Ceará joga mal, perde invencibilidade e vê Copa do Nordeste se complicar
O Ceará perde para o Retrô por 3 a 1 neste sábado, 28, nos Aflitos, e vê ruir uma sequência de 16 jogos de invencibilidade em 2026. A atuação frágil, com falhas técnicas e expulsão de Lucas Lima, deixa o time sem vitórias na Copa do Nordeste e sob pressão crescente.
Atuação apática abre espaço para Retrô e vira alerta
O fim da invencibilidade não vem em um jogo equilibrado, decidido em detalhe. Acontece em uma das piores atuações do Ceará na temporada, pela segunda rodada da Copa do Nordeste. A equipe de Mozart entra em campo com escalação mesclada, rende pouco com a bola e assiste a um Retrô mais simples, mas objetivo, construir o resultado em Recife.
O primeiro tempo do Alvinegro nos Aflitos é lento, previsível e desconectado. O Ceará cria pouco, não pressiona a saída adversária e se perde em trocas de passes laterais, sem infiltração. O goleiro Jefferson Paulino, do Retrô, faz apenas duas defesas em cerca de 50 minutos, ambas em chutes fracos, que não exigem reflexo nem elasticidade.
O problema não é só coletivo. Vários jogadores têm atuação abaixo do esperado. Melk se salva, com alguma lucidez na articulação ofensiva, buscando o jogo entre as linhas e oferecendo passes verticais. Ao redor dele, porém, o cenário é de dispersão. Juan Alano, dono da camisa 10, erra escolhas, se esconde da bola e some entre volantes e zagueiros rivais. Fernandinho, mantido como titular em mais uma aposta de Mozart, passa 45 minutos sem concluir com perigo e pouco participa da construção.
A falta de sintonia se transforma em gol do Retrô aos 35 minutos. Em lance que nasce de erro de Sánchez, estreante como titular, a defesa alvinegra se desorganiza na bola parada. Fernandinho, do Retrô, aparece na área e cabeceia sem sequer precisar subir muito para abrir o placar: 1 a 0. Dois minutos depois, em novo escanteio, o atacante quase repete o roteiro, e a bola passa rente à trave de Richard, expondo a fragilidade do sistema defensivo cearense.
Reação curta, expulsão e fim da sequência invicta
O intervalo força Mozart a mexer. Richardson sai, Matheusinho entra, e o Ceará enfim ganha profundidade. Logo aos 3 minutos, o atacante recebe lançamento perfeito, invade a área sem marcação e tem o gol escancarado à frente. Em vez de finalizar, tenta passe para Melk e erra. O lance escancara a falta de confiança de quem não vive boa fase.
A chance perdida poderia afundar o time, mas a dupla ainda encontra espaço para reagir. Aos 6 minutos, Melk se livra da marcação pela linha de fundo, cruza rasteiro e encontra Matheusinho livre. Desta vez, o atacante só empurra para o gol e empata o jogo: 1 a 1. O Ceará vive seu melhor momento na partida, com mais intensidade, marcação alta e aproximação entre meio-campo e ataque.
A reação dura pouco. Depois do gol, a equipe recua alguns metros, volta a rifar a bola com lançamentos longos e perde a iniciativa. O Retrô aproveita o vazio criativo alvinegro, retoma o controle da posse e passa a rodar o jogo no campo ofensivo. Aos 21 minutos, Radsley recebe na intermediária, encontra espaço e acerta um chute forte de fora da área. A bola entra no canto de Richard, que se estica, mas não alcança: 2 a 1.
O gol desmonta o pouco de organização que restava ao Ceará. Mozart tenta reagir com substituições, mexe na zaga com a entrada de Éder, altera o meio com Lucas Lima e tenta dar gás novo ao ataque. A resposta em campo é tímida. O time não consegue criar chances claras, insiste em cruzamentos previsíveis e oferece contra-ataques.
Aos 34 minutos, a noite fica ainda mais pesada. Lucas Lima, que já tinha recebido cartão amarelo, chega atrasado em disputa no meio-campo, comete nova falta e é expulso. O meia deixa o gramado sob protestos da própria torcida alvinegra presente nos Aflitos. Com um jogador a menos, o Ceará perde qualquer poder de reação.
O Retrô administra a vantagem e ainda amplia nos acréscimos. Aos 49 minutos do segundo tempo, Vagner Love, em sua despedida dos gramados, aproveita espaço na área e marca o terceiro gol. O 3 a 1 encerra de forma simbólica a sequência de 16 partidas sem derrota do Ceará em 2026 e transforma a Copa do Nordeste em foco de preocupação.
Pressão sobe sobre Mozart e Copa do Nordeste entra em risco
A derrota nos Aflitos pesa mais do que três pontos. O Ceará chega a quatro jogos seguidos sem vitória na temporada e segue sem somar um triunfo sequer na Copa do Nordeste. No Grupo C, a combinação de empates anteriores e do revés em Recife deixa o time em situação delicada na corrida por vaga na próxima fase, com margem cada vez menor para tropeços.
O desempenho preocupa tanto quanto o resultado. A equipe mostra dificuldades para criar chances claras, mesmo contra um adversário mais modesto em orçamento e elenco. A dependência de lampejos individuais, como os de Melk, expõe a falta de repertório ofensivo. O time gira a bola, mas pouco infiltra, finaliza pouco e não sustenta períodos longos de domínio.
As escolhas de Mozart entram no centro do debate. A insistência em Fernandinho, que novamente rende pouco, e o uso de uma formação mesclada em jogo importante alimentam as críticas. A expulsão de Lucas Lima, que poderia ser um organizador em campo pesado e partida travada, amplia a sensação de descontrole emocional em um momento-chave.
O Retrô, por outro lado, ganha fôlego no grupo com a vitória. Com um time ajustado e consciente de suas limitações, a Fênix aproveita as falhas alvinegras, marca bem por dentro, é objetiva nas bolas paradas e nos chutes de média distância. O resultado reacende as chances de classificação da equipe pernambucana e mostra que o equilíbrio no Grupo C é maior do que o previsto no início da competição.
Calendário aperta e Ceará precisa de resposta imediata
O calendário não oferece muito tempo para lamentações. O Ceará volta a campo nos próximos dias já sob um ambiente mais pesado, com pressão da torcida e cobranças internas por mudanças. O desempenho na Copa do Nordeste passa a ser um teste direto para o trabalho de Mozart e para a capacidade de reação de um elenco que inicia 2026 com expectativas altas.
O desafio imediato é duplo. A comissão técnica precisa ajustar o sistema defensivo em bolas paradas, reorganizar o meio-campo sem depender de um único articulador e encontrar soluções para um ataque que finaliza pouco. A diretoria, por sua vez, monitora o clima no vestiário e na arquibancada, consciente de que novos tropeços no torneio regional podem transformar uma fase ruim em crise aberta. A resposta do Ceará nos próximos jogos dirá se a noite nos Aflitos foi apenas um ponto fora da curva ou o retrato fiel de um time que ainda não encontra seu caminho em 2026.
