Chuvas elevam nível do Arrudas, mas BH não tem risco de transbordar
A Defesa Civil de Belo Horizonte monitora de perto, nesta quinta-feira (22/1), o nível do Ribeirão Arrudas após horas de chuva intensa. O órgão afirma que, apesar da elevação na altura do Bairro São Geraldo, Região Leste, não há risco de transbordamento neste momento.
Monitoramento constante em dia de chuva extrema
O cenário às margens do Arrudas, na manhã desta quinta, é de atenção redobrada. As águas correm cheias na Região Leste, mas a Defesa Civil garante que o ribeirão e os demais cursos d’água da capital operam “dentro da sua capacidade operacional”. A mensagem oficial é de vigilância, não de pânico.
O órgão mantém equipes acompanhando em tempo real o comportamento dos ribeirões e córregos. A orientação é clara: se o quadro mudar, haverá bloqueio imediato de vias próximas para evitar acidentes e surpresas em pontos historicamente vulneráveis a enchentes. O objetivo é ganhar minutos preciosos caso o volume de água avance rápido demais.
Chuva em volume de mês em questão de dias
A tranquilidade relativa em relação ao risco de transbordamento contrasta com os números da chuva. A média climatológica de janeiro em Belo Horizonte é de 330,9 milímetros por regional. Só nesta quinta a previsão indica até 90 mm, o equivalente a 27% de todo o esperado para o mês em um único dia.
As contas da Defesa Civil são mais duras no horizonte imediato. A capital pode acumular entre 200 e 300 mm até sexta-feira (23/1), o que pressiona o sistema de drenagem e satura o solo em áreas de encosta. A empresa MetSul Meteorologia fala em alto risco de chuva forte a intensa até sábado (24/1), com possibilidade de episódios de precipitação torrencial.
O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) traduz o alerta em uma medida simples: 1 milímetro de chuva por minuto equivale a 1 litro de água em cada metro quadrado. Em uma pancada de 20 mm, são 20 litros de água despejados sobre cada pedaço de rua, telhado e encosta.
Os dados desta madrugada mostram o tamanho da pressão sobre a cidade. Até 5h30, a Região Oeste já havia acumulado 327,6 mm, o equivalente a 99% de toda a chuva estimada para o mês. O dia amanhece com céu encoberto, mínima de 15,7°C na estação Cercadinho e sensação térmica de 6,2°C, umidade acima de 80% e máxima que não deve passar dos 20°C.
Risco de deslizamentos cresce com solo encharcado
O foco imediato recai sobre o Arrudas, mas o maior temor dos técnicos, neste momento, está nos morros e encostas. Com o solo encharcado por dias seguidos de chuva, o risco de deslizamentos aumenta de forma silenciosa. A Defesa Civil já havia emitido, na terça-feira (20/1), um alerta para risco geológico em diferentes regiões, que agora é reforçado com o novo volume de precipitações.
Os parâmetros são objetivos. Avisos de risco moderado saem quando chove 50 mm ou mais em 48 horas. Alertas de risco forte são disparados quando o acumulado ultrapassa 70 mm em 72 horas. Ambos os cenários indicam chance real de deslizamentos e desabamentos em áreas vulneráveis.
Hoje há alerta moderado para as regionais Centro-Sul e Barreiro e alerta forte para Pampulha, Leste, Noroeste, Oeste, Norte, Nordeste, Venda Nova e Hipercentro, válido até segunda-feira (26/1). A lista inclui bairros densamente povoados, com moradias em encostas íngremes e margens de córregos, onde a combinação de chuva, solo frágil e ocupação antiga costuma cobrar um preço alto.
A recomendação oficial é direta. A população que vive em casas localizadas em áreas muito inclinadas ou suscetíveis a soterramento deve buscar um local seguro enquanto o período crítico persiste. Em caso de emergência, os canais são os tradicionais: Defesa Civil, pelo telefone 199, e Corpo de Bombeiros, pelo 193.
Impacto nas ruas e rotina sob ameaça
O aumento do nível do Arrudas e a previsão de chuva volumosa trazem efeitos práticos para o dia a dia de Belo Horizonte. A possibilidade de alagamentos em avenidas próximas aos ribeirões volta ao radar de motoristas e do poder público. Qualquer bloqueio de via em horário de pico tende a paralisar corredores já sobrecarregados, sobretudo na Região Leste.
Comércio de rua, transporte coletivo e serviços essenciais sentem o impacto direto de enchentes repentinas. Linhas de ônibus podem ser desviadas às pressas, entregas atrasam, escolas e unidades de saúde enfrentam dificuldade de acesso. Famílias em áreas de risco convivem com a rotina de vigília, prontas para deixar suas casas se a água subir ou se surgirem rachaduras em muros e pisos.
As bacias de contenção construídas nos últimos anos ajudam a reduzir o pico das cheias, mas têm limite físico. Quando a chuva se concentra em poucas horas, como prevê a Defesa Civil para esta quinta e sexta, o sistema fica mais perto da exaustão. O resultado costuma aparecer nas imagens de alagamentos e na corrida para resgatar pertences em bairros mais vulneráveis.
Próximos dias definem extensão dos danos
O desfecho desta sequência de dias chuvosos depende do que acontece até o fim de semana. Se a previsão de até 300 mm de chuva até sexta-feira se confirmar, Belo Horizonte pode encerrar a semana com mais de um mês de água em poucos dias em algumas regionais. O balanço final vai mostrar a eficiência das obras recentes de drenagem e contenção, mas também expor, mais uma vez, os pontos crônicos da cidade.
A Defesa Civil promete manter o monitoramento contínuo do Arrudas e de outros ribeirões, atualizar alertas geológicos e reforçar orientações à população. Moradores, por sua vez, voltam a desempenhar papel central, informando sinais de deslizamento, evitando áreas de risco e respeitando eventuais bloqueios. A pergunta que se impõe, diante de mais um episódio de chuva extrema, é até quando a cidade seguirá apostando apenas em ações emergenciais, em vez de enfrentar de forma estrutural a ocupação de áreas frágeis e a adaptação às novas condições climáticas.
