na escola e bairros devastados

Entre as vítimas, estão três alunos da Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves: Maitê Cedlia Pereira Fernandes e os irmãos Arthur Rafael de Oliveira Machado e Miguel Carlos da Silva Machado. A mãe dos meninos, Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza, também morre soterrada. A escola, que em dias normais ecoa vozes de crianças, vira abrigo de emergência para parte dos vizinhos.

“Perdemos três alunos soterrados e a mãe de um aluno. A situação dos bairros Bom Jardim e Linhares, onde a maioria mora, está devastadora”, relata a diretora, Delba Vieira Garcia. Ela tenta organizar a chegada de desalojados, separar doações e atender famílias em choque. “Está muito caótica e com previsão de mais chuva. Estamos passando por um momento muito difícil.” A direção espera abrigar cerca de 60 pessoas no prédio escolar.

No bairro Parque Jardim Burnier, uma encosta cede e engole 12 imóveis. Pelo menos quatro mortes são confirmadas e 17 pessoas seguem desaparecidas. Bombeiros revezam turnos sobre um terreno instável, onde qualquer passo errado pode abrir novas rachaduras. Vizinhos ajudam a indicar por onde ficavam cozinhas, quartos e garagens soterrados, enquanto parentes aguardam notícias em uma área isolada por fitas de segurança.

A tragédia se espalha pela Zona da Mata. Em Ubá, a cerca de 100 quilômetros de Juiz de Fora, o temporal despeja aproximadamente 170 milímetros de chuva em três horas e meia. O rio Ubá sobe até 7,82 metros e transborda, invade casas térreas, destrói mercadinhos de bairro, arrasta carros e interrompe o funcionamento de pequenas fábricas de móveis que sustentam parte da economia local.

O prefeito José Damato Neto (PSD) descreve um cenário sem precedentes. “É a maior enchente da história”, afirma, ao decretar calamidade pública e pedir reforço ao governador Romeu Zema (Novo) e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Zema decreta luto oficial de três dias e promete que o estado fará “tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar esse sofrimento”.

Chuvas extremas, tremor sentido e alerta regional

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registra para a Zona da Mata um acumulado recente de 209,4 milímetros, somando 589,6 milímetros em fevereiro. O volume reforça a percepção de um mês fora da curva, em uma região marcada por ocupação de encostas e construção em áreas de vale. A previsão indica a continuidade das instabilidades, com novos acumulados que podem chegar a 60 milímetros em diferentes áreas de Minas nos próximos dias.

Moradores de Juiz de Fora relatam um tremor de terra dias antes dos deslizamentos. A Rede Sismográfica Brasileira, em parceria com o Centro de Sismologia da USP, confirma um abalo de magnitude 2,1 no sábado (21/2). O sismólogo Bruno Collaço descarta, porém, qualquer ligação com a tragédia. “Terremotos com magnitude entre 2 e 3 acontecem toda semana em alguma parte do Brasil”, explica. Segundo ele, eventos desse porte não têm força para derrubar construções nem provocar deslizamentos.

Collaço lembra que, mesmo assim, o abalo pode ser sentido por quem mora perto do epicentro. “Se a pessoa estiver a cerca de 10 a 15 quilômetros do epicentro, mesmo um tremor de magnitude 2,1 pode ser sentido. Como os sismos no Brasil são mais rasos, isso facilita essa percepção”, diz. A dúvida dos moradores se soma a um sentimento mais amplo de insegurança diante de um período de chuvas cada vez mais concentradas e intensas.

A crise se estende para além de Minas. No Rio de Janeiro, uma idosa de 85 anos morre afogada em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, depois de ficar presa em casa durante o temporal. Cerca de 600 pessoas estão desalojadas no município, que decreta situação de emergência. A Rodovia Presidente Dutra fica interditada por quase duas horas por causa de alagamentos, travando o fluxo entre a capital e a Região Metropolitana.

No Estado de São Paulo, a Defesa Civil contabiliza 19 mortes desde o início da Operação Verão, em 1º de dezembro, número já superior ao da temporada passada. O maior risco se concentra no litoral, onde o órgão renova o alerta vermelho para chuvas até sexta-feira (27/2), com previsão média de 175 milímetros e possibilidade de volumes ainda maiores em pontos isolados. Em Peruíbe, no litoral sul, chove 282 milímetros entre sábado (21) e segunda (23), 46% acima da média histórica de fevereiro. O município registra 213 desalojados, abrigados em três escolas.

Resposta de governos e o que vem pela frente

Enquanto bombeiros ampliam as buscas e assistentes sociais tentam organizar abrigos improvisados, o governo federal aciona sua estrutura de resposta. Em viagem à Ásia, Lula determina o envio de equipes para apoiar municípios da Zona da Mata. Em mensagem publicada na rede X, ele afirma que o decreto de calamidade em Juiz de Fora será publicado no Diário Oficial da União e promete foco em assistência humanitária, recuperação de serviços básicos, apoio a desabrigados e reconstrução.

No litoral paulista, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emite alerta de alto risco para deslizamentos em áreas de encosta e morros ocupados. Rodovias como a Oswaldo Cruz, a serra antiga da Tamoios e a pista sul da Anchieta sofrem interdições por queda de barreiras, o que afeta o abastecimento, o turismo e o transporte de trabalhadores. Na capital paulista, pancadas de chuva com trovoadas entre a tarde e a noite mantêm o risco de novos alagamentos.

As cenas em Juiz de Fora, Ubá, São João de Meriti e Peruíbe expõem, com números concretos, a combinação explosiva de chuva extrema, ocupação desordenada e infraestrutura frágil. Para especialistas em clima e urbanismo, episódios como o de fevereiro de 2026 tendem a se repetir com mais frequência, pressionando orçamentos públicos e impondo escolhas difíceis entre reconstruir áreas atingidas ou reassentar famílias em locais mais seguros.

Prefeituras e governos estaduais prometem reforçar obras de contenção, ampliar mapeamentos de risco e revisar planos diretores. Enquanto isso, moradores que perdem parentes, casas e meios de vida esperam respostas que vão além do socorro imediato. As próximas semanas dirão se a tragédia deste verão se transforma em ponto de virada na política de prevenção a desastres ou se ficará registrada apenas como mais um capítulo na longa lista de emergências climáticas do Sudeste.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *