Ultimas

Cessar-fogo entre EUA e Irã vacila após ofensiva israelense no Líbano

Pouco mais de 24 horas depois de Donald Trump anunciar um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, a trégua já entra em zona de risco. Uma ofensiva aérea israelense no Líbano, que deixa ao menos 182 mortos, expõe fissuras no acordo e reacende o temor de uma nova escalada regional.

Trégua contestada em meio a bombardeios

Na quarta-feira, 8 de abril, a Força de Defesa de Israel lança o que descreve como seus “maiores ataques” contra o Hezbollah desde o início da ofensiva terrestre. Em apenas dez minutos, segundo os militares israelenses, cem alvos são atingidos em Beirute, no Vale do Bekaa e em áreas montanhosas do país. Hospitais libaneses relatam superlotação, e o Ministério da Saúde pede que moradores evitem sair às ruas para liberar as vias para ambulâncias.

Do outro lado, em Teerã, a reação é imediata. A Guarda Revolucionária do Irã ameaça dar uma “resposta que vai causar arrependimento” se as incursões não cessarem. “Qualquer ataque ao orgulhoso Hezbollah é um ataque ao Irã”, afirma uma autoridade citada pela agência estatal IRNA. O grupo xiita libanês, apoiado por Teerã, diz disparar foguetes contra o norte de Israel nas primeiras horas de quinta-feira em resposta às “violações do cessar-fogo”.

O próprio desenho da trégua se torna alvo de disputa. O vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Saeed Khatibzadeh, afirma em entrevista à BBC que o Líbano está explicitamente incluído no acordo. “Não se pode pedir um cessar-fogo e depois aceitar os termos e condições, mencionar o Líbano, e então seu aliado simplesmente inicia um massacre”, diz, em recado direto à Casa Branca.

Trump sustenta outra versão. Em post na rede Truth Social, o presidente americano afirma que Israel não viola o pacto com Teerã e classifica o Líbano como “um confronto à parte”. O vice-presidente J.D. Vance reforça o argumento ao declarar que os Estados Unidos “nunca prometeram incluir o Líbano no cessar-fogo”. A Casa Branca também nega que tenha recebido a proposta iraniana de dez pontos divulgada pela mídia estatal, descrevendo os autores como “falsários” e “charlatães”.

Em Teerã, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, insiste que “três pontos” da proposta iraniana foram “claramente violados” e que, nessas condições, um “cessar-fogo bilateral ou negociações” se tornam “irracionais”. O ministro das Relações Exteriores, Seyed Abbas Araghchi, pressiona Washington: “A bola está no campo dos Estados Unidos, e o mundo observa se eles cumprirão seus compromissos”.

Estreito de Ormuz vira termômetro da crise

A disputa em torno do estreito de Ormuz transforma a trégua em questão global. Por aquela faixa de mar, com cerca de 34 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, circula aproximadamente 20% do petróleo consumido no planeta. A reabertura plena do corredor marítimo é uma das condições centrais do cessar-fogo de duas semanas.

Enquanto aviões israelenses atingem o Líbano, veículos estatais iranianos informam que o estreito é novamente fechado. A agência Fars relata que apenas dois petroleiros passam na manhã de quarta-feira, com autorização de Teerã, antes de a travessia ser suspensa. A IRNA publica mensagens enviadas a navios no Golfo Pérsico: qualquer embarcação que tentar cruzar a rota “será alvejada e destruída” sem autorização da Guarda Revolucionária.

Em Washington, a reação é de desmentido público e pressão privada. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, chama de “falsa” a informação de fechamento total e diz que há, na verdade, “aumento” no tráfego de navios. Ela afirma que Trump recebe garantias reservadas de que o estreito “está sendo aberto imediatamente”. O Irã, por sua vez, sinaliza que só normaliza a passagem “depois que os Estados Unidos de fato retirarem essa agressão”, em referência aos ataques de Israel ao Líbano.

O impasse alimenta a volatilidade nos mercados de energia, já abalados por mais de um mês de confrontos diretos e indiretos entre EUA, Israel e Irã. A simples ameaça de fechamento total de Ormuz é suficiente para disparar apostas em alta do petróleo e elevar o custo de transporte em rotas alternativas. Países europeus, Canadá e instituições da União Europeia divulgam comunicado conjunto pedindo “paz rápida e duradoura” e o cumprimento do cessar-fogo “inclusive no Líbano”.

No Líbano, o efeito é imediato e concreto. O Ministério da Saúde contabiliza mais de 180 mortes nos bombardeios de quarta-feira, enquanto o primeiro-ministro Nawaf Salam acusa Israel de mirar “bairros residenciais densamente povoados” e demonstra “total desrespeito” ao direito internacional. Em apelo público, ele pede a “todos os amigos do Líbano” que atuem para deter as operações militares “por todos os meios disponíveis”.

Pressão sobre Washington e risco de escalada regional

A ofensiva de Israel também expõe as fraturas entre aliados ocidentais. Na Casa Branca, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, sai de uma reunião com Trump dizendo que o presidente está “claramente desapontado” com a aliança. Pouco depois, o republicano publica que “a Otan não esteve ao nosso lado quando precisamos — e não estará se precisarmos novamente”.

Trump, ao mesmo tempo, endurece o discurso em direção a Teerã. “Todos os navios, aeronaves e militares dos EUA […] permanecerão em suas instalações no Irã e arredores até que o acordo real seja totalmente cumprido”, escreve na Truth Social. E ameaça: “Se, por qualquer motivo, isso não acontecer, então os tiroteios começarão, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais viu”. Ele repete que “não haverá armas nucleares” iranianas e promete manter o estreito de Ormuz “aberto e seguro”.

Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirma que o cessar-fogo não inclui o Hezbollah. “Estamos continuando a atingi-los com força”, diz, ao reivindicar ter desferido “o maior golpe” contra o grupo. O ministro da Defesa Israel Katz fala em “separar os cenários entre o Irã e o Líbano” para “mudar a realidade” no país vizinho e afastar as ameaças à população do norte israelense. A liderança em Jerusalém repete que não pretende encerrar a presença militar no território libanês antes de neutralizar a capacidade do Hezbollah.

No Irã, Khatibzadeh insiste que Washington precisa “escolher” entre guerra e paz. “Eles não podem ter as duas coisas ao mesmo tempo”, afirma. Segundo ele, Teerã e seus aliados, inclusive o Hezbollah, estão “dispostos a aceitar o cessar-fogo”, desde que o acordo seja aplicado também ao Líbano. Em paralelo, diplomatas paquistaneses, que mediam o pacto, sustentam que a trégua vale em solo libanês, versão que colide com o relato americano.

O resultado é um cessar-fogo que vigora no papel, mas oscila no campo de batalha e no mar. Cada nova explosão em Beirute, cada navio que hesita à entrada de Ormuz, amplia a dúvida central: até que ponto Washington consegue controlar um conflito travado também por meio de aliados armados? Nas próximas semanas, o comportamento de Israel no Líbano e a abertura efetiva do estreito tendem a definir se a pausa de duas semanas será ponte para uma negociação mais ampla ou apenas o prelúdio de uma escalada ainda mais perigosa no Oriente Médio.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *