Chefe da Otan diz que Europa precisa de 10% do PIB e bomba própria
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirma nesta segunda-feira (26), no Parlamento Europeu, que a Europa não consegue se defender sem os Estados Unidos. Ele diz que o bloco teria de gastar 10% do próprio PIB em defesa e desenvolver arsenal nuclear próprio para tentar alcançar autonomia militar.
Dependência do guarda-chuva nuclear americano
Rutte fala a eurodeputados em Bruxelas num momento de tensão com Washington, após uma semana marcada pela insistência de Donald Trump em anexar a Groenlândia aos Estados Unidos. O chefe da Otan não suaviza o diagnóstico. “Se alguém ainda pensa que a União Europeia, ou a Europa como um todo, pode se defender sem os EUA, continue sonhando. Vocês não podem. Nós não podemos. Precisamos uns dos outros”, afirma.
Ao longo de cerca de meia hora de discurso, o holandês descreve o custo financeiro e político de uma defesa europeia verdadeiramente autônoma. Segundo ele, os países do continente teriam de elevar os gastos militares para algo em torno de 10% do PIB, patamar quatro a cinco vezes superior à meta atual de 2% estabelecida pela própria Otan. “Se realmente quiserem fazer isso sozinhas, precisarão construir sua própria capacidade nuclear. Isso custará bilhões de euros”, alerta.
O recado mira diretamente governos que, desde a eleição de Trump, falam em “autonomia estratégica” da União Europeia. Para Rutte, sem o guarda-chuva nuclear americano, que funciona desde a Guerra Fria como principal garantia de dissuasão contra Rússia e, mais recentemente, China, a Europa se expõe a riscos que não consegue bancar sozinha. “Nesse cenário, vocês perderão a garantia máxima da nossa liberdade, que é o guarda-chuva nuclear dos EUA. Então, boa sorte”, provoca.
A fala ecoa discussões que ganham força em capitais como Paris e Berlim sobre a necessidade de uma política de defesa mais integrada, com comando, orçamento e indústria próprios. Por trás das estatísticas, está o contraste entre uma Europa que soma quase 450 milhões de habitantes e mais de € 16 trilhões em PIB, mas que ainda depende de bases, satélites, mísseis e ogivas controlados por Washington.
Groenlândia, Ártico e o novo tabuleiro geopolítico
O discurso de Rutte não se limita aos números. Ele se ancora na crise aberta pela pressão de Trump para anexar a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca, e nos reflexos dessa ofensiva no Ártico. A região, antes sinônimo de isolamento, vira rota comercial e corredor militar à medida que o gelo recua e abre novos caminhos marítimos entre o Atlântico e o Pacífico.
O chefe da Otan surpreende ao sair em defesa do presidente americano, apesar do desconforto entre aliados europeus. “Acho que ele está certo. Há uma questão com a região do Ártico. Há uma questão de segurança coletiva, porque essas rotas marítimas estão se abrindo e porque os chineses e os russos estão cada vez mais ativos”, diz. Ele reconhece que elogiar Trump irrita outros líderes, mas insiste que a disputa no extremo norte não é fantasia.
Rutte descreve duas frentes de atuação a partir de agora. Na primeira, a Otan assume mais responsabilidade coletiva pela defesa do Ártico, com foco em conter o avanço militar e econômico de Rússia e China na área. Isso envolve, na prática, mais exercícios navais, presença aérea contínua e cooperação de inteligência em torno de portos, bases e cabos submarinos do Polo Norte até o Atlântico Norte.
Na segunda linha, seguem as negociações trilaterais entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia, que tratam de acesso militar, exploração de recursos e possíveis compensações financeiras. Rutte se afasta formalmente desse processo. “Não participarei das reuniões, não tenho mandato para negociar em nome da Dinamarca e não o farei”, afirma, ao ser questionado por eurodeputados sobre seu papel nos bastidores.
No início do mês, chanceleres de Dinamarca e Groenlândia se reúnem em Washington com o vice-presidente americano, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. O ex-premiê dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, que acompanha de perto o dossiê, classifica a conversa como “construtiva”, mas admite que persiste uma “divergência fundamental”. Dias depois, Trump e Rutte se encontram em Davos, na Suíça, onde o presidente americano anuncia uma “estrutura de acordo” para a Groenlândia e recua na ameaça de impor tarifas a países europeus contrários à anexação.
