Chefe do Parlamento iraniano diz que Trump ameaça petróleo e interesses dos EUA
O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad-Bagher Ghalibaf, afirma neste 8 de março de 2026 que Donald Trump está destruindo os interesses dos Estados Unidos. Em mensagem na rede social X, ele responsabiliza o ex-presidente americano e o premiê israelense Benjamin Netanyahu pela continuidade da guerra e alerta para um risco direto ao mercado global de petróleo.
Alerta público em meio à escalada da guerra
Ghalibaf escolhe o X, antigo Twitter, para levar o recado a um público global, em um momento em que a guerra no Oriente Médio se arrasta há meses. A mensagem, publicada em plena tarde em Teerã, mira a estratégia americana na região e associa as decisões de Trump ao que ele chama de “ilusões” de Benjamin Netanyahu. Para o dirigente iraniano, o prolongamento dos combates não atinge apenas rivais declarados do Irã, mas ameaça a estrutura econômica que sustenta o comércio internacional de energia.
Na postagem, Ghalibaf escreve que, se o conflito seguir no ritmo atual, o choque será inevitável. “Se a guerra continuar assim, não haverá como vender petróleo nem capacidade para produzi-lo”, afirma. O aviso tem peso especial porque parte de um país que detém cerca de 9% das reservas provadas de petróleo do planeta e depende do setor para financiar boa parte de seu orçamento público. A declaração ecoa em mercados que, desde 2022, convivem com sucessivas crises de oferta, primeiro ligadas à invasão da Ucrânia pela Rússia e, depois, à escalada de tensões no Golfo Pérsico.
O parlamentar vai além do diagnóstico econômico e faz uma acusação política direta. “Eles não estão apenas destruindo os interesses dos Estados Unidos, mas também os interesses dos países da região e do mundo, por conta das ilusões de Netanyahu”, escreve. Ao usar o plural, ele inclui Trump e o atual governo israelense em um mesmo campo de responsabilidade pela deterioração da segurança no Oriente Médio. Na visão iraniana, esse alinhamento alimenta a guerra e empurra potências globais para um jogo de soma zero no qual todos perdem.
Petróleo em risco e efeitos em cadeia na economia global
O tom alarmista de Ghalibaf dialoga com uma realidade concreta: a economia mundial ainda depende de combustíveis fósseis para mais de 80% de sua matriz energética, e o Oriente Médio responde por cerca de um terço da produção diária de petróleo. Qualquer ameaça à extração ou ao fluxo de barris por rotas estratégicas, como o Estreito de Ormuz, tende a pressionar preços e expor a fragilidade de cadeias produtivas em todos os continentes. Em 2022, uma alta de cerca de 40% no barril em poucos meses foi suficiente para acelerar a inflação em economias avançadas e derrubar projeções de crescimento.
No cenário descrito pelo presidente do Parlamento iraniano, a continuidade da guerra pode levar a interrupções físicas na produção, ataques a instalações de refino e bloqueios a terminais de exportação. Países importadores líquidos de petróleo, como Brasil, Índia e nações europeias, sentem o impacto de forma quase imediata em combustíveis, fretes e alimentos. O custo do barril influencia diretamente o preço do diesel que move caminhões, navios e máquinas agrícolas, com reflexo na inflação ao consumidor meses depois. Investidores passam a buscar ativos considerados seguros, como dólar e títulos do Tesouro americano, o que amplia a volatilidade cambial em economias emergentes.
A crítica de Ghalibaf a Trump se apoia também em um acúmulo de decisões passadas. Nos últimos anos em que ocupou a Casa Branca, o republicano rompeu o acordo nuclear com o Irã, endureceu sanções ao setor energético iraniano e se alinhou estreitamente ao governo Netanyahu. Cada um desses movimentos ajudou a estreitar o espaço para negociações diplomáticas e alimentou a percepção, em Teerã, de que Washington prioriza alianças militares em detrimento da estabilidade do mercado de energia. Agora, com a guerra aberta, o dirigente iraniano tenta reposicionar o debate ao ligar diretamente essa estratégia ao bolso de consumidores e empresas em todo o mundo.
Tensão diplomática e pressão por saída negociada
A declaração pública do presidente do Parlamento iraniano agrava um quadro já sensível de tensão entre Teerã, Washington e aliados ocidentais. Ao responsabilizar Trump e Netanyahu pela destruição dos “interesses dos Estados Unidos”, Ghalibaf tenta falar também a uma audiência interna americana, sugerindo que a atual condução da guerra pode custar caro ao próprio eleitorado dos Estados Unidos. A acusação reforça a disputa narrativa em torno de quem é culpado pela escalada e de quem responde, no fim da cadeia, pela conta energética mundial.
Diplomatas na região avaliam que mensagens como a de Ghalibaf aumentam a pressão sobre potências intermediárias, como União Europeia, China e Rússia, para que busquem uma mediação capaz de conter danos antes que o mercado de petróleo entre em colapso. Governos que dependem de importações para abastecer frotas, indústrias e usinas térmicas passam a revisar estoques estratégicos, contratos de longo prazo e investimentos em fontes alternativas. A cada nova declaração, o espaço para recuos discretos diminui, e qualquer gesto de diálogo tende a ser examinado com lupa por aliados e adversários.
O aviso lançado no X deixa no ar perguntas que nenhum país consegue ignorar por muito tempo. Quanto tempo o mercado global suporta uma guerra prolongada em uma das regiões mais sensíveis para o petróleo? Até que ponto líderes políticos estarão dispostos a absorver o custo de energia mais cara, crescimento mais fraco e inflação mais alta em pleno ano eleitoral em várias economias centrais? Enquanto essas respostas não aparecem, a fala de Ghalibaf funciona como lembrete de que, em conflitos no Oriente Médio, a fronteira entre cálculo militar e choque econômico é cada vez mais estreita.
