Chefe do Rioprevidência deixa cargo após operação da PF em caso Master
O presidente do Rioprevidência renuncia ao cargo nesta sexta-feira (23), após ser alvo de operação da Polícia Federal ligada ao Caso Master. No mesmo dia, uma mulher é internada em Minas Gerais depois de usar uma caneta emagrecedora ilegal, em episódio que acende novo alerta sobre riscos à saúde.
Pressão política no Rio e alerta sanitário em Minas
A saída do comando do fundo de previdência dos servidores do Rio ocorre menos de 24 horas após a deflagração de uma nova fase da investigação federal. A operação mira suspeitas de corrupção e desvio de recursos públicos associados ao esquema conhecido como Caso Master, que já expõe fragilidades na governança de estatais e fundos públicos desde 2024.
No Rio, a renúncia é recebida como um gesto de tentativa de contenção de danos ao governo estadual e aos cerca de 260 mil segurados do Rioprevidência, entre ativos, inativos e pensionistas. A Polícia Federal cumpre mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao dirigente e a intermediários financeiros que, segundo investigadores, teriam atuado em operações de alto risco com títulos lastreados em receitas do estado.
A investigação se ancora em movimentações de dezenas de milhões de reais em contratos firmados ao longo de pelo menos três anos. Relatórios preliminares de órgãos de controle apontam que parte dessas operações pode ter sido usada para encobrir perdas ligadas a negócios com o Banco Master, já sob escrutínio da PF por emissão e negociação de créditos considerados irregulares.
Em nota breve, divulgada no início da tarde, o agora ex-presidente do Rioprevidência afirma que deixa o cargo para “não prejudicar o avanço das apurações” e sustenta que as decisões adotadas à frente do fundo seguiram “critérios técnicos e legais”. Até o início da noite, o governo do Rio não anuncia substituto definitivo e informa que um diretor da casa assume interinamente.
Enquanto o tabuleiro político se movimenta no Rio, o foco da saúde pública se volta a Minas Gerais. Em uma cidade do interior mineiro, uma mulher de 32 anos é internada em estado grave após o uso de uma caneta emagrecedora sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A família relata que ela aplicou o produto por cerca de dez dias, comprando a caneta por meio de redes sociais por menos de R$ 300.
Segundo médicos ouvidos pela reportagem, a paciente apresenta quadro de insuficiência renal aguda e alterações cardíacas compatíveis com intoxicação por substâncias usadas de forma irregular para perda de peso rápida. O hospital confirma a internação, mas não divulga boletim detalhado a pedido dos familiares.
Dinheiro público em risco e mercado de drogas milagrosas
O Caso Master se torna sinônimo de risco ao patrimônio público desde que, em 2025, operações da PF desvendam a compra de carteiras de crédito consideradas sem lastro por instituições ligadas a governos. No centro das apurações está a suspeita de que bancos públicos e fundos estaduais, como o Rioprevidência, teriam assumido títulos de difícil cobrança em operações que somam bilhões de reais.
Documentos sob análise de auditores apontam que contratos firmados entre 2022 e 2025 podem ter comprometido receitas futuras do fundo de previdência fluminense por mais de uma década. Procuradores que acompanham o caso avaliam se houve gestão temerária, quando dirigentes assumem riscos desproporcionais com dinheiro público. “Há indícios de que operações complexas foram usadas para mascarar perdas e favorecer grupos específicos do mercado financeiro”, afirma, sob reserva, um integrante de órgão de controle envolvido na investigação.
Especialistas em previdência pública calculam que, se confirmados os indícios mais graves, o rombo potencial no Rioprevidência pode passar da casa dos R$ 500 milhões ao longo dos próximos anos, considerando juros e correções. O número ainda é preliminar e depende da reavaliação de cada contrato sob suspeita, mas já preocupa associações de servidores, que cobram transparência imediata do governo estadual.
No campo da saúde, o caso da caneta emagrecedora mineira expõe outra face da fragilidade regulatória. O produto usado pela paciente não consta entre os medicamentos aprovados pela Anvisa, mas circula livremente em perfis de influenciadores digitais e grupos fechados de venda, com promessas de perda de até 10 quilos em um mês. “Essas canetas ilegais misturam substâncias em dosagens desconhecidas, muitas vezes associando hormônios e estimulantes cardíacos”, explica o endocrinologista Marcelo Ribeiro, professor em Belo Horizonte. “O resultado pode ser arritmia, falência de órgãos e morte súbita.”
Dados da própria Anvisa registram alta nas apreensões de medicamentos irregulares voltados ao emagrecimento: o volume cresce mais de 40% entre 2023 e 2025. Em paralelo, conselhos de medicina acumulam denúncias sobre prescrição irresponsável de remédios para perda de peso, inclusive por profissionais que atuam quase exclusivamente em plataformas digitais, em consultas de poucos minutos.
Instituições em xeque e próximos passos
A renúncia no Rioprevidência abre espaço para uma disputa silenciosa pelo comando de um fundo que administra bilhões em contribuições de servidores e repasses do estado. A escolha do novo presidente, prevista para as próximas semanas, deve testar o compromisso do governo fluminense com a blindagem técnica da autarquia. Organizações de aposentados defendem a indicação de um nome com histórico em gestão previdenciária e sem vínculos diretos com o mercado alvo das investigações.
No front judicial, a PF planeja novas oitivas e análises de mensagens apreendidas em celulares e computadores recolhidos na operação desta semana. Procuradores não descartam pedir o bloqueio de bens de ex-dirigentes para garantir eventual ressarcimento de danos. Uma possível ação civil pública, caso confirmadas as irregularidades, pode se arrastar por anos, enquanto servidores acompanham com apreensão o impacto sobre o equilíbrio atuarial do fundo.
Em Minas, autoridades sanitárias prometem intensificar fiscalizações em farmácias, clínicas estéticas e pontos suspeitos de distribuição de produtos clandestinos. Secretarias municipais de saúde discutem com o estado uma campanha emergencial de orientação sobre canetas e cápsulas para emagrecer, com foco em jovens e mulheres que recorrem a atalhos perigosos em busca de resultados rápidos.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o combate aos dois problemas — a corrupção em fundos públicos e o mercado de drogas milagrosas — passa pelo mesmo eixo: transparência e responsabilização. Sem regras claras, fiscalização constante e punição efetiva, o risco recai sobre o contribuinte que banca a previdência e sobre o paciente que acredita em soluções fáceis.
As próximas semanas dirão se a saída do presidente do Rioprevidência marca uma mudança estrutural na gestão do dinheiro dos servidores ou apenas mais um capítulo de substituições sem reformas profundas. No campo da saúde, a evolução do quadro da paciente mineira e a reação das autoridades à explosão das canetas emagrecedoras ilegais indicarão se o país está disposto a tratar o tema como questão de segurança pública, e não apenas como moda de rede social.
