Chefe do BC atrasou documentos que embasariam prisão de dono do Banco Master
O então chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, Belline Santana, atrasa por semanas o envio de documentos à Polícia Federal em outubro de 2025. A papelada sustenta o pedido de prisão do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, detido pela primeira vez em 17 de novembro daquele ano. Belline agora é alvo de suspeita de cooptação e de ter atuado para obstruir a investigação.
Suspeita de cooptação no coração do Banco Central
Belline ocupa, à época, um posto estratégico em Brasília. Seu departamento supervisiona a saúde de bancos, acompanha o risco das instituições e alimenta outras áreas do Banco Central com informações sensíveis. É ele quem recebe dos investigadores, em outubro, a demanda por uma série de relatórios e dossiês sobre o Banco Master para instruir o pedido de prisão de Vorcaro e outras medidas cautelares.
Fontes que acompanham a tramitação dos pedidos relatam que, em vez de responder com rapidez, Belline segura os documentos por algumas semanas. O atraso preocupa a equipe da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, que preparava a primeira fase da Operação Compliance Zero, voltada a apurar irregularidades no Master e suposto pagamento de propina a servidores públicos. Só depois de avisos explícitos de que poderia ser responsabilizado judicialmente ou sofrer advertência interna, ele manda o material.
Os investigadores veem nesse comportamento um sinal de obstrução. O episódio ganha peso porque não se trata de um técnico qualquer. O Banco Central havia destacado Belline como um dos principais interlocutores com a PF e o MPF sobre o caso Master. Ele participa de reuniões formais, senta à mesa como representante da autarquia e é tratado como peça-chave para a cooperação entre órgãos.
Enquanto cumpre esse papel oficial, mantém, segundo a investigação, uma vida paralela. Interage com o próprio Vorcaro em um grupo de WhatsApp, no qual também participa outro servidor do BC. Marca encontros reservados com o dono do Master, fala com ele por telefone e, em conversas citadas pelos autos, ajuda na elaboração de documentos de defesa a serem apresentados ao Banco Central.
Mensalinho, bastidores e impacto sobre a confiança nas instituições
O caso estoura em 2026, com a terceira fase da Operação Compliance Zero. Belline e o ex-diretor do Banco Central Paulo Sérgio Souza passam a ser investigados por suposto recebimento de propina e por favorecer o grupo de Vorcaro na relação com o órgão regulador. Os dois são alvos de mandados de busca e apreensão e passam a usar tornozeleira eletrônica por ordem judicial.
Em decisão que autoriza a operação, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, descreve a atuação de Belline como uma espécie de consultoria clandestina ao empresário. “Os elementos reunidos nas investigações indicam que BELLINE SANTANA prestava consultoria estratégica ao investigado, discutindo temas relacionados à situação regulatória do Banco Master, fornecendo orientações acerca da condução de processos administrativos e participando de tratativas voltadas à definição de estratégias institucionais do banco Master perante o Banco Central”, escreve o ministro.
Mendonça registra ainda a preocupação com o padrão de comunicação adotado pelo servidor. “Em diversas ocasiões, o investigado solicitava contato telefônico para tratar de assuntos sensíveis, indicando a intenção de evitar o registro escrito das comunicações”, afirma na decisão. O comportamento, para investigadores, reforça a hipótese de que o então chefe de supervisão tenta driblar os mecanismos formais de controle na relação com Vorcaro.
A suspeita central é de que dirigentes do Banco Central recebiam pagamentos mensais, espécie de mesada, para ajudar o Banco Master a driblar a fiscalização. A PF aponta a existência de uma quadrilha infiltrada na autarquia, com ramificações em diferentes áreas. A diretoria de Fiscalização, então comandada por Ailton de Aquino e à qual Belline é subordinado, vira um dos focos da disputa interna.
Relatos de bastidores descrevem um clima de “guerra civil” dentro do BC entre grupos que resistem ao avanço das investigações e técnicos que pressionam por transparência. A suspeita de infiltração atinge o coração da regulação bancária num momento em que o sistema financeiro brasileiro administra trilhões de reais em depósitos e crédito e depende da confiança do público e dos mercados.
Vorcaro é preso pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, quando tenta deixar o País em um jatinho particular. Fica 11 dias detido e é solto, mas volta para a cadeia em 4 de março de 2026, também por decisão de Mendonça. O vaivém judicial mantém o caso no centro do debate sobre a eficácia do combate à corrupção financeira e a capacidade do Estado de enfrentar empresários influentes.
Pressão por reformas e próximos passos da investigação
A revelação de que um servidor de alto escalão atrasa o envio de documentos decisivos amplia a pressão por mudanças na governança do Banco Central. Especialistas em regulação veem risco de dano duradouro à imagem de independência da instituição, aprovada em lei em 2021 e apontada como pilar da estabilidade econômica. A cooperação com órgãos de controle, que deveria ser automática, passa a ser escrutinada caso a caso.
Na prática, o episódio reacende discussões sobre controles internos, rodízio de cargos sensíveis, monitoramento de conflitos de interesse e portas giratórias entre setor público e setor financeiro. A suspeita de que relatórios e pareceres podem ser moldados sob influência privada preocupa bancos concorrentes, investidores estrangeiros e milhões de correntistas expostos a uma eventual quebra de confiança no sistema.
Para a PF e o MPF, o foco imediato é rastrear a origem e o destino de eventuais pagamentos feitos por Vorcaro a servidores do Banco Central, identificar quem mais participa do suposto esquema e medir o impacto concreto das interferências sobre decisões regulatórias. A apuração inclui análise de mensagens, registros de acesso a sistemas internos, movimentações financeiras e agendas oficiais e paralelas.
O Banco Central, por sua vez, é pressionado a mostrar reação firme, revisar processos e blindar áreas sensíveis. A forma como a autarquia responde pode definir o tom de futuras reformas e influenciar propostas legislativas para reforçar transparência e responsabilização de dirigentes públicos. A investigação sobre Belline e seus interlocutores ainda está em curso e deixa em aberto uma pergunta central: até onde vai, de fato, a influência de interesses privados sobre a máquina que vigia os bancos brasileiros?
