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Chefe de gabinete de Starmer cai em crise Mandelson-Epstein

Morgan McSweeney renuncia neste domingo (8/2) ao cargo de chefe de gabinete do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em meio à maior crise do governo trabalhista. Ele assume “total responsabilidade” por ter patrocinado a nomeação de Peter Mandelson, hoje investigado por ligações com o bilionário condenado Jeffrey Epstein, para a embaixada do Reino Unido em Washington.

Crise estoura no coração de Downing Street

A saída de McSweeney atinge o centro político do governo e expõe fragilidades de uma administração que chega ao poder com ampla maioria, mas convive com turbulências em Downing Street. O conselheiro era visto internamente como o estrategista que redesenha o Partido Trabalhista desde antes da última eleição geral, na qual o partido conquista vitória esmagadora e leva Starmer ao número 10.

O próprio primeiro-ministro tenta, em público, separar a demissão do seu futuro político imediato. “Nosso partido e eu temos uma dívida de gratidão com ele”, afirma Starmer, em nota divulgada neste domingo, ao se referir a McSweeney. No Parlamento e nas redes, porém, a oposição conservadora pressiona para que a responsabilização chegue ao topo da cadeia de comando.

Líder dos conservadores, Kemi Badenoch acusa Starmer de terceirizar a culpa. Segundo ela, o premiê “precisa assumir responsabilidade por suas próprias decisões terríveis”, em referência à escolha de Mandelson para o posto mais sensível da diplomacia britânica, em plena volta de Donald Trump à Casa Branca.

Na carta de renúncia, McSweeney admite o erro político. “A decisão de nomear Peter Mandelson foi errada. Ele prejudicou nosso partido, nosso país e a confiança na própria política”, escreve. A mensagem tenta estancar danos e proteger Starmer, mas também cristaliza a percepção de que houve falha grave na avaliação de risco sobre um nome historicamente cercado de controvérsia.

A crise se alimenta de novas revelações que surgem em série desde o fim de 2025, quando documentos divulgados nos Estados Unidos detalham a proximidade entre Mandelson e Epstein. Em janeiro, a polícia britânica abre investigação criminal para apurar se Mandelson teria repassado informações sensíveis ao bilionário em 2009, época em que ocupava o cargo de secretário de Negócios do Reino Unido.

Da embaixada em Washington ao centro de um escândalo

Mandelson é nomeado embaixador em Washington em 2025, com aval direto de McSweeney, que vê no veterano trabalhista um negociador experiente para a era Trump. No início, a aposta parece acertada. Embaixadores estrangeiros em Washington relatam boa interlocução, e diplomatas britânicos descrevem Mandelson como hábil em reuniões delicadas com o novo governo americano.

O cenário vira quando vêm à tona e-mails de 2008 e 2009, anexados a processos civis nos Estados Unidos. As mensagens mostram Mandelson enviando palavras de apoio a Epstein enquanto o americano enfrenta acusações de crimes sexuais e negociava acordos judiciais. Outro conjunto de documentos, revelado depois, sugere que o então secretário de Negócios teria repassado informações sensíveis ao bilionário, o que agora é alvo de investigação criminal no Reino Unido.

As suspeitas não param aí. Papéis financeiros apontam que o marido brasileiro de Mandelson, Reinaldo Avila da Silva, recebe pagamentos que somam US$ 75 mil, cerca de R$ 390 mil, de empresas ligadas à fortuna de Epstein. Após a divulgação desses dados, Mandelson anuncia que deixa o Partido Trabalhista, alegando não querer “causar mais constrangimento” a Starmer e à legenda.

O Ministério das Relações Exteriores já havia demitido o embaixador em setembro de 2025, alegando “novas informações” sobre a profundidade da relação entre ele e Epstein. “Os e-mails mostram que a profundidade e a extensão do relacionamento de Peter Mandelson com Jeffrey Epstein são substancialmente diferentes do que se sabia na época de sua nomeação”, registra o comunicado oficial divulgado na ocasião.

