Chefe da diplomacia da UE alerta que racha com EUA fortalece rivais
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirma nesta quinta-feira (22) que os desentendimentos entre Europa e Estados Unidos prejudicam aliados e fortalecem adversários. A declaração ocorre em meio à tentativa de esfriar a crise aberta pelas ameaças do presidente americano Donald Trump contra a Groenlândia e o bloco europeu. Para Bruxelas, o desgaste atinge o coração de uma parceria de 80 anos.
Alerta em Bruxelas após dias de ameaças
Em entrevista a jornalistas na sede da União Europeia, em Bruxelas, Kallas resume o clima entre os aliados. “Desentendimentos que aliados como a Europa e os Estados Unidos têm entre si só beneficiam nossos adversários, que estão observando e apreciando a situação”, diz. A frase ecoa uma preocupação compartilhada por governos que veem a relação transatlântica entrar em zona de turbulência prolongada.
O choque mais recente envolve a Groenlândia, território estratégico no Ártico, ligado ao Reino da Dinamarca. Nos últimos dias, Trump ameaça rever acordos de defesa e aplicar sanções contra parceiros europeus, antes de recuar e sinalizar um entendimento em construção. O movimento deixa líderes do bloco em alerta, diante de um padrão de idas e vindas que fragiliza a previsibilidade da aliança.
O presidente francês, Emmanuel Macron, tenta acalmar os ânimos, sem esconder a desconfiança. “As coisas estão se acalmando e devemos acolher isso”, afirma. Na mesma frase, avisa que a Europa não abaixa a guarda. “Continuamos extremamente vigilantes e prontos para usar os instrumentos à nossa disposição caso voltemos a ser alvo de ameaças”, diz, em referência ao pacote de sanções de “bazuca” que o bloco coloca na mesa durante a crise.
Para Kallas, a mensagem é dupla: preservar o vínculo com Washington e, ao mesmo tempo, admitir que a relação já não é automática. “A Europa não está disposta a jogar fora 80 anos de boas relações transatlânticas por causa de desentendimentos… estamos dispostos a investir nosso tempo e energia nisso”, afirma. O recado é dirigido tanto à opinião pública europeia quanto à Casa Branca.
Dependência em xeque e disputa por influência
No pano de fundo, diplomatas da UE admitem que a crise com Trump acelera um debate que vinha sendo empurrado para depois: até onde vai a dependência estratégica em relação aos Estados Unidos. Um diplomata ouvido em Bruxelas resume a nova equação. “Trump ultrapassou um ponto sem volta. Ele pode fazer isso novamente. Não há como voltar ao que era antes. E os líderes vão discutir isso”, afirma, em condição de anonimato.
O bloco começa a desenhar um plano de longo prazo para lidar com a atual administração americana e possíveis futuras gestões de perfil semelhante. A meta é reduzir a exposição em áreas sensíveis, da defesa à tecnologia, sem romper com o aliado histórico. “Precisamos tentar mantê-lo (Trump) por perto, ao mesmo tempo em que trabalhamos para nos tornar mais independentes dos EUA. É um processo, provavelmente longo”, diz o mesmo diplomata. O cálculo leva em conta um comércio bilateral que supera US$ 1 trilhão por ano e uma integração militar consolidada desde a criação da Otan, em 1949.
A crise da Groenlândia ilustra o dilema. A ilha, com pouco mais de 56 mil habitantes e vastas reservas de minerais e acesso às rotas do Ártico, torna-se peça central na disputa geopolítica entre potências ocidentais, Rússia e China. Trump vê no território uma plataforma militar e econômica, enquanto europeus reforçam a defesa da soberania dinamarquesa. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, tenta equilibrar interesses. “Estou mais do que disposta a discutir a cooperação em segurança na Groenlândia com os Estados Unidos — desde que a soberania seja respeitada”, afirma. Em seguida, manda recado claro: “Temos de trabalhar juntos de forma respeitosa, sem ameaçar uns aos outros”.
O embate não se limita ao Ártico. Em Bruxelas, cresce a percepção de que cada ruído entre EUA e UE abre espaço para adversários estratégicos. Rússia e China acompanham de perto o desgaste da parceria transatlântica e tentam ocupar brechas em temas como energia, infraestrutura digital e venda de armamentos. A avaliação de Kallas, ao insistir que os desentendimentos “só beneficiam nossos adversários”, reflete esse temor.
Busca por autonomia e próximos passos
Governos europeus discutem agora uma agenda de fortalecimento interno que inclui maior integração em defesa, investimentos conjuntos em tecnologia sensível e diversificação de fornecedores de energia. A lógica é simples: quanto menos vulnerabilidade, mais margem de negociação com Washington. Na prática, isso significa acelerar projetos que, até poucos anos atrás, enfrentavam resistência de países que temiam irritar os Estados Unidos.
No campo político, a estratégia passa por manter abertos todos os canais com a Casa Branca, inclusive no Congresso americano, onde há setores menos alinhados ao estilo confrontacional de Trump. Bruxelas aposta em acordos específicos, como entendimentos comerciais setoriais e cooperação em segurança na fronteira leste da Europa, para manter alguma previsibilidade. Ao mesmo tempo, sinaliza que está disposta a reagir se novas ameaças econômicas voltarem à mesa.
A avaliação de Kallas, Macron, Frederiksen e outros líderes converge em um ponto: a relação com os Estados Unidos continua vital para a segurança e a economia da União Europeia, mas já não pode ser tratada como garantida. O bloco procura um equilíbrio delicado entre contenção de danos imediatos, como a crise da Groenlândia, e uma reconfiguração estrutural de sua posição no mundo.
Os próximos meses serão decisivos para medir até onde vai a disposição do governo Trump de reconstruir confiança com os europeus e até onde a UE está pronta para bancar maior autonomia. Entre o desejo de preservar 80 anos de parceria e a necessidade de se adaptar a um cenário mais duro, líderes europeus ainda buscam resposta para uma pergunta central: como manter os Estados Unidos por perto sem ficar novamente à mercê de seus sobressaltos?