Os detalhes desse arranjo seguem nebulosos. Não está claro se há compromissos de longo prazo sobre bases militares, mineração ou controle de rotas marítimas. Também não se sabe até onde Rutte atua como mediador informal para reduzir o choque entre a Casa Branca e governos europeus. O que se consolida, porém, é a percepção de que o Ártico se torna novo eixo de tensão entre potências, com impacto direto sobre a agenda da Otan.
Disputa por orçamento e futuro da segurança europeia
O alerta sobre 10% do PIB em defesa cai como uma provocação calculada em capitais acostumadas a resistir a gastos militares. Em 2025, poucos membros da Otan na Europa atingem a meta de 2% aprovada em cúpulas recentes. A grande maioria ainda oscila entre 1% e 1,8%, pressionada por orçamentos apertados e demandas sociais internas. Levar esse número a 10% significaria cortes profundos em saúde, educação e infraestrutura, além de uma guinada política difícil de vender a eleitores.
Nos bastidores de Bruxelas, diplomatas leem a fala de Rutte menos como proposta concreta e mais como exercício de choque de realidade. O recado é que a retórica de “soberania europeia” não se sustenta sem sacrifícios orçamentários e tecnológicos de décadas. Construir um arsenal nuclear próprio exigiria, além de bilhões em investimento, enfrentamento de tabus históricos em países como Alemanha e Itália, marcados pela memória da Segunda Guerra e por movimentos pacifistas ativos.
O impacto imediato recai sobre debates internos nas principais economias do bloco. Em Berlim, a coalizão de governo já enfrenta resistência ao envio de armas de longo alcance a zonas de conflito e à ampliação do serviço militar. Em Paris, onde a França é a única potência nuclear da União Europeia, a fala de Rutte reabre a discussão sobre se o arsenal francês poderia, algum dia, ser colocado sob guarda-chuva europeu, algo que hoje encontra forte oposição doméstica.
A própria relação transatlântica entra em nova fase de tensão. Ao mesmo tempo em que reconhece a centralidade dos Estados Unidos para a segurança europeia, o discurso de Rutte explicita a assimetria de poder dentro da Otan. Washington banca a maior parte da estrutura nuclear, do comando integrado e da capacidade de resposta rápida. Em troca, cobra lealdade política e flexibilidade em temas sensíveis, como sanções econômicas e alinhamento em disputas com China e Rússia.
Especialistas ouvidos em Bruxelas projetam que a fala do secretário-geral acelera uma corrida por planos de contingência. Ministérios da Defesa revisam cenários em que os EUA reduzem sua presença em bases na Alemanha, Itália e Espanha ou condicionam apoio militar a concessões comerciais. A pressão por mais investimento em tecnologia de defesa, de drones a satélites, tende a aumentar já nos próximos orçamentos nacionais.
Pressão política e dúvidas sobre a autonomia europeia
O aviso de Rutte também repercute no Parlamento Europeu, onde partidos verdes e de esquerda veem com desconfiança qualquer movimento rumo à nuclearização do continente. Para esses grupos, a defesa europeia deve se concentrar em diplomacia, cooperação civil e proteção climática, não em ogivas e submarinos. A referência a 10% do PIB em defesa é lida como ameaça ao pacto social que sustenta o Estado de bem-estar na região desde o pós-guerra.
Governos mais alinhados a Washington, por outro lado, enxergam no discurso uma oportunidade de reforçar o vínculo com os EUA num cenário global fragmentado. Países do Leste Europeu, como Polônia e Estados bálticos, que vivem na linha de frente com a Rússia, tendem a defender uma presença ainda maior de tropas e equipamentos americanos em seu território, em vez de apostar apenas em capacidades europeias.
O desfecho desse embate passa por decisões de orçamento, eleições nacionais e pela própria trajetória política de Trump, que volta a usar a Otan e os aliados europeus como peça em sua estratégia doméstica. A cada nova ameaça de tarifa ou de redução de tropas, cresce o custo político da dependência, mas também fica mais evidente o tamanho do salto que a Europa teria de dar para caminhar sozinha.
Rutte encerra o discurso sem oferecer um roteiro detalhado, mas deixa um ponto incontornável na agenda dos próximos anos: ou a Europa aceita pagar o preço de uma autonomia militar real ou admite, de forma transparente, que continuará sob o guarda-chuva nuclear americano. Entre essas duas opções, o continente tenta encontrar espaço para negociar com Washington, conter Rússia e China no Ártico e, ao mesmo tempo, preservar o pacto social que o define desde 1945. A resposta ainda não aparece, mas o tempo para adiá-la parece ficar cada vez mais curto.