Starmer agora acusa Mandelson de ter mentido no processo de verificação de segurança para assumir o posto em Washington. Nos bastidores, auxiliares dizem que o premiê se sente pessoalmente traído. Segundo apuração da BBC, aliados de Mandelson afirmam que ele acredita ter respondido de forma precisa às perguntas sobre o vínculo com Epstein e insiste que não comete crime nem age movido por ganho financeiro.

O caso, que já vinha corroendo a confiança em torno do governo, ganha nova dimensão com a queda de McSweeney. A imagem de estrategista infalível, construída ao longo de anos de militância trabalhista, dá lugar a dúvidas sobre o processo de triagem de autoridades em cargos-chave. A fotografia de Jaimi Joy, da Bloomberg, que circula em portais internacionais, ilustra o clima: um governo jovem, mas já sitiado por crises que lembram fim de mandato.

Pressão sobre Starmer e incerteza para o governo trabalhista

A renúncia de McSweeney reabre uma disputa de leitura política em Londres. Setores do Partido Trabalhista avaliam que a saída do chefe de gabinete funciona como um “para-raios” retirado do topo de Downing Street. Sem ele para absorver críticas, a cobrança tende a se concentrar diretamente em Starmer e em sua capacidade de escolher assessores e embaixadores.

Parlamentares da ala moderada temem que a sucessão de escândalos contamine a agenda legislativa, que inclui reformas econômicas prometidas para os próximos 12 meses. Cada sessão de perguntas ao primeiro-ministro no Parlamento vira terreno fértil para ataques da oposição, que tenta colar em Starmer a imagem de um líder que falha na prometida restauração de integridade à vida pública britânica.

Dentro do governo, a prioridade imediata é encontrar um novo chefe de gabinete com autoridade para reorganizar a máquina política de Downing Street. O posto, que controla o fluxo de informações para o premiê e costura acordos com o Parlamento, é decisivo para a sobrevivência de qualquer administração. Um nome visto como fraco ou sectário pode aprofundar divisões internas e comprometer a estabilidade da coalizão trabalhista.

A crise chega em um momento em que Starmer ainda tenta consolidar sua liderança após a expressiva vitória eleitoral. Em tese, a maioria conquistada nas urnas lhe garante folga para aprovar projetos. Na prática, o governo se vê obrigado a gastar capital político para conter danos de um caso que mistura diplomacia, finanças pessoais e o espectro tóxico do nome Jeffrey Epstein.

Para o eleitorado britânico, acostumado a anos de instabilidade sob governos conservadores, a sucessão de tropeços em um gabinete recém-empossado acende um sinal de alerta. A promessa de normalidade e profissionalismo, que ajuda a levar Starmer ao poder, entra em choque com a imagem de um governo que patina justamente na checagem de nomes para cargos de alta sensibilidade.

Próximos passos e dúvidas que permanecem

As atenções agora se voltam para três frentes. A primeira é a investigação policial sobre Mandelson, que deve avançar nos próximos meses com análise de e-mails de 2008 e 2009 e dos fluxos financeiros ligados ao patrimônio de Epstein. Se promotores concluírem que houve violação de sigilo oficial ou favorecimento indevido, o caso pode sair do campo político e entrar no terreno penal.

A segunda frente é interna, no Partido Trabalhista. A direção precisa decidir se abre uma revisão formal dos processos de checagem de antecedentes para cargos sensíveis, em especial embaixadas estratégicas como Washington. A depender do alcance dessa revisão, nomes próximos a McSweeney podem perder espaço, alterando o equilíbrio de poder dentro da máquina partidária e do governo.

A terceira diz respeito ao próprio Keir Starmer. O premiê tenta apresentar a queda de seu principal conselheiro como um gesto de responsabilização e aprendizado institucional, mas ainda não responde a todas as perguntas sobre o quanto sabia, e quando, a respeito da relação de Mandelson com Epstein. A resposta, ou a falta dela, pode definir se a crise ficará restrita ao episódio ou se marcará de forma duradoura a trajetória do governo trabalhista.

Enquanto Downing Street busca um novo chefe de gabinete e tenta retomar a agenda de governo, a pergunta que ecoa em Westminster é direta: a demissão de Morgan McSweeney encerra a tempestade ou apenas desloca o raio para o próprio primeiro-ministro?

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