China encontra nanotubos de carbono no lado oculto da Lua
A sonda chinesa Chang’e 6 confirma, em 8 de fevereiro de 2026, a presença natural de nanotubos de carbono e carbono grafítico no lado oculto da Lua. A análise das amostras também indica uma atividade geológica mais intensa do que se estimava na região.
Lado oculto da Lua revela um ambiente mais violento
O anúncio, feito pela Administração Nacional do Espaço da China (CNSA), reforça a imagem do lado oculto da Lua como um laboratório extremo do Sistema Solar. Em uma área que nunca aponta para a Terra e permanece fora do alcance direto de telescópios, o solo guarda sinais de processos violentos, como impactos de micrometeoritos e antigas erupções vulcânicas.
As amostras foram coletadas pela Chang’e 6 durante uma missão de retorno à Terra, planejada ao longo de vários anos e executada em uma janela estreita de oportunidades orbitais. No laboratório, pesquisadores aplicam técnicas microscópicas e espectroscópicas para decompor o material em seus detalhes mais finos, átomo por átomo.
É nesse nível que surgem os nanotubos de carbono de parede única, estruturas cilíndricas com diâmetro de poucos bilionésimos de metro, até então vistas principalmente em laboratórios de alta tecnologia na Terra. Ao lado deles aparece carbono grafítico, uma forma organizada de carbono parecida com o grafite usado em lápis, mas formada em condições de temperatura e pressão muito diferentes.
Segundo a CNSA, essa combinação de estruturas indica que o lado oculto da Lua vive, ou viveu por longos períodos, sob um bombardeio contínuo de energia. O vento solar, composto por partículas carregadas emitidas pelo Sol, e a radiação cósmica, somados ao impacto constante de grãos de poeira espacial, criam um ambiente capaz de remodelar o carbono presente no solo.
Materiais complexos, pistas novas sobre a história lunar
Pesquisadores envolvidos no estudo afirmam que esse cenário extremo explica o surgimento espontâneo dos nanotubos e do carbono grafítico. “Essas estruturas podem se formar sem qualquer intervenção artificial, apenas pela energia liberada em impactos e pela exposição prolongada ao vento solar”, afirma um dos cientistas ligados ao programa Chang’e.
A constatação tem peso simbólico e prático. Na Terra, nanotubos de carbono servem em baterias, dispositivos eletrônicos e materiais ultrarresistentes. Na Lua, a importância agora é outra: mostrar que ambientes extraterrestres conseguem gerar, por conta própria, materiais de alta complexidade. Isso obriga astrônomos e geólogos a rever a escala do que é possível fora do planeta.
Os dados da Chang’e 6 se somam a mais de meio século de exploração lunar, iniciado com a Apollo 11, em 1969, e seguido por missões de Estados Unidos, União Soviética, Europa, Índia, Japão e, mais recentemente, da própria China. Nenhuma delas, porém, havia trazido para análise tão clara a presença de nanotubos de carbono produzidos naturalmente.
Ao revelar uma atividade geológica mais intensa no lado oculto, o estudo também reforça a ideia de que os dois hemisférios da Lua viveram histórias diferentes. A face visível, recortada por mares de lava solidificada, mostra sinais de vulcanismo antigo mais bem documentados. O lado oculto, observado de perto apenas nas últimas décadas, parece guardar cicatrizes de impactos mais frequentes e de uma crosta mais espessa.
“Estamos começando a entender por que a Lua mostra dois rostos tão distintos”, avalia outro integrante da equipe. Para ele, a presença dos nanotubos funciona como marcador físico dessa trajetória desigual, associada a condições locais únicas de pressão, temperatura e exposição à radiação ao longo de bilhões de anos.
Corrida científica por recursos e novas missões
A descoberta chega em um momento de disputa crescente por território científico e tecnológico no espaço. Nos próximos dez anos, China, Estados Unidos, Índia e parceiros europeus planejam novas missões à Lua, muitas delas com foco no lado oculto, que oferece condições favoráveis para telescópios de rádio e para estudos do ambiente espacial distante da interferência terrestre.
Ao mostrar que a região produz materiais de carbono complexos, a Chang’e 6 amplia o interesse por pesquisas sobre recursos extraterrestres. Não se trata, por enquanto, de extrair nanotubos lunares para uso industrial, mas de entender quais processos naturais podem inspirar novas tecnologias de materiais e energia na Terra.
Para a China, o resultado reforça a estratégia de usar o programa lunar como vitrine científica e diplomática. A confirmação publicada em 8 de fevereiro de 2026 deve alimentar convites para cooperação internacional em futuras etapas da série Chang’e e em bases robóticas planejadas para a próxima década. Cada dado sobre a diferença entre os dois lados da Lua entra nas negociações por parcerias, financiamento e acesso a instrumentos de ponta.
Os cientistas envolvidos destacam que o trabalho está no início. As mesmas amostras ainda podem revelar outros compostos formados sob condições extremas, com implicações para a astrobiologia, área que estuda a possibilidade de vida fora da Terra. Se materiais complexos surgem naturalmente na Lua, aumenta a chance de processos químicos ainda mais sofisticados ocorrerem em Marte, em luas de Júpiter e Saturno ou em asteroides ricos em carbono.
Próximo capítulo da exploração lunar
Os próximos passos incluem medições mais detalhadas da idade das camadas de solo que contêm os nanotubos e o carbono grafítico. A ideia é relacionar essas estruturas a episódios específicos da história lunar, como períodos de vulcanismo intenso ou fases de bombardeio de meteoritos mais forte, ocorridos há bilhões de anos.
A CNSA indica que os resultados da Chang’e 6 vão orientar o pouso de futuras sondas em áreas ainda mais remotas do lado oculto, em busca de gradientes de temperatura e composição que ajudem a refinar os modelos geológicos. A comunidade internacional acompanha com atenção. Em um satélite aparentemente silencioso, a nova evidência de atividade geológica intensa e de química complexa reabre uma questão antiga: até onde a Lua ainda guarda segredos capazes de redesenhar o mapa do Sistema Solar?
