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Cessar-fogo EUA-Irã range sob ofensiva israelense que mata 182 no Líbano

Um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã começa a ruir menos de 24 horas após o anúncio, em 8 de abril de 2026. Ataques israelenses em massa no Líbano matam ao menos 182 pessoas e expõem fissuras no acordo, que nem todos reconhecem como válido em território libanês.

Trégua sitiada por bombardeios no Líbano

Israel desencadeia na quarta-feira uma onda de bombardeios que atinge cerca de cem alvos em apenas dez minutos em diferentes regiões do Líbano, segundo as Forças de Defesa de Israel. Hospitais de Beirute e de cidades no Vale do Bekaa relatam superlotação, enquanto o Ministério da Saúde libanês confirma mais de 180 mortos e pede que moradores permaneçam em casa para liberar as ruas para ambulâncias.

O governo libanês fala em “total desrespeito” ao direito internacional e acusa Israel de atingir bairros densamente povoados. Em mensagem publicada no X, o primeiro-ministro Nawaf Salam convoca “todos os amigos do Líbano” a deter a ofensiva “por todos os meios disponíveis”. Canais próximos ao Hezbollah, como a TV Al Manar, informam múltiplas mortes em subúrbios ao sul de Beirute e em áreas montanhosas, sugerindo que o número de vítimas pode subir.

O Hezbollah responde com foguetes disparados contra o norte de Israel nas primeiras horas de quinta-feira, em desafio aberto à trégua anunciada entre Washington e Teerã. O grupo xiita, apoiado pelo Irã, insiste em vincular sua ação aos ataques israelenses, enquanto o governo de Benjamin Netanyahu afirma que a organização está fora do escopo do acordo.

Netanyahu diz que Israel mantém o “dedo no gatilho” e promete continuar atingindo o Hezbollah “com força” até eliminar a ameaça ao norte do país. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirma que Israel quer “separar os cenários entre o Irã e o Líbano” para, nas palavras dele, mudar a realidade no território libanês e remover riscos à fronteira israelense.

Disputa sobre alcance do acordo e pressão em Ormuz

Enquanto explosões sacodem o Líbano, a batalha política se desloca para a definição de onde, exatamente, a trégua vale. Em Teerã, o vice-ministro das Relações Exteriores Saeed Khatibzadeh afirma à BBC que o Irã enviou na noite de quarta-feira uma mensagem direta ao Salão Oval: “Não se pode ter tudo”. Ele acusa Washington de aceitar termos que incluíam o Líbano e, ao mesmo tempo, tolerar o que descreve como “massacre” conduzido por um aliado.

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, declara que três pontos de uma proposta de dez itens do Irã já foram “claramente violados”. Para ele, diante disso, um “cessar-fogo bilateral ou negociações” se tornam “irracionais”. Ghalibaf sustenta que o Líbano faz parte do arranjo. A Casa Branca nega e alega que o texto divulgado pela mídia estatal iraniana não corresponde ao documento recebido por autoridades americanas.

Donald Trump tenta preservar a narrativa de um acordo sob controle, mas endurece o tom. Em postagem na Truth Social, o presidente americano garante que navios, aeronaves e tropas dos EUA continuam posicionados no Golfo e arredores do Irã. Ele afirma que, se o “acordo real” não for cumprido, “os tiroteios começarão, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais viu”.

O chanceler iraniano, Seyed Abbas Araghchi, reage dizendo que “a bola está no campo dos Estados Unidos”. Em publicação no X, ele afirma que os termos do cessar-fogo são “claros e explícitos” e desafia Washington a escolher entre um acordo ou a continuidade da guerra “via Israel”. Khatibzadeh reforça a mensagem: “Eles não podem ter as duas coisas ao mesmo tempo”.

No terreno, a tensão se concentra também no estreito de Ormuz, principal gargalo marítimo de petróleo do planeta. O cessar-fogo prevê a retomada do tráfego pelo corredor por onde passa cerca de 20% do petróleo global, mas sinais trocados por Washington e Teerã deixam o mundo sem segurança sobre o que de fato ocorre na rota.

