Chinês é preso no Quênia com quase 2,3 mil formigas rainhas
O cidadão chinês Zhang Kequn é preso em março de 2026 no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta, em Nairóbi, ao tentar levar para a China quase 2,3 mil formigas rainhas da espécie Messor cephalotes, protegida por tratados internacionais. As autoridades quenianas suspeitam que ele chefie uma rede global de tráfico desses insetos para o mercado de animais exóticos na Europa e na Ásia.
Flagra em aeroporto e suspeita de rede internacional
O flagrante acontece durante uma inspeção de segurança de rotina na área internacional do principal aeroporto do Quênia. Agentes identificam volumes incomuns na bagagem de mão de Zhang e, ao abrir as malas, encontram centenas de tubos de ensaio e rolos de papel higiênico cuidadosamente vedados. Dentro deles, estão centenas de formigas rainhas vivas.
Em audiência realizada na quarta-feira, 11 de março, o promotor Allen Mulama detalha o conteúdo da apreensão. “Dentro de sua bagagem pessoal, foram encontradas 1.948 formigas embaladas em tubos de ensaio especiais”, afirma ao tribunal. “Outras 300 formigas vivas foram encontradas escondidas em três rolos de papel higiênico dentro da bagagem”, acrescenta. Somadas, as cargas chegam a 2.248 formigas, todas da espécie Messor cephalotes, alvo recente de colecionadores europeus e asiáticos.
Zhang não se manifesta em juízo. Os investigadores afirmam, porém, que não se trata de um caso isolado. Documentos apresentados ao tribunal ligam o chinês a uma rede de tráfico de formigas desmantelada em 2025, também no Quênia. Segundo a acusação, ele seria o mentor do esquema e teria fugido do país no ano passado usando um passaporte diferente, após a prisão de quatro suspeitos em uma operação coordenada pelo Serviço de Vida Selvagem do Quênia (KWS).
O histórico pesa agora contra Zhang. Em maio de 2025, um tribunal queniano condena dois belgas, um vietnamita e um queniano a um ano de prisão ou ao pagamento de multa de US$ 7,7 mil, cerca de R$ 40 mil na cotação da época. Eles tentavam embarcar com milhares de formigas rainhas vivas. Na ocasião, o KWS descreve o caso como “histórico” e alerta para o surgimento de um novo tipo de tráfico de fauna, longe dos já conhecidos casos de marfim e chifres de rinoceronte.
Biodiversidade sob pressão e mercado de animais exóticos
A presa da vez é microscópica, mas o impacto é amplo. A espécie Messor cephalotes, conhecida por formar colônias complexas e escavar túneis profundos, ajuda a arejar o solo e espalhar sementes. Pesquisadores quenianos já classificam essas formigas como “ecologicamente importantes”. A retirada massiva de rainhas, que são as responsáveis pela fundação de novas colônias, pode comprometer a fertilidade do solo e afetar cadeias inteiras de alimentos.
O alerta não é novo. No ano anterior à prisão de Zhang, o KWS emite comunicado público sobre o aumento da demanda internacional por Messor cephalotes. Relatórios enviados a organismos multilaterais apontam compradores na Europa e na Ásia interessados em manter colônias inteiras como animais de estimação em terrários domésticos. Em audiências no tribunal, estrangeiros presos em 2025 declaram que tratam as formigas como “hobby” e afirmam não saber que o comércio é ilegal.
As formigas, porém, entram no radar dos mesmos tratados internacionais que protegem espécies emblemáticas da savana africana. A legislação queniana considera crime a coleta e a exportação não autorizada de espécies nativas, mesmo em pequena escala. A regra se baseia em acordos de biodiversidade que recomendam controle rigoroso sobre a saída de organismos que desempenham funções-chave em seus ecossistemas de origem.
O caso de Nairóbi expõe uma fronteira mais discreta do tráfico de vida selvagem. Em vez de contêineres e presas de grande porte, os agentes encontram tubos de ensaio e rolos de papel higiênico. O risco, segundo especialistas ouvidos por autoridades quenianas, é que o tráfico de formigas avance sem a mesma vigilância dedicada a marfim, escamas ou peles. A escala, ainda que pareça pequena em cada apreensão, pode causar um esvaziamento gradual de colônias inteiras em áreas específicas do país.
Investigações ampliadas e pressão por cooperação internacional
A prisão de Zhang leva o KWS e a promotoria a pedir novas medidas de investigação. O Ministério Público solicita ao tribunal autorização para periciar o celular e o laptop do suspeito. A expectativa é rastrear contatos em outras cidades quenianas, onde há indícios de coleta sistemática de formigas, e identificar compradores em outros continentes. O tribunal autoriza a detenção de Zhang por mais cinco dias, prazo que investigadores consideram crucial para avançar sobre a suposta rede.
Duncan Juma, alto funcionário do KWS, afirma à BBC que “devem ser feitas mais prisões” nas próximas semanas. A fala indica que as autoridades tratam a operação como peça de um quebra-cabeça maior. A suspeita é de que coletores locais recebam valores baixos por formigas capturadas em áreas rurais, enquanto intermediários no exterior revendem colônias por preços muito superiores em plataformas especializadas e mercados de animais exóticos.
O desenrolar do caso pode pressionar governos da Europa e da Ásia a rever regras de importação de invertebrados vivos e reforçar a cooperação com países africanos em investigações de fauna. O histórico recente mostra que o comércio de espécies aparentemente inofensivas costuma crescer em nichos pouco regulados, até chamar atenção de autoridades ambientais. A disputa agora se dá em torno de um inseto de poucos milímetros, que movimenta colecionadores em diferentes fusos e coloca em jogo a saúde do solo queniano.
As próximas decisões judiciais em Nairóbi vão definir não apenas o destino de Zhang Kequn, mas também o recado que o Quênia envia a traficantes de vida selvagem em escala industrial ou microscópica. Em um cenário de aquecimento global e perda acelerada de habitats, o julgamento de um homem e de suas 2.248 formigas rainhas passa a testar, em miniatura, a capacidade dos países de proteger sua biodiversidade diante de um mercado global cada vez mais voraz.
