China registra em 2025 menor número de nascimentos da história
A China registra em 2025 o menor número de nascimentos de sua história recente, em meio a mudanças sociais e econômicas profundas. O país soma apenas 7,92 milhões de bebês no ano, com taxa de 5,63 partos por mil habitantes, e enfrenta um desafio demográfico que redefine seu futuro.
Sociedade em transformação e famílias menores
O novo patamar da natalidade consolida uma virada demográfica que se desenha há anos, mas agora se torna impossível de ignorar em Pequim. As famílias chinesas encolhem, o custo de vida nas grandes cidades sobe e a ideia de ter um único filho ou nenhum se torna comum entre jovens casais urbanos.
Especialistas descrevem 2025 como um ponto de inflexão. A taxa de 5,63 nascimentos por mil habitantes coloca a China entre os países com menor ritmo de renovação populacional do mundo, em contraste com o passado recente em que o país crescia rápido e jovem. A combinação de salários pressionados, jornadas longas, moradias caras e competição intensa no sistema educacional pesa nas decisões individuais.
Em grandes centros como Pequim, Xangai e Shenzhen, casais relatam que a escolha de adiar ou desistir da maternidade e da paternidade deixa de ser tabu. Uma pesquisadora de política social em Xangai resume o clima: “Muitos jovens não rejeitam a ideia de família, rejeitam a conta que ela traz”. A frase captura o cruzamento entre aspirações de mobilidade social, excesso de trabalho e falta de apoio público amplo.
Pressão sobre economia, trabalho e bem-estar social
O impacto do novo mínimo de nascimentos se espalha pela economia chinesa. Com menos crianças entrando no sistema, o país vê à frente uma força de trabalho em declínio e uma população idosa em expansão acelerada. Essa combinação lembra o caminho seguido por economias desenvolvidas, mas em escala muito maior e em ritmo mais rápido.
A queda de natalidade ameaça a base de contribuintes que sustenta a previdência e os serviços de saúde. Projeções de consultorias locais indicam crescimento da proporção de idosos acima de 65 anos nas próximas décadas, enquanto a população em idade ativa encolhe. Para empresas que dependem de mão de obra intensiva, o cenário aponta para custos trabalhistas mais altos e necessidade de automação.
O consumo interno, pilar que Pequim tenta fortalecer para reduzir a dependência de exportações, também sente os efeitos. Menos nascimentos significam menos demanda futura por produtos e serviços ligados à infância, da indústria de fraldas ao setor educacional privado. Um economista em Pequim define o dilema: “A China envelhece antes de ficar rica o suficiente para sustentar esse envelhecimento”.
No cenário internacional, a retração do potencial de crescimento da segunda maior economia do mundo preocupa parceiros comerciais. A expectativa de um mercado de trabalho mais enxuto e de expansão mais lenta pode alterar cadeias produtivas e decisões de investimento global. A China, que por décadas se apresenta como motor da economia mundial, passa a lidar com o peso de uma demografia que não acompanha a ambição econômica.
Resposta do governo e incertezas à frente
O governo chinês já abandona há alguns anos a antiga política do filho único e agora tenta, em sentido oposto, incentivar nascimentos. Autoridades discutem novas medidas financeiras e de apoio direto às famílias, como subsídios, redução de custos de creches, ampliação de licenças parentais e políticas de habitação mais favoráveis a casais jovens. “Sem um aumento da natalidade, teremos de redesenhar todo o modelo de proteção social”, admite um acadêmico próximo a formuladores de políticas em Pequim.
O desafio não se limita a criar programas, mas a mudar expectativas e hábitos formados ao longo de décadas. A geração que cresce sob forte controle de natalidade aprende a valorizar famílias pequenas e foco na carreira, em um ambiente onde segurança financeira parece cada vez mais distante. Reformas que tentam reverter essa mentalidade esbarram em desconfiança e na percepção de que o Estado chega tarde com soluções.
Nos próximos anos, a China deve combinar esforços para estimular nascimentos com uma adaptação a um país mais velho, investindo em saúde, tecnologia assistiva e novas formas de organização do trabalho. A dúvida central permanece aberta: os incentivos serão suficientes para convencer milhões de jovens a apostar em famílias maiores ou o país entrará em um ciclo prolongado de baixa natalidade e crescimento moderado? A resposta vai moldar não apenas o futuro chinês, mas também o ritmo da economia global nas próximas décadas.
