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Chuvas extremas ameaçam 11 estados com até 500 mm em 15 dias

Previsões meteorológicas apontam risco elevado de chuvas volumosas a extremas nas próximas duas semanas em 11 estados do Norte, Nordeste e Sudeste. Os acumulados podem passar de 500 milímetros em alguns pontos, com potencial para alagamentos, deslizamentos e transtornos generalizados.

ZCIT mantém instabilidade e coloca regiões em alerta máximo

O cenário é desenhado por modelos numéricos como o do Centro Meteorológico Europeu (ECMWF), que projeta volumes entre 200 milímetros e 500 milímetros até o início de março. A combinação de ar muito quente com alta umidade, alimentada pela Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), cria uma faixa quase contínua de nuvens carregadas sobre o Norte e o Nordeste e avança em direção ao Sudeste.

A ZCIT é uma faixa de instabilidade que circunda o globo perto da linha do Equador, onde os ventos alísios dos dois hemisférios se chocam. Nesse corredor, o ar quente e úmido sobe com força, forma grandes nuvens do tipo cumulonimbus e produz pancadas de chuva frequentes e intensas. “Os acumulados podem ser excessivos em vários pontos, com risco de transtornos importantes para a população”, alerta o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, da MetSul.

Os maiores volumes se concentram em áreas sob influência direta da ZCIT, como Amapá, norte do Pará, Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. Capitais como Belém, São Luís e Fortaleza entram em um período de risco elevado de temporais, com chance de alagamentos recorrentes, queda de barreiras em encostas urbanas e transtornos no transporte público e no trânsito.

No mapa de chuva acumulada em 15 dias, disponibilizado pela MetSul com base no ECMWF, manchas em tons mais fortes se espalham pelo Norte, Nordeste e parte do Sudeste. Estados como Amazonas, Pará, Amapá, norte de Mato Grosso, norte de Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia aparecem entre os mais atingidos, com previsão de 150 milímetros a 300 milímetros em muitos municípios. Em áreas mais ao centro e ao norte do país, alguns pontos podem superar com folga essa faixa.

Minas Gerais segue em desastre e Vale do Rio Doce preocupa

Minas Gerais volta a aparecer no radar de risco elevado mesmo após semanas de chuvas fortes que já deixaram rastro de destruição na Zona da Mata. A previsão indica que a instabilidade persiste em várias regiões do estado, mas ganha força principalmente no Vale do Rio Doce e no norte mineiro, na divisa com a Bahia. A combinação de solo encharcado, relevo acidentado e mais água em pouco tempo aumenta a chance de novos deslizamentos de terra e transbordamentos de rios.

Autoridades de defesa civil monitoram com atenção trechos urbanos onde enxurradas costumam se formar em minutos. Em cidades médias e grandes, redes de drenagem sobrecarregadas tendem a falhar diante de acumulados que, em apenas 15 dias, podem alcançar a média de um mês inteiro ou até de uma estação. “Quando se fala em 300 milímetros em duas semanas, falamos de volumes que o sistema urbano não consegue absorver sem impacto”, explica Nachtigall.

No Norte e no Nordeste, a preocupação recai sobre áreas ribeirinhas e periferias em encostas, onde a ocupação é mais vulnerável e a infraestrutura, mais precária. Moradores de palafitas e de morros nas capitais litorâneas já convivem com o medo de deslizamentos e enchentes súbitas, cenário que tende a se agravar com a manutenção da ZCIT ativa até o começo de março. Em algumas cidades, a cheia dos rios pode atingir comunidades isoladas, interromper o acesso por estradas de terra e comprometer o abastecimento.

Os impactos não se limitam às moradias. Servidores municipais e estaduais trabalham com a perspectiva de transtornos na rede elétrica, em sistemas de abastecimento de água e na malha de transporte. Linhas de ônibus podem ser desviadas ou suspensas por alagamentos de corredores viários, enquanto trechos de rodovias federais e estaduais ficam sujeitos a quedas de barreiras e erosão do pavimento.

Enquanto Norte e Nordeste se preparam, Sul enfrenta trégua e incerteza

O contraste regional fica evidente quando se observa o comportamento previsto da chuva no Centro-Oeste e no Sul. No Mato Grosso, em especial no norte do estado, e no norte de Goiás, a tendência ainda é de volumes elevados, impulsionados pela mesma circulação de umidade que alimenta a ZCIT. No entanto, mais ao sul do país o cenário se inverte.

São Paulo, Mato Grosso do Sul e os três estados do Sul devem registrar gradativa diminuição da chuva entre o fim de fevereiro e o começo de março. A queda mais acentuada ocorre no Rio Grande do Sul, onde muitas cidades podem passar entre sete e dez dias praticamente sem precipitação. A pausa, que alivia o risco de enchentes, levanta outra preocupação: o impacto na agricultura e nos reservatórios de água, sobretudo se a estiagem se prolongar além da quinzena prevista.

No curto prazo, a atenção maior permanece nas áreas sob aviso de chuva intensa. Especialistas recomendam que prefeituras reforcem planos de contingência, revisem sirenes em áreas de risco e mantenham abrigos prontos para receber famílias desalojadas. Orientações simples, como evitar áreas alagadas, não se abrigar sob árvores durante tempestades e acompanhar alertas oficiais, ajudam a reduzir o risco individual.

As próximas duas semanas funcionam como um teste para a capacidade de resposta de estados e municípios diante de eventos extremos que se tornam mais frequentes. A sequência de volumes entre 200 milímetros e 500 milímetros em 15 dias em várias regiões do país expõe fragilidades urbanas e pressiona governos a antecipar medidas de adaptação. A dúvida que se impõe é se a estrutura de prevenção e alerta avança no mesmo ritmo em que as nuvens carregadas voltam a se formar sobre o mapa do Brasil.

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