Veículos iranianos ligados à Guarda Revolucionária relatam que o estreito está novamente fechado após a intensificação dos ataques israelenses ao Líbano. Eles citam dados de rastreamento marítimo e descrevem petroleiros que se aproximam, mas recuam. A agência Fars divulga mensagem de rádio da Guarda Revolucionária a navios no Golfo, afirmando que a travessia permanece fechada e que qualquer embarcação que tente cruzar Ormuz sem autorização será “alvejada e destruída”.

A Casa Branca reage de imediato. A porta-voz Karoline Leavitt chama as informações de “falsas” e afirma que, em privado, o Irã comunica o oposto, com aumento de tráfego na quarta-feira. Ela diz que a expectativa de Trump é que o estreito seja aberto “imediatamente”. O Irã, por sua vez, insiste que só garantirá a reabertura plena “depois que os Estados Unidos de fato retirarem essa agressão”, em referência aos ataques israelenses.

Risco de escalada e impacto global do impasse

O cruzamento de narrativas deixa a trégua em um limbo perigoso. A Guarda Revolucionária avisa que dará uma “resposta que vai causar arrependimento” se os ataques ao Líbano continuarem. Ao mesmo tempo, o Hezbollah se recusa a aceitar que o cessar-fogo não o inclui e mantém pressão com foguetes contra o território israelense, ainda que em escala menor do que em ofensivas passadas.

Uma declaração conjunta de líderes do Reino Unido, França, Itália, Alemanha, Canadá, Dinamarca, Países Baixos, Espanha, Comissão Europeia e Conselho Europeu pede que “todas as partes” respeitem o cessar-fogo de duas semanas, explicitamente “inclusive no Líbano”. O apelo escancara o desconforto europeu com a leitura de Washington e de Israel, que tratam o campo de batalha libanês como “confronto à parte”.

Na sede da Otan, o clima também se deteriora. Após reunião na Casa Branca, o secretário-geral Mark Rutte relata que Trump está “claramente desapontado” com aliados da aliança. Em seguida, o presidente americano volta às redes para acusar a Otan de não estar “ao nosso lado quando precisamos”. O recado expõe rachaduras políticas num momento em que um erro de cálculo militar no Golfo pode afetar o fornecimento de energia em vários continentes.

No Líbano, a população paga a conta imediata da ambiguidade diplomática. Hospitais lotados e bairros em ruínas contrastam com a discussão abstrata sobre a redação de planos de dez pontos. O apelo de Nawaf Salam para que a comunidade internacional use “todos os meios disponíveis” ecoa o medo de que os próximos dias tragam não apenas mais ataques, mas também um colapso humanitário em larga escala.

Na economia global, a incerteza em torno de Ormuz já coloca operadores de petróleo e empresas de transporte em alerta máximo. Um bloqueio efetivo, ainda que parcial e temporário, tem potencial de pressionar preços de energia, alimentar inflação e reabrir feridas ainda recentes de choques anteriores no Golfo. A simples ameaça de que navios possam ser “alvejados e destruídos” muda cálculos de risco e seguro marítimo.

Próximos dias definem se trégua sobrevive

Negociadores em Washington, Teerã e capitais europeias tentam, nas próximas horas, salvar ao menos a arquitetura básica do cessar-fogo. O Irã cobra garantias escritas de que o Líbano está incluído na trégua. Os Estados Unidos evitam amarrar Israel a novos compromissos formais. Trump insiste em falar em “acordo real” ainda em elaboração, num aceno de que o entendimento anunciado até agora é mais frágil do que o discurso público sugere.

O estreito de Ormuz permanece como termômetro da crise. Qualquer confirmação de fechamento prolongado pode forçar países consumidores de energia a intervir com mais força nas negociações. Uma retomada visível do fluxo de petroleiros, ao contrário, daria algum fôlego à trégua, mesmo sob o ruído das bombas sobre o Líbano.

Entre o discurso de força de Trump, as ameaças da Guarda Revolucionária e a recusa de Israel em incluir o Hezbollah na pausa, a pergunta que se impõe é se o cessar-fogo ainda existe além do papel. A resposta, nas próximas duas semanas, tende a vir menos das mesas de negociação e mais do volume de foguetes lançados, do silêncio — ou não — dos radares em Ormuz e da capacidade do mundo de impor um limite à escalada antes que ela escape de controle.

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