Chuvas extremas deixam ao menos 30 mortos na Zona da Mata mineira
Chuvas intensas desde a noite de 23 de fevereiro deixam ao menos 30 mortos, dezenas de desaparecidos e milhares de desalojados na Zona da Mata de Minas Gerais. Juiz de Fora concentra 24 mortes e vive o dia mais trágico de sua história recente.
Cidade em calamidade e escola transformada em abrigo
O volume de água que cai sobre Juiz de Fora em poucas horas arrasta encostas, invade casas e interrompe ruas inteiras. Em sete horas, chove o equivalente a cerca de 80% da média esperada para todo o mês de fevereiro. A prefeita Margarida Salomão (PT) decreta estado de calamidade pública, reconhecido em seguida pelo governo federal.
Nos bairros de encosta, o barranco cede sem aviso. A prefeitura confirma ao menos 20 soterramentos de imóveis, sobretudo na região sudeste da cidade. Três escolas municipais se tornam abrigos improvisados para 440 pessoas que deixam suas casas às pressas, muitas apenas com a roupa do corpo.
Na Escola Municipal Vereador Raymundo Hargreaves, a tragédia tem nome e rosto. Entre as vítimas estão três alunos: Maitê Cedlia Pereira Fernandes e os irmãos Arthur Rafael de Oliveira Machado e Miguel Carlos da Silva Machado. A mãe de Arthur e Miguel, Rosimeire do Carmo de Oliveira Souza, também morre soterrada.
“Perdemos três alunos soterrados e a mãe de um aluno. A situação dos bairros Bom Jardim e Linhares, onde a maioria mora, está devastadora”, diz a diretora da escola, Delba Vieira Garcia. No início da tarde, a unidade abre os portões para acolher cerca de 60 desalojados. Colchões ocupam salas de aula, corredores e até a quadra. “Estamos recebendo doações. É muito complexo. Estamos passando por um momento muito difícil”, afirma.
No bairro Parque Jardim Burnier, uma encosta desaba e cobre 12 imóveis. Pelo menos quatro pessoas morrem no local e 17 seguem desaparecidas. O Corpo de Bombeiros, que já operava no limite desde a madrugada, recebe reforço de 150 agentes vindos de outras cidades, com apoio de cães farejadores. As buscas seguem sob chuva intermitente e risco de novos deslizamentos.
A prefeita admite o limite da estrutura municipal. “Hoje é o dia mais triste dos meus cinco anos e dois meses de governo”, afirma Margarida Salomão. Ela diz que, em episódios anteriores, o poder público conseguia retirar famílias antes do pior. “Mas ontem, infelizmente, foi tanta água que tivemos essa tristeza inqualificável.”
Fenômeno raro, solo encharcado e impacto regional
A chuva que atinge Juiz de Fora e outras cidades da Zona da Mata não é apenas forte. Meteorologistas classificam o episódio como resultado de uma combinação rara de fatores. Uma frente fria avança pelo Sudeste, encontra ar quente e muito úmido e fica praticamente estacionada na região de relevo acidentado. Com isso, nuvens carregadas se formam e se mantêm sobre o mesmo ponto por horas.
Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Meteorologia, explica que a frente fria atua em conjunto com um cavado, uma espécie de área alongada de baixa pressão em níveis médios da atmosfera. Esse cavado funciona como um “sugador” de umidade: puxa o ar quente e úmido da superfície para cima, alimenta as nuvens e favorece tempestades prolongadas. Em alguns trechos se formam supercélulas, nuvens gigantes com correntes de ar intensas e rotativas.
Em Juiz de Fora, a estação registra 100 milímetros de chuva em menos de 12 horas. A média para todo o mês de fevereiro é de 170 milímetros. Em toda a Zona da Mata, o acumulado recente chega a 209,4 milímetros e soma 589,6 milímetros no mês, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O solo, já saturado, não absorve mais água e se torna frágil, o que amplia o risco de deslizamentos e enxurradas.
O impacto não se limita a Minas Gerais. No Rio de Janeiro, uma idosa de 85 anos morre afogada em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, após ficar presa em casa durante o temporal. A prefeitura calcula cerca de 600 desalojados e decreta situação de emergência. A Rodovia Presidente Dutra, uma das principais ligações entre Rio e São Paulo, fica interditada por cerca de duas horas por causa de alagamentos.
Outras cidades da Baixada, como Duque de Caxias e Nova Iguaçu, seguem em alerta para cheias. Na capital fluminense, o Centro de Operações registra mais de 90 ocorrências, de bolsões d’água a quedas de árvores. A cena se repete em São Paulo, onde a Defesa Civil contabiliza 19 mortes desde o início da Operação Verão, em 1º de dezembro, número que já supera o da temporada passada.
No litoral paulista, o alerta é máximo. O órgão estadual de defesa civil renova o aviso vermelho para chuvas até sexta-feira, 27 de fevereiro, com previsão média de até 175 milímetros no período e volumes ainda maiores em pontos isolados. Em Peruíbe, no litoral sul, chove 282 milímetros entre sábado e segunda, 46% acima da média histórica de fevereiro. Ao menos 213 pessoas deixam suas casas e são abrigadas em três escolas. Deslizamentos bloqueiam trechos da Oswaldo Cruz, da serra antiga da Tamoios e da pista sul da Anchieta.
Diante do risco crescente, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emite alerta de alto risco para movimentos de massa em áreas do litoral paulista. Na capital e região metropolitana de São Paulo, a previsão indica pancadas de chuva com trovoadas entre a tarde e a noite, com potencial para novos alagamentos.
Em Ubá, a cerca de 100 quilômetros de Juiz de Fora, o cenário também é crítico. Em três horas e meia, o volume de chuva chega a 170 milímetros. O rio Ubá atinge 7,82 metros e transborda, inundando bairros inteiros. Seis pessoas morrem e duas estão desaparecidas. O prefeito José Damato Neto (PSD) decreta calamidade pública e define o episódio como “a maior enchente da história” do município.
Socorro emergencial, reconstrução e alerta para o futuro
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), decreta luto oficial de três dias e promete apoio às famílias afetadas. “O estado fará tudo o que estiver ao seu alcance para amenizar esse sofrimento”, afirma. O decreto de calamidade em Juiz de Fora, já reconhecido pela União, abre caminho para a liberação de recursos extraordinários para socorro, assistência e reconstrução.
Em viagem oficial pela Ásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determina o envio de equipes federais para a Zona da Mata. Em mensagem publicada na rede X, ele afirma que o governo está de prontidão. “Nosso foco é garantir a assistência humanitária, o restabelecimento dos serviços básicos, o auxílio às pessoas desabrigadas e o suporte à reconstrução”, escreve.
Enquanto as máquinas ainda removem lama e escombros, o debate sobre prevenção volta ao centro. Especialistas lembram que, embora episódios extremos estejam mais frequentes em um clima em aquecimento, o impacto de cada tragédia depende de escolhas locais: ocupação irregular de encostas, drenagem deficiente, falta de planos de evacuação.
Para os próximos dias, a previsão aponta manutenção da instabilidade em Minas. O Inmet indica novos acumulados entre 40 e 60 milímetros em diferentes regiões do estado. Mesmo se a chuva vier em menor volume, o solo já encharcado aumenta o risco de novos deslizamentos, transbordamento de rios e enchentes não só na Zona da Mata, mas também no Vale do Jequitinhonha, no Vale do Rio Doce e na bacia do rio Muriaé.
Em Juiz de Fora, a rotina de uma escola resume o desafio imediato. Professores tentam consolar colegas e alunos que perderam familiares enquanto organizam filas para distribuição de donativos. Famílias dividem a mesma sala, improvisam cabides com cabos de vassoura e acompanham as notícias pelo celular, na esperança de que as buscas encontrem parentes vivos.
A cada novo verão, cidades brasileiras repetem cenas de emergência em encostas e margens de rios. A tragédia de Juiz de Fora e da Zona da Mata expõe, mais uma vez, o descompasso entre a velocidade das mudanças no clima e o ritmo das obras de prevenção. A resposta que falta, enquanto a chuva ainda ameaça voltar, é se o país está disposto a tratar esses desastres não como fatalidade, mas como resultado de escolhas que ainda podem ser mudadas.
