China barra acordo nuclear trilateral e reacende risco de corrida
China, Estados Unidos e Rússia entram em fevereiro de 2026 sem qualquer tratado ativo de controle de armas nucleares. A proposta americana de um acordo trilateral naufraga diante da recusa de Pequim em limitar seu próprio arsenal. O vácuo jurídico devolve o mundo a uma lógica de desconfiança e cálculo de sobrevivência estratégica.
O fim do Novo Start e a aposta americana
Na primeira semana de fevereiro, expira o Novo Start, último tratado que ainda restringe os arsenais estratégicos de Washington e Moscou. O acordo limitava a cerca de 1.550 ogivas estratégicas implantadas e previa inspeções presenciais em bases e silos, algo impensável durante boa parte da Guerra Fria. Sem renovação, esses limites deixam de existir e as duas maiores potências atômicas ganham liberdade para ajustar suas forças como bem entenderem.
Donald Trump assume o risco calculado. Em vez de aceitar uma prorrogação do tratado nos moldes atuais, o governo americano decide deixar o Novo Start morrer. A Casa Branca anuncia que persegue um objetivo maior: costurar um pacto trilateral que inclua a China e coloque sob o mesmo guarda-chuva regulatório algo em torno de 90% das armas nucleares do planeta. O projeto parece ambicioso, quase reformador da ordem estratégica. Na prática, porém, esbarra na recusa firme de Pequim em congelar um arsenal que ainda considera modesto.
A recusa chinesa e a lógica da assimetria
O cálculo chinês parte de uma conta simples. Estados Unidos e Rússia mantêm hoje cerca de 1.700 ogivas estratégicas implantadas cada um, além de milhares em reserva, prontas para remontagem e uso. A China opera algo entre 600 e 650 ogivas, segundo estimativas independentes baseadas em inteligência de imagens e dados de testes de mísseis. Aceitar um limite agora significaria cristalizar uma desvantagem que o Partido Comunista considera inaceitável em um ambiente de rivalidade estrutural com Washington.
Imagens de satélite colhidas nos últimos anos mostram a construção de aproximadamente 320 novos silos de mísseis balísticos em áreas desérticas do oeste chinês. Nem todos precisam abrigar mísseis carregados para alterar o equilíbrio. Silos vazios obrigam o adversário a desperdiçar ogivas e vetores em qualquer plano de ataque, aumentando a incerteza e fortalecendo a capacidade de dissuasão de Pequim. O míssil DF-41, principal aposta da força de foguetes chinesa, alcança alvos intercontinentais e pode carregar múltiplas ogivas, o que multiplica o poder destrutivo de cada lançamento.
O reforço não se limita à terra firme. A Marinha chinesa já opera seis submarinos lançadores de mísseis nucleares e desenvolve modelos mais silenciosos, capazes de se esconder melhor dos sonares americanos. Na Força Aérea, um bombardeiro furtivo de longo alcance segue em testes, sinal de que a liderança em Pequim busca uma tríade nuclear completa, com vetores em terra, mar e ar. Quem acompanha a estratégia chinesa lê esses movimentos como aposta em paridade futura, não em contenção negociada.
A cultura política chinesa também pesa. Transparência e inspeções intrusivas, vistas no Ocidente como instrumentos de confiança mútua, são percebidas pelo regime de Xi Jinping como potenciais ameaças à segurança do Estado e à estabilidade interna. A suspensão de diálogos técnicos com Washington, em meio a crises políticas envolvendo Taiwan e sanções tecnológicas, reforça a mensagem de que não há clima para concessões significativas. Se Pequim interrompe até conversas entre especialistas, a disposição para abrir bases, silos e submarinos a inspetores estrangeiros parece distante.
Um mundo nuclear sem réguas nem trilhos
A ausência de um acordo trilateral não é apenas um fracasso diplomático americano. Ela redefine, para pior, o ambiente estratégico global em um momento em que se discute o uso de inteligência artificial em sistemas de alerta e tomada de decisão militar. Sem o Novo Start, não existe teto formal para a quantidade de ogivas operacionais de EUA e Rússia. Cada lado passa a calibrar suas forças com base em percepções de ameaça, orçamentos e disputas políticas internas. A cada movimento de um, cresce a suspeita do outro.
O planeta ainda abriga por volta de 12 mil ogivas nucleares, distribuídas entre nove países, número suficiente para destruir grandes cidades em todos os continentes várias vezes. Tratados como o Novo Start não eliminam essa realidade, mas criam rotinas que reduzem o risco de erro. Inspeções presenciais, troca regular de dados sobre lançamentos de testes e linhas diretas entre militares ajudam a evitar que um exercício seja confundido com ataque real ou que um alarme falso leve a decisões irreversíveis em minutos.
O avanço da automação agrava o quadro. Algoritmos de análise de imagens de satélite, radares e comunicações aumentam a velocidade de detecção de supostas ameaças. Quanto mais rápido chega o alerta, maior a pressão para responder sem checagem humana demorada. Em um ambiente de baixa confiança, um erro de software, um ciberataque ou uma leitura equivocada de dados podem empurrar líderes a decisões tomadas em segundos. Em um sistema nuclear, segundos demais podem ser exatamente o problema.
A decisão americana de abandonar limites verificáveis com Moscou na esperança de um pacto mais abrangente com Pequim produz o efeito oposto ao discurso de prudência. Em vez de somar a China a um regime de controle imperfeito, mas funcional, Washington e Moscou abrem mão do que ainda funcionava sem ter em mãos um substituto crível. Em vez de mais previsibilidade, multiplicam cenários de incerteza.
Longo prazo com a China, curto prazo com a Rússia
Especialistas em controle de armas e política chinesa defendem uma estratégia menos grandiosa e mais graduada. Incluir Pequim em um regime robusto de inspeções, limites e transparência é objetivo de longo prazo, que exige paciência diplomática, estabilidade política e incentivos econômicos. Antes disso, argumentam, Washington e Moscou poderiam ter renovado o Novo Start por mais cinco anos, mantido as inspeções em curso e ampliado medidas de redução de risco, como notificações obrigatórias de exercícios e consultas bilaterais de crise.
Na frente sino-americana, diplomatas sugerem construir degraus menores: retomada dos diálogos técnicos suspensos, acordos de não interferência em sistemas de alerta precoce, códigos de conduta para mísseis em regiões sensíveis como o mar do Sul da China e mecanismos de emergência para incidentes com submarinos e bombardeiros. São passos limitados, mas que geram familiaridade entre militares e negociadores, pré-condição para qualquer pacto mais ambicioso no futuro.
O fracasso imediato da proposta americana de um grande acordo trilateral não encerra a discussão, apenas expõe o tamanho da distância entre discurso e realidade. Enquanto a China insiste em ampliar seu arsenal até se sentir em posição mais confortável e EUA e Rússia voltam a operar sem réguas formais, o mundo entra em uma fase de teste de limites. A pergunta que se impõe, e ainda não encontra resposta, é se as potências conseguirão reconstruir algum tipo de freio antes que a próxima crise grave mostre o preço de viver sem ele.